Domingo, Fevereiro 15, 2009

Gazeta do Povo dá espaço a biólogo criacionista

Deu no blog Tubo de Ensaio, do Marcio Campos (exemplo raro de bom jornalismo): “Uma das coisas que eu percebi no debate sobre o ensino do criacionismo nas escolas confessionais era que praticamente não se deu espaço aos criacionistas para explicar no que eles realmente acreditam. Por isso, procurei a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), que intermediou uma entrevista por e-mail com o biólogo Tarcísio da Silva Vieira [já entrevistado por este blog], mestre pela Universidade de Brasília e professor universitário de Química Orgânica. Membro colaborador da SCB, Vieira expõe uma das vertentes do criacionismo, aponta compatibilidades com o evolucionismo e se diz contrário ao ensino do criacionismo nas escolas públicas.” Confira a íntegra da entrevista, que teve trechos publicados no jornal Gazeta do Povo (um dos maiores jornais do Paraná):

Em primeiro lugar, o que define um criacionista? Basta acreditar que Deus tirou o universo do nada, ou é preciso acreditar em outras intervenções criadoras de Deus?

Um aspecto de bastante relevância para aqueles interessados na controvérsia entre criacionismo e evolucionismo, e que não tem sido mencionado em tudo o que vem sendo veiculado na mídia, é que o termo “criacionismo” é bastante elástico. Há diversas vertentes intituladas igualmente como “criacionismo”. A Sociedade Criacionista Brasileira, por exemplo, divulga o criacionismo bíblico, que seria uma tentativa de associação entre o conhecimento científico e o conhecimento bíblico, desde que o primeiro não seja confundido com alguns pontos de vista que não são sustentáveis epistemologicamente dentro do próprio evolucionismo.

Simpatizantes do modelo criacionista que tenham tido formação acadêmica entendem a importância da teoria da evolução e reconhecem a grande contribuição dada por Darwin à comunidade científica. Entendemos que há aspectos no evolucionismo bastante fundamentados, os quais são indispensáveis para a compreensão de muitos fenômenos naturais, assim como para a correta interpretação de dados experimentais. A estes aspectos nenhum criacionista que tenha formação científica se opõe. Porém, como em toda boa teoria, há alguns pontos no evolucionismo que não são sustentáveis e devem ser questionados, seja por um bom cientista ou por um bom estudante de ciências.

Também é preciso que se entenda que os simpatizantes do criacionismo bíblico têm a Bíblia como uma importante fonte de conhecimento. Diante desse fato, apenas para facilitar a compreensão, podemos dividir esses simpatizantes em dois grupos. No primeiro estariam aqueles que frequentam uma igreja e acreditam em Deus, em função do tipo de educação que receberam, ou por algum tipo de experiência que tiveram em sua vida, ou por qualquer outro motivo. Para eles, o relato bíblico é suficiente para que professem sua fé.

No entanto, diversos autores dos textos bíblicos instruem seus leitores a investigar a natureza – como Paulo, na carta aos Romanos (1:20) – a fim de que por essa investigação reconheçam a existência de um Criador. O segundo grupo de simpatizantes é o dos que pertenciam ao primeiro grupo (ou seja, que tiveram educação religiosa), entenderam o “recado da natureza” e tiveram a oportunidade de estudar ciências. Aos integrantes desse segundo grupo o relato bíblico também é suficiente para professarem sua fé, mas o conhecimento científico que adquiriram lhes permite também argumentar de maneira mais formal e racional a respeito daquilo em que acreditam, muitas vezes se contrapondo a alguns pontos de vista que não são sustentáveis epistemologicamente dentro do evolucionismo. Em qualquer desses grupos, permanece a convicção de que todos os atos referentes à criação feita por Deus, assim como o plano de redenção para toda a humanidade, são reais; esses são os atributos comuns aos proponentes dessa vertente do criacionismo.

Quando se fala de criacionismo, costuma-se remeter à tradição judaico-cristã da narração da criação segundo o Gênesis. É possível conciliar o criacionismo com outras tradições religiosas?

Creio que esse modo incorreto de associar o criacionismo unicamente à tradição judaico-cristã é decorrente, em parte, da constituição religiosa de nossa sociedade. Outro aspecto que conduz a esse tipo errôneo de associação é a falta de conhecimento, tanto por parte da maioria dos profissionais da imprensa quanto da maioria dos evolucionistas críticos do criacionismo, com relação à origem de toda essa controvérsia.

