terça-feira, agosto 07, 2007

Deus no campus

Professora universitária enfrenta preconceito ao promover debate sobre o criacionismo

A Dra. Eloísa Tudella nasceu em Sorocaba, SP, em 1956. Desde 1980, trabalha como professora no curso de graduação em Fisioterapia, na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). Também leciona no Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia (mestrado e doutorado), do qual atualmente é vice-coordenadora. Além disso, coordena o Núcleo de Estudos em Neuropediatria e Motricidade e os cursos de especialização em Intervenção em Neuropediatria. Dona de sólida carreira acadêmica, tem dezenas de artigos publicados em periódicos científicos nacionais e internacionais.

Freqüenta a Igreja Adventista Central de São Carlos, com sua filha Júlia, de 14 anos.

Nesta entrevista, concedida a Michelson Borges, Eloísa conta um pouco de sua experiência de conversão, de sua postura cristã num ambiente fortemente secularizado e das conseqüências de uma série de palestras criacionistas que ela organizou na Ufscar.

Durante algum tempo você andou afastada de Deus. O que a fez retornar para Ele?

Quando meus pais se tornaram adventistas, eu já era docente da Ufscar e, portanto, não acompanhei o processo de conversão deles. Quando eu ia a Sorocaba, evitava chegar na hora do culto do pôr-do-sol e detestava quando me convidavam para ir à igreja. Quando fiquei grávida, comecei a ver muitas coisas de forma diferente, mas continuava indo a festas e bares, bebendo e fumando. Fumava uns três maços de cigarros por dia. Apesar disso, minha filha nasceu perfeita e linda, graças a Deus. Quando ela tinha seis anos, comecei a ler O Grande Conflito, de Ellen G. White, que minha mãe me havia dado vários anos antes. Enquanto o lia, minha filha, que gostava muito de histórias, pediu para que eu lhe contasse a história do livro. Ao saber do conflito entre o bem e o mal, ela pediu que eu a levasse à igreja para que ela pudesse estar ao lado de Deus. Depois de vários pedidos, fomos à igreja adventista. Começamos, então, a freqüentar a igreja e eu comecei a receber estudos bíblicos, decidindo-me pelo batismo cinco meses depois.

Como sua conversão foi vista pelos colegas de festas?

Foi uma péssima surpresa, não só para os colegas de “noitadas”. A maioria dos meus amigos passou a me evitar; alguns até faziam gozações sobre meu novo jeito de ser. Foi muito divertido o espanto de uma amiga ao me ver entregando, em um café, folhetos do curso “Deixe de Fumar”, do qual eu era a coordenadora.

Qual tem sido sua postura como profissional adventista num meio tão secularizado como a universidade?

No início, tive receio de não poder realizar minhas atividades acadêmicas. Para manter minha convicção religiosa, deixei de ir a eventos científicos e rejeitei os convites para ministrar cursos e palestras aos sábados. Hoje, por ter mantido minha convicção, sou convidada para essas atividades em dias que não comprometem o sábado. Outro desafio foi quando organizei o primeiro curso de especialização oferecido aos sábados à noite e domingo o dia todo. Muitos não acreditaram que haveria alunos; entretanto, já estamos no sexto curso e ele tem tido excelente avaliação e procura.

Recentemente, você resolveu organizar uma série de três palestras sobre o criacionismo na Ufscar. Como surgiu essa idéia?

Desde a época do meu doutorado, a controvérsia entre o evolucionismo e o criacionismo é alvo de meus questionamentos profissionais. Na época, pude escrever um trabalho comparando a importância dos “reflexos primitivos” na vida do bebê humano e do bebê chimpanzé. Após considerar as duas abordagens, optei pela criacionista e, por essa razão, desde então pude desenvolver técnicas de intervenção precoce em bebês de risco, utilizando-me dos reflexos para fins terapêuticos. Neste semestre, estou oferecendo, para 11 alunos, disciplinas do Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia, nas quais são abordadas as teorias sobre desenvolvimento humano. Propus, então, estudar a biografia e o contexto histórico em que viviam os seus idealizadores. Observamos que muitos dos pesquisadores se basearam em Darwin. Durante os comentários, meus alunos disseram ter algum conhecimento sobre a abordagem evolucionista da origem das espécies, mas nada conheciam sobre a versão criacionista. Como eles se mostraram interessados em conhecer essa abordagem, organizei uma seqüência de palestras sobre o criacionismo a fim de promover abertura intelectual e postura crítica em relação aos estudos que fazíamos. Convidei para a primeira palestra o jornalista Michelson Borges, que abordou o tema “Razões Para Crer”; para a segunda, o professor e biólogo Roberto Azevedo, com o tema “ABC das Origens”; e, finalizando, o professor Dr. Nahor Neves de Souza Júnior, com o tema “Ciência e Religião são Compatíveis?”.

