quinta-feira, setembro 17, 2009

Púlpito virtual

Vanessa Meira tem 31 anos e esbanja alegria e vontade de viver. Quem
conhece a empolgação com que realiza seu trabalho voluntário de
moderadora da maior comunidade direcionada a jovens adventistas no
Orkut (que tem quase 70 mil membros), nem imagina as lutas que viveu
no passado e a linda história da conversão pela qual passou. Natural de
São Paulo, ela dá aula para o 5º ano do Ensino Fundamental no Colégio Adventista de Indaial, SC, e é casada com Isaac Malheiros Meira Jr., capelão do mesmo colégio. Nesta entrevista, concedida ao jornalista Michelson Borges, Vanessa conta um pouco de sua vida e fala do potencial evangelístico da web:

Fale um pouco sobre sua vida antes de se tornar adventista.

Tive uma infância confusa. Meu pai vendia drogas, era usuário e praticava outras atividades ilegais. Uma hora era extremamente brincalhão, afetuoso... Mas, de repente, se tornava agressivo. Quebrava a casa inteira, batia na gente sem motivo.

Um dia morávamos numa casa bonita, tínhamos tudo que queríamos... No outro, estávamos num barraco com poucos móveis.

Minha mãe era uma mulher totalmente apaixonada. Suportava as loucuras do meu pai, vivia para ele. Não via esperança nos olhos dela e a gota d’água foi quando aos oito anos eu disse para meu pai que chamaria a polícia. Minha mãe percebeu o mal que toda aquela situação estava trazendo para os filhos.

Aos nove anos de idade, fumei sozinha, no banheiro de casa. E bebia o restante de bebida que meu pai deixava nos copos espalhados pela casa.

Comecei a trabalhar bem nova e gostava de estudar, então, trabalhava o dia todo e estudava à noite. Sempre tive êxito em tudo o que fazia. Antes dos 18 anos, já era gerente de uma loja com vários funcionários.

Meu pai foi preso algumas vezes e minha mãe sempre vendia tudo o que tinha para libertá-lo. A última prisão dele me marcou bastante. Eu já era adulta e as visitas que fiz ao presídio realmente me faziam mal. Sentia pena do meu pai e raiva de tudo.

Minha vida em casa era um caos. Meus pais haviam se separado e eu sofria tentando lidar com isso. Minha mãe se casou com outro homem e a confusão só aumentou.

Meu pai cada vez mais viciado, conhecendo drogas novas e mais letais. Me doía vê-lo se destruindo. Ele continuava se mantendo com atividades ilegais e muitas vezes o via na rua drogado ou bêbado e me escondia. Com vergonha, com pena, com raiva... E muito culpada por fugir do meu próprio pai.

Eu buscava alívio bebendo muito. Passei a usar drogas, fumava demais, vivia na rua, em festas... Eu estava literalmente perdida.

Como entrou em contato com a mensagem adventista?

Foi a mensagem que me encontrou. Era um domingo e em meu bairro estava acontecendo uma gincana bastante tradicional ali. Eu já tinha bebido muito, o dia estava terminando, quando conheci uns jovens que foram participar da gincana. Eles moravam em outro bairro e foram ali só pra isso. Eles eram muito divertidos e acabei me envolvendo com um deles. E num papo meio “fim de festa”, falamos brevemente sobre Deus. Ele estava afastado da Igreja Adventista, mas “louco” pra voltar para os braços de Cristo.

Frequentei igrejas batistas e resistia bravamente à mensagem adventista. Mas num morno culto de quarta-feira, na Igreja Adventista de Ermelinda, senti o toque do Espírito Santo e vi que era inútil procurar a verdade em outro lugar. Fui batizada em 1994.

Como a filha de um traficante acabou casando com um pastor?

Algum tempo depois, já batizada, meu namoro com aquele rapaz terminou. Chateada e sozinha, fui visitar a Igreja Adventista da Concórdia. Lá alguns jovens estavam montando um coral e resolvi fazer o teste. O pianista era um rapaz magrinho, estudante de Engenharia. Passei no teste, me tornei a secretária do coral e amiga da irmã do Isaac, o pianista. A família dele me adotou e me deu fortes alicerces para minha fé. Eu e o Isaac éramos amigos apenas e uns quatro anos depois ele foi para o Unasp estudar Teologia. Eu sentia a falta dele e só então decidimos namorar. Namoramos a distância e nos casamos no civil, por procuração.

O que mais a atraiu na mensagem adventista?

Eu já estava buscando a Deus há um tempo. Frequentei muitas igrejas evangélicas. Mas quando li a respeito do sábado, percebi que estava faltando algo. Resisti por um tempo. A Igreja Adventista era um ambiente muito diferente do que eu estava acostumada. Mas as amizades que fiz na igreja foram fundamentais. Os amigos seguraram minha mão e não soltaram mesmo. Graças a Deus!

