domingo, outubro 03, 2010

Darwinismo com humor

Iba Mendes é criador e mantenedor do blog Humor Darwinista (www.humordarwinista.blogspot.com). Formado pela USP e sem filiação religiosa, ele simplesmente se define “como alguém que evita se contaminar por ideologias coletivistas, seja qual for sua esfera”. Nesta entrevista, concedida ao jornalista Michelson Borges, Iba fala sobre seu blog e manifesta sua opinião sobre o darwinismo:

Há quanto tempo existe o Humor Darwinista e por que resolveu criá-lo?

Inicialmente, desejo deixar claro que não partilho dos ideais criacionistas, e que meu antagonismo à ideologia darwinista não está fundamentado em qualquer que seja a crença religiosa ou livro considerado sagrado. Não obstante isso, porém, acredito que é perfeitamente possível e necessário manter sempre uma atitude de diálogo com ambos os pontos de vista.

Bom, quanto à pergunta, a ideia de um blog direcionado à questão surgiu em meados do ano passado, como reação à impostura e o deslumbramento dos devotos de Darwin em se fazerem os únicos donos da verdade.

De onde vem esse seu interesse pela controvérsia relacionada com o darwinismo?

Desde meus tempos de faculdade, sempre fui acompanhado pelo desconforto da imposição quase que compulsória da Teoria da Evolução como um fato consumado. Se por um lado muitos religiosos se opõem a Darwin por puro medo de estar desagradando a seu deus, por outro, muitos intelectuais se agarram aos ditames darwinistas apenas por receio de ser rotulados como contrários à razão. Tenho séria dificuldade em seguir pelos atalhos ideológicos que se impõem como “politicamente corretos”, como é o caso do darwinismo, que nasceu no seio do liberalismo econômico e na linhagem do empiricismo britânico, e que hoje é ensinado como um paradigma, apesar de sua ineficácia em fundamentar suas teses pelo próprio empirismo. O darwinismo subsiste, não por seus méritos científicos, mas pelo seu compromisso com uma ideologia que jamais poderá ser testada em tubos de ensaio.

Em sua opinião, a imprensa, de modo geral, tem contribuído para uma saudável discussão do assunto?

O comprometimento da imprensa para com Darwin é simplesmente escandaloso. Lamentavelmente, a liberdade de opinião, neste âmbito específico, simplesmente não existe. O problema é que historicamente o darwinismo fez-se passar de tal maneira como “ciência” que qualquer outra explicação logo passa a ser etiquetada como anticientífica e, portanto, contrária à razão. O jornalista se vê, assim, quase que na “obrigação” de louvaminhar servilmente o naturalista inglês. E o mais grave é que justificam toda essa bajulação pelo viés da ciência, quando, na verdade, o fazem por mera necessidade ideológica ou por acreditar que estão disseminando a verdade.

Acha que é por isso que está havendo uma proliferação de blogs (“imprensa alternativa”) que se propõem discutir a validade do darwinismo?

De certa forma, sim. O blog do Enézio de Almeida é um ótimo exemplo.

Qual a sua intenção ao usar o humor como crítica? Não acha que isso pode atrapalhar a discussão? Como vê o papel do humor, nesse caso?

Tanto em relação à Etimologia quanto no que diz respeito à História, o vocábulo “humor” sempre esteve associado de algum modo às ciências (fisiologia, anatomia e história natural, por exemplo). Vem do latim humor, humoris, que significa “líquido”, “umidade”, especialmente no que concerne à água e à terra (humus). A antiga medicina romana traduziu esta palavra grega por umores ou humores: sangue (ar), bílis amarela (fogo), bílis negra (terra) e fleuma (água). O prestigiado médico romano Galeno, nascido em Pérgamo, acrescentou um quinto “humor”, que era representado pelo spiritus (sopro), e que foi chamado de pneuma. Na Idade Média (e em boa parte da Idade Moderna), a medicina se baseou igualmente nesses princípios dos quatro humores (ou líquidos). Assim, embora tal termo esteja sempre ligado à disposição de espírito, no blog ele assume também, digamos, esse sentido linguisticamente não-convencional.

Ademais, historicamente não é possível dissociar o bom ou o mau humor dos debates que se travaram em torno da Teoria da Evolução. Não há melhor exemplo do que o célebre e controvertido caso envolvendo Thomas Huxley e o bispo Samuel Wilberforce. No meu blog, portanto, o “humor” serve apenas como “pano de fundo” para uma crítica que vai muito além da sátira e da mera galhofa.

Muito do que você publica provém de fontes darwinistas, o que pressupõe que você lê muito material produzido por darwinistas. Acha que o mesmo ocorre com eles? Será que os darwinistas leem bons livros de criacionistas ou de teóricos do design inteligente?

Realmente leio muito, mas muito mesmo. Nessa área específica, raramente leio um livro que não seja de autores darwinistas. Darwin, Huxley, Dawkins, Gould, Bizzo, Leakey são alguns exemplos. Quanto ao tipo de leitura dos darwinistas, a conclusão a que cheguei é que são poucos aqueles que leram, por exemplo, o livro A Origem das Espécies, de Darwin. A nova geração darwinista parece optar mais pelo conteúdo divulgado na web, daí a constante menção à Wikipédia como referência em debates na internet relacionados ao assunto, o que é lamentável.

Em sua opinião, quais são as maiores fragilidades do darwinismo?

Por especularem com uma variedade enorme de enunciados, os darwinistas sequer conseguem organizar uma confrontação verdadeiramente definitiva com os diversos “dados” em questão (“dados” decorrentes da classificação, da paleontologia, da anatomia comparada, da genética, da embriologia, da biogeografia, etc.), daí o epistemólogo Karl Popper ter contestado que essa teoria seja experimentalmente “refutável”. Portanto, penso que a grande dificuldade do darwinismo diz respeito a sua incapacidade em se fazer funcionar experimentalmente. Não que eu entenda ciência apenas como retortas e tubos de ensaio; mas, já que ostentam essa obstinada presunção, cabe a eles provar que a Teoria da Evolução vai muito além de moscas-das-frutas, cascos de cavalos, mariposas, bactérias e tentilhões.

O que poderia ser feito para melhorar a relação e o diálogo entre darwinistas e proponentes do design inteligente ou mesmo criacionistas?

Penso que tudo gira em torno das aspirações ideológicas de cada uma dessas vertentes. Há muitos interesses envolvidos na questão, o que por enquanto torna esse diálogo, penso eu, numa jibóica utopia. A maior dificuldade parece residir na questão das origens. Ness aspecto, “deus” (espiritualismo) e o “acaso” (materialismo) sintetizam toda a celeuma. Segundo Rémy Chauvin, o que é preciso fazer é estudar, procurar compreender e abandonar o orgulho.

Você mantém contato com darwinistas? O que tem aprendido dessas discussões?

O suficiente para concluir que estou lidando com ardorosos defensores de uma religião às avessas. Os neodarwinistas, com as boas exceções, é claro, comportam-se como aquele crente que não arreda uma só vírgula “daquilo que seu mestre falou”. Para muitos deles, é mais fácil sobreviver sem oxigênio do que viver sem Darwin.

Como você define sua posição em relação ao assunto das origens?

Defino-me como “tedeísta” (de Tedeísmo), que é um neologismo criado a partir da sigla TDI (Teoria do Desenho Inteligente), que pode ser sintetizado no seguinte postulado: a vida na Terra, em seu nível mais fundamental, em seus componentes mais importantes, é produto de atividade inteligente.

É isso!

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