É consenso entre a quase totalidade das pessoas (e isso também infelizmente se aplica àquelas que frequentam uma igreja) que o confronto entre as ideias evolucionistas e criacionistas é um “impasse” entre ciência e fé e é algo que surgiu com o advento do Cristianismo.

Quanto ao primeiro ponto, eu me limitaria a dizer que os grandes ícones do desenvolvimento científico – dentre eles, só para citar os mais proeminentes em algumas áreas da Física, como Newton na óptica, na mecânica e na gravitação universal; Boyle no estudo dos gases; e Faraday e Maxwell no eletromagnetismo – que nos possibilitaram alcançar o patamar de conhecimento no qual nos encontramos compartilhavam, em sua quase totalidade, a fé em um Deus criador e pessoal. Essa fé os inspirava a desenvolver suas teorias e lhes permitia olhar com mais detalhes para a natureza, o que possibilitou a eles se tornarem homens e mulheres à frente de seu tempo.

Diante disso fica evidente que a controvérsia entre criacionismo e evolucionismo não é uma dicotomia entre ciência e fé, como é grandemente alardeado pela mídia em geral. Aquelas pessoas conciliavam sua fé em Deus com suas pesquisas referentes aos fenômenos naturais, obtendo resultados que os destacaram não apenas no contexto em que viviam. O verdadeiro embate entre as argumentações evolucionistas e criacionistas está centrado na existência ou não de planejamento e intenção nas coisas existentes. Enquanto o evolucionismo defende a ideia de acaso e aleatoriedade, buscando explicar a vida como sendo o resultado de causas puramente naturais, o criacionismo defende a ideia de propósito e planejamento, buscando explicar a vida como sendo resultante da ação criadora de um Deus que ainda hoje se relaciona com o ápice de sua criação: o ser humano.

Esse conceito integrado no criacionismo permite ao verdadeiro interessado nessa controvérsia encontrar evidências do confronto dessas ideias em diversas civilizações, em períodos históricos muito antecedentes ao surgimento do Cristianismo e do Judaísmo. É propagado erroneamente, tanto pela imprensa quanto por livros didáticos, que os povos ditos pagãos tiveram contato com a ideia de um Deus único, criador e redentor apenas após o advento do Cristianismo. Contudo, um minucioso estudo da mitologia e da literatura mesopotâmica, egípcia, chinesa, romana e de lendas indígenas, dentre outras, indica o oposto daquilo que nos é tradicionalmente ensinado. Na Grécia, em torno de 300 a.C., havia intenso debate entre epicuristas (que dentre outras ideias defendiam que todas as coisas tiveram origem em causas naturais aleatórias) e estóicos, defensores de que todas as coisas tiveram origem pela intenção e propósito de um Deus criador.

O trecho abaixo, originalmente presente na obra de Cícero De Natura Deorum, citado no livro Depois do Dilúvio (de autoria do historiador britânico Bill Cooper e publicado em português pela SCB), lança um breve lampejo sobre a argumentação dos simpatizantes do estoicismo: “Se existe algo na natureza que a mente humana, a inteligência, a energia e a força humanas não podem criar, então o criador dessas coisas deve necessariamente ser um ente superior ao homem. Os corpos celestes em suas órbitas eternas certamente não podem ser criados pelo homem. Eles, portanto, devem ter sido criados por um ser superior ao homem. (...) Somente um tolo arrogante imaginaria que nada houvesse no mundo todo maior do que ele próprio. Logo, deve existir algo maior do que o ser humano. E esse algo deve ser Deus.”

Em nossos dias, o criacionismo formal como o conhecemos está associado às três grandes religiões monoteístas, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo.

Como o criacionismo interpreta a narração do Gênesis? Uma interpretação estritamente literal, ou questões como a dos “seis dias” podem ser vistas como metáfora?

Para os simpatizantes do criacionismo bíblico, a Bíblia é literal em todas as suas colocações, exceto em três situações. A primeira é aquela em que o próprio relato bíblico informa o contrário, como quando são utilizados metais preciosos para designar reinos poderosos e metais menos nobres para designar reinos menos poderosos, no livro de Daniel [cap. 2].

A segunda situação ocorre quando transparece que o escritor não tinha em mente o intuito de transmitir conhecimento científico, mas sim de descrever um fenômeno na linguagem mais simples possível, de modo que aquela informação fosse compreensível por todos, e pode ser exemplificada com a passagem no livro de Josué, no qual o escritor menciona que o Sol se deteve nos céus, o que é interpretado por muitos, de maneira precipitada, como sendo uma alusão ao “fato” de que, para aquelas pessoas, o Sol girava em torno da Terra.