No estilo de vida adventista, o que para você foi mais difícil de adotar?

O vestuário foi uma luta. Nunca tinha vestido saia na vida. Eu usava muitas gírias. Morria de medo de conversar com as senhoras da igreja. E os hábitos saudáveis? Quando alguém me perguntava: “Você come carne?”, eu pensava: “Ora e quem não come? Que pergunta!”

Olha, acredite em mim, foi uma mudança radical.

E a sua família?

Meu pai faleceu em 2005. Sofri muito por talvez não ter usado bem as oportunidade que Deus me deu ao lado dele. Será que ele sabia que Deus o amava, apesar de tudo?

Minha mãe fica feliz em ver que estou bem. Sempre que vamos a Belo Horizonte, ela e minha irmã vão à igreja. Elas gostam muito de ouvir meu marido pregar.

Meu irmão trabalha muito e as algemas de que um dia Jesus me livrou ainda o prendem. Mas creio em um milagre na vida dele.

Ninguém se converteu na minha família, por enquanto, mas a mudança nessa família já começou em mim!

Como surgiu a ideia de criar a comunidade de jovens adventistas no Orkut?

A comunidade foi criada em agosto de 2004 na intenção de unir os jovens adventistas que estavam ali pelo Orkut, fazer novas amizades, trocar experiências... O rapaz que a criou a abandonou e o Rodrigo Mengue a assumiu e recrutou jovens para ajudar na moderação. E a notícia foi se espalhando. Passei a fazer parte no mês seguinte ao da criação da comunidade. Os outros moderadores gostaram da minha participação e me convidaram para ajudá-los.

Que tipo de manutenção a comunidade exige?

Temos que apagar postagens e tópicos inconvenientes, moderar a participação dos membros e aplicar as regras da comunidade. Muitas pessoas são realmente assíduas e participam todos os dias. Acredito que, em média, temos uns 600 posts diários. O movimento é maior em feriados e férias. A maioria quer apenas socializar, trocar experiências, pedir oração.

Mas nossa comunidade tem uma variedade incrível de membros: pessoas que não têm religião, que não creem em Deus, jovens adventistas atuantes, jovens afastados de Jesus, e muitos críticos. E cada dia, mais jovens nos procuram. Aceitamos como membros de 30 a 50 jovens por dia.

Realmente dá trabalho. Mas somos cinco moderadores (além do Rodrigo). Leonardo, Bruno, Jonatas e Tiago. Sou a “luluzinha” do “clube do bolinha”. Os meninos são muito estudiosos e trabalhamos em equipe.

Conte alguma história marcante desses anos de existência da comunidade.

No início do ano, uma moça chamada Panmella Veras criou um tópico dizendo que estava afastada e que queria voltar. Ela participava em outros tópicos e comecei a orar por ela. Eu estava certa de que ali estava mais um filho pródigo. Ela, de fato, voltou para Jesus e está firme em sua decisão.

Essas situações me tocam especialmente. E são frequentes os casos. Alguns estão sem coragem de visitar uma igreja real e encontram na comunidade uma “igreja virtual”.

Não podemos ignorar um grupo de mais de 60 mil pessoas reunidas em nome da Igreja. Ainda não presenciei um evento denominacional que pudesse reunir tantos jovens.

Como você avalia o uso da internet como instrumento de pregação?

Existem vantagens e desvantagens. A impessoalidade é uma desvantagem. Muitos estão se afastando do convívio com pessoas e acabam trocando o real pelo virtual.

A abrangência e o acesso rápido são pontos positivos. O Brasil é o país campeão de uso de sites de relacionamentos. São muitos brasileiros ligados a esse tipo de ferramenta. A internet permite que você interaja com pessoas que, às vezes, não querem mostrar o rosto, mas que estão sofrendo e querem mudar de vida. Muitos jovens têm dificuldade de olhar nos olhos do pastor e dizer o que estão passando. Mas se expressam bem em um e-mail ou scrap.

Quais os assuntos mais debatidos na comunidade?

Muitas dúvidas a respeito de textos bíblicos, dúvidas sobre os escritos de Ellen White, a credibilidade da Bíblia, música, sexo e comportamento em geral. Aquelas dúvidas clássicas, tipo “Pode ou não pode fazer tal coisa”, são bem comuns.

Que cuidados os jovens devem ter ao usar o Orkut e outros sites de relacionamento?

Acredito que o grande risco seja a exposição da imagem e da vida pessoal e o contato com uma variedade incrível de pessoas. O jovem que cria um perfil cheio de informações pessoais está se expondo e expondo sua família a tantos riscos quanto nossa imaginação possa supor.

E a possibilidade de contato com pessoas de outros Estados e até de outros países é uma faca de dois gumes. Existem inúmeros perfis falsos com pessoas mal-intencionadas abusando da boa fé de muitos.

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