A primeira palestra foi apresentada no auditório do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde. Quantos ouvintes estavam presentes e qual foi a reação deles?

Para minha surpresa, o auditório estava lotado, inclusive com pessoas sentadas no chão. Além dos meus alunos, havia alunos e professores de diferentes departamentos da Ufscar e da USP. O fato é que divulguei as palestras no site da universidade por defender a posição de que elas devem ser abertas, principalmente quando se trata de palestrantes vindos de outras cidades. Enquanto o palestrante discursava, percebia-se, por meio de expressões corporais, a desaprovação por parte de algumas pessoas da plenária. Após a apresentação, abrimos espaço para perguntas; mas, ao invés de perguntas, alguns começaram a identificar-se como ateus e foram bastante agressivos e arrogantes em seus comentários. Apenas no dia seguinte é que fiquei sabendo que a divulgação havia sido equivocadamente tratada como um debate entre as duas teorias.

A repercussão da palestra acabou tomando grandes proporções. O que aconteceu, então?

Alguns e-mails começaram a circular na Ufscar me criticando por ter tomado a iniciativa de organizar palestras abordando o tema criacionista, por eles considerado de cunho místico e religioso e que ao ser comparado ao estudo “científico” da evolução biológica, tornava-se uma agressão à inteligência dos “cientistas”. Essa reação me impressionou muito, pois não poderia imaginar que em pleno século 21 ainda existissem pessoas preconceituosas, radicais e absolutistas, tentando impedir o que há de mais importante em uma universidade: a pluralidade de idéias e a divulgação do conhecimento. Além disso, essas pessoas feriram o meu direito de docente e tudo mais que por anos conquistamos, como a democracia, a liberdade de expressão, o fim da censura, etc. As manifestações não pararam aí. Minha perplexidade aumentou quando a questão foi levada para ser discutida em um conselho, no qual se estabeleceu a norma de que palestras a serem proferidas no auditório do centro devem antes ter o aval da chefia ou do coordenador imediato ao proponente.

Nesse contexto, pude perceber que certas pessoas, que inicialmente pareciam me apoiar, tal qual Pilatos, mudaram de posição para não perder prestígio político. Outra pessoa chegou a afirmar que, se dependesse dela, palestras sobre o criacionismo jamais seriam realizadas na Ufscar. Mas, graças a Deus, é a minoria que pensa assim.

Quais os frutos positivos das palestras?

Primeiramente, consegui atingir meu objetivo de proporcionar informações sobre os temas aos alunos e demais interessados. Acredito que pude cumprir com o meu papel de docente, pois entendo por universidade um espaço em que as informações não devem ser restritas à visão de convicção do professor.

Gostaria de deixar registrado que as palestras foram fantásticas e de excelente qualidade. Também pude me sentir realizada ao ver nos alunos o interesse que as palestras despertaram, principalmente porque elas deram o início para mais questionamentos. De acordo com o relato de alguns, as palestras lhes proporcionaram a oportunidade de repensar suas crenças e de se posicionar mais conscientemente frente à profissão que escolheram. Outros comentaram que as palestras proporcionaram a oportunidade de falar sobre questões que em outro fórum seriam repudiadas.

Por fim, ressalto que muitos solicitaram que mais palestras sobre o criacionismo sejam promovidas pela Ufscar.

Qual a lição que você tira disso tudo?

A primeira é a de que Deus realmente existe. Se Ele não existisse, fosse mais um mito, não teria causado tanta polêmica em uma universidade de referência científica como a Ufscar.

Segunda, tenho a convicção de que aqueles que assistiram às palestras jamais voltarão a ouvir ou a ler textos, científicos ou não, da mesma forma como o faziam. Agora poderão discernir em qual das vertentes os textos/reportagens estão embasados e, dessa forma, avaliar e opinar de forma mais consciente.

Terceira, Deus estará sempre ao nosso lado, dando-nos força para enfrentar as dificuldades quando trabalharmos em prol de Sua causa, mesmo que seja indiretamente.

Que conselho daria aos profissionais adventistas que lutam para manter e expressar suas convicções em ambientes não muito simpáticos a idéias religiosas?

Devemos acreditar que os nossos sonhos são parte dos planos de Deus para nossa vida e Ele nos ajudará a realizá-los. Alguns tentarão nos impedir, obstruindo nossos caminhos para que desistamos de nossos sonhos. Mas temos que focar naquelas pessoas que estão a nosso favor, nos ajudando para que possamos gerar conhecimento. Assim sendo, e com a ajuda de Deus, teremos forças para transpor as barreiras e alcançar os nossos ideais. De acordo com o Salmo 56:8, “contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no Teu odre; não estão elas inscritas no Teu livro?”

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