E, finalmente, o terceiro caso é aquele em que os conceitos que adquirimos em tempos recentes aparentemente contrastam com aquilo que era aceito popularmente no período em que um determinado texto bíblico foi escrito, por exemplo, no livro de Levítico, em que o morcego é classificado como ave, e não como mamífero. Acontece que a classificação taxonômica que utilizamos hoje é muitíssimo recente em comparação com o texto bíblico. Na época em que aquele livro foi escrito, e refletindo um critério bastante prático, era suficiente classificar os seres vivos em terrestres, aquáticos e alados, sendo esta última a classe na qual o morcego evidentemente se enquadrava.

Salvo essas situações (e obviamente outras que possam ser incluídas em contextos similares), entendemos a Bíblia sempre como literal, e isso inclui todo o livro de Gênesis; portanto, para nós os seis dias da Criação são literais, embora existam correntes teológicas que entendam esses dias como períodos não correspondentes a 24 horas. Outras vertentes do criacionismo consideram esses dias da Criação como longos períodos de tempo, correspondentes a eras, numa tentativa de associar o relato do livro de Gênesis aos fatos advindos da sucessão dos fósseis nas rochas sedimentares e as respectivas idades obtidas pelos métodos de datação radiométrica, associação esta de forma alguma aceita pelos simpatizantes do criacionismo bíblico.

Que outras vertentes do Criacionismo podem ser mencionadas?

Dentro das diferentes correntes criacionistas há pontos que são compatíveis com outras vertentes, e pontos de incompatibilidade. O fixismo, por exemplo, era utilizado no passado por teólogos no sentido de deixar claro para as pessoas da época que os seres haviam sido criados por Deus exatamente como são, ou seja, os seres originalmente criados por Deus não teriam sofrido nenhuma mudança significativa ao longo do tempo. Infelizmente essa era a ideia aceita pela sociedade (incluindo os naturalistas, ou seja, os cientistas daquela época).

A partir das observações e da publicação dos trabalhos de Darwin, o fixismo foi duramente criticado e caiu por terra, de forma que hoje nenhuma pessoa que tenha tido o privilégio de estudar ciências argumenta em favor daquelas ideias. Mesmo as observações cotidianas conduzem um indivíduo atento à conclusão de que os organismos sofrem modificações ao longo do tempo. Cientistas e estudantes sérios, simpatizantes do criacionismo bíblico, reconhecem essas variações e jamais argumentariam contra esse fato, uma vez que, além de verificarem o fenômeno da variação em seus estudos, a própria Bíblia nos permite chegar a conclusões sobre a variação dos organismos inicialmente criados por Deus (pena que isso não seja entendido por alguns teólogos em nossos dias). Contudo, dentro do modelo criacionista, essas variações têm um limite que abrange, em alguns casos, desde o taxon Espécie até o taxon Ordem.

A mídia, no entanto, com o intuito de desmoralizar o modelo criacionista e expor seus simpatizantes ao ridículo, tem procurado associar o criacionismo ao fixismo, o que é absurdo! Não se pode negar que alguns indivíduos pertencentes àquele primeiro grupo que eu mencionei no início realmente argumentem em favor do fixismo, mas é preciso lembrar que se trata de pessoas que não possuem formação científica. Veicular nos meios de comunicação que todo criacionista é fixista é no mínimo desonesto.

Também é possível mencionar o pontuísmo ou Teoria do Equilíbrio Pontuado, uma argumentação proposta por Stephen Jay Gould e Niles Eldredge, na tentativa de explicar o aparecimento abrupto de novas espécies, no registro fóssil, que permanecem praticamente sem nenhuma alteração até a sua extinção, o que em princípio contrariava a evolução defendida por Darwin. Para maiores detalhes, indico o amplo livro de Gould The Structure of Evolutionary Theory, recentemente lançado.

Já o gradualismo, resumidamente, é aplicado pelos simpatizantes da teoria da evolução que defendem a mudança nos organismos através da acumulação de pequenas modificações ao longo de várias gerações, durante intervalos de tempo incomensuráveis, o que é incompatível com os dados obtidos da observação e da experimentação.

Afirma-se que o criacionismo, embora efetivamente possa ser considerado uma teoria, não poderia ser considerado teoria científica por não ser “falseável”, pelos critérios de Karl Popper. Como o senhor avalia essa observação?

Aqui estão em jogo muitos critérios, definições e conceitos que conduzem a controvérsia entre criacionismo e evolucionismo para o campo da Filosofia. Vejamos a definição mais aceita daquilo que seja uma “teoria científica”, segundo o próprio Karl Popper: teoria científica é um modelo matemático que descreve e codifica as observações que fazemos. Assim, uma boa teoria deverá descrever uma vasta série de fenômenos com base em alguns postulados simples, como também deverá ser capaz de fazer previsões claras, as quais poderão ser testadas.

O criacionismo não preenche os critérios definidos por Popper, ou seja: diante do exposto, o criacionismo não passa nem perto de ser uma teoria científica! Porém, pode ser qualificado como um bom modelo, que em muitos pontos é sustentado pelas evidências científicas de que dispomos até o momento.

Em meu ponto de vista (que compartilho com muitos cientistas e pesquisadores simpatizantes do criacionismo bíblico), não vejo o criacionismo nem mesmo como uma teoria. Prefiro vê-lo como um modelo, uma vez que muitos postulados dentro do criacionismo não podem ser submetidos ao método científico (da mesma forma que os postulados do evolucionismo). Para exemplificar, lembremo-nos de dois “passos” importantes integrantes do método científico: observação e experimentação. Não podemos observar Deus criando a vida, nem se pode realizar um experimento em que, ao fim da análise dos dados obtidos, chegue-se à conclusão de que Deus existe ou não existe.

Acontece que muitos pontos dentro das teorias evolucionistas enfrentam a mesma dificuldade! Não é possível regredir no tempo e observar o surgimento espontâneo da vida, da mesma forma que não é possível reproduzir a extinção dos dinossauros. Alguns pontos no evolucionismo são reproduzíveis, apresentam uma modelagem matemática e é possível fazer boas previsões com eles, levando, assim, a uma boa teoria científica. Porém, esses pontos estão circunscritos àquele mesmo limite de variação mencionado anteriormente, limitando-se desde o taxon Espécie até, em alguns casos, ao taxon Ordem. Argumentações versando sobre modificações em taxa superiores (entre os taxa Ordem e Reino), na visão de um cientista criacionista, além de não se enquadrarem na definição de Popper, são extrapolações daqueles pontos situados no limite de variação citado acima. As teorias evolucionistas versando sobre essas modificações, a meu ver (e de muitos cientistas criacionistas), seriam mais bem definidas como modelo.

Aqui é importante ressaltar que, mesmo que algo não seja considerado “teoria científica”, continua sendo válido o debate e o confronto de ideias. Há vários exemplos de modelos que foram amplamente debatidos no passado e foram sendo aperfeiçoados até se tornarem boas teorias científicas. O contrário também é verdadeiro. Uma teoria já estabelecida precisa ser debatida, criticada e revista. Há vários exemplos de teorias que receberam o status de “científicas” e, após algum tempo, precisaram ser ampliadas ou mesmo reescritas. Um exemplo bem recente, ilustrativo desse tipo de situação, e que infelizmente foi divulgado em nosso país pela grande mídia, é o evento de julho de 2008 na cidade de Altenberg, na Áustria, quando estiveram reunidos 16 categorizados pesquisadores da área de Ciências Biológicas para propor uma “nova teoria evolutiva”. E o que chama bastante atenção nessa teoria é que ela não será selecionista! Em outras palavras, a nova teoria evolutiva não terá como um dos principais mecanismos propelentes da evolução das espécies a chamada “seleção natural”! Isso é muito importante para os estudantes de Ciências Biológicas, para os interessados na controvérsia entre criacionismo e evolucionismo e para o público em geral que tenha interesse em assuntos científicos.

Qual a relação entre Criacionismo e Design Inteligente?

Como mencionado anteriormente, o criacionismo (discorro sobre o criacionismo bíblico) utiliza conhecimento científico, buscando associá-lo à integridade do texto bíblico, visando à construção de um modelo coerente tanto com os fatos que ocorrem na natureza, transformados em conhecimento científico, quanto com o relato bíblico. Para o criacionista, a Bíblia e a natureza constituem revelações de (e sobre) Deus para o homem, e a ciência é o instrumento pelo qual buscamos conhecer a respeito da natureza criada por nosso Criador.

No tocante ao Design Inteligente (DI), questões referentes a qualquer tipo de expressão religiosa ou contida em qualquer escrito considerado sagrado são excluídas das argumentações de seus simpatizantes. O DI, ao contrário do criacionismo, reivindica o status de teoria científica, sendo que os propelentes desse movimento já publicaram trabalhos versando sobre o assunto em numerosos periódicos, ocasiões nas quais seus críticos logo buscaram refutar suas argumentações por meio de outras publicações. Os simpatizantes do DI, numa posição diferente daquela dos simpatizantes do criacionismo, almejam a inserção de suas teses nos currículos escolares de nível básico e universitários, levando o debate e as discussões para dentro da academia.

No tocante à origem da vida, os simpatizantes do DI argumentam que a mesma não é resultado apenas de causas naturais, mas da ação de uma entidade inteligente que interveio nos processos naturais. Esse agente inteligente, ao contrário do Deus venerado pelo criacionista bíblico, não é identificado nas teses do DI, uma vez que não é o seu objeto de estudo.

Contudo, nesses dois distintos conjuntos, há pontos de intersecção onde tem início uma relação, muito mal interpretada pela mídia. Alguns simpatizantes do DI acreditam e buscam servir ao mesmo Deus que os criacionistas. Porém, um número significativo dos propelentes desse movimento é constituído por agnósticos e mesmo ateus.

Dentro do modelo criacionista, algumas teses defendidas pelo DI são muito bem vistas e até utilizadas na construção do modelo, como, por exemplo, a ideia de complexidade irredutível (segundo a qual há estruturas biológicas que não poderiam ter evoluído de outras estruturas mais simples). Outras teses, no entanto, não são bem vistas, como, por exemplo, a argumentação em favor da panspermia (que defende a existência de “sementes de vida” espalhadas pelo Universo). Particularmente. tenho um bom relacionamento e um bom diálogo com alguns dos simpatizantes do DI, mas há criacionistas que são completamente contrários a esse tipo de aproximação, e vice-versa.

Quando a mídia descreve o DI como sendo criacionismo disfarçado, além de cometer grande desrespeito para com os integrantes de ambas as correntes, demonstra, pelo menos aos olhos dos familiarizados com a controvérsia entre criacionismo e evolucionismo, total ignorância em relação ao assunto. Ao repetir insistentemente esse tipo de raciocínio, fica evidente a total inércia dos repórteres em relação a fazer sua pesquisa antes de publicar algo sobre um assunto bastante amplo que conhecem apenas superficialmente, sendo quase sempre unilaterais em relação ao debate.

No início o senhor afirmou que há pontos da teoria de Darwin que são compatíveis com o criacionismo. Quais são esses pontos, e como fazer essa compatibilidade?

Darwin fez grandes contribuições ao mundo científico com suas observações, revolucionando complemente a forma de se estudar a natureza, após publicar seus trabalhos. Tendo eu formação em Ciências Biológicas, jamais poderia negar isso. O mesmo acontece com outros criacionistas que tiveram uma formação em ciências. Junte-se a esse fato a própria definição de criacionismo bíblico e ficará claro que, para que o criacionismo seja um bom modelo, precisa reconhecer que o evolucionismo é uma boa teoria!

Essa afirmação causa um certo desconforto aos simpatizantes do criacionismo que não tiveram formação em ciências. Mas um bom estudante, um bom pesquisador ou cientista que seja simpatizante do criacionismo aceita e entende o fato de que as espécies sofrem modificações ao longo do tempo, de acordo com o ambiente em que se encontram e em função de diversos outros fatores. Esses profissionais entendem e estudam as mutações e o poder de transformação que elas carregam, aceitam e estudam a seleção natural em suas pesquisas, trabalham com programas computacionais que lhes fornecem dados relativos à flutuação de um dado gene numa certa população, atuam na área de Química Orgânica e estudam as reações químicas necessárias para o desenvolvimento e manutenção da vida.

Todos esses pontos e alguns outros fazem parte da grande contribuição que Darwin deu ao mundo científico; todos eles são considerados e fazem parte do modelo criacionista. Os palestrantes da SCB deixam isso evidente no trabalho que vêm realizando em nosso país. Por isso, quando escritores desprovidos de conhecimento do que realmente é o modelo criacionista afirmam que as teses defendidas pelos simpatizantes do criacionismo vão contra o desenvolvimento de vacinas e antibióticos, ou mesmo contra o desenvolvimento científico, estão sendo desonestos e, permita-me dizer, jogando sujo!

No entanto, vários cientistas e pesquisadores simpatizantes do criacionismo, do DI ou mesmo evolucionistas enxergam problemas com a abrangência das teorias evolucionistas.

E quais são as principais falhas que o criacionismo aponta nas teorias de Darwin?

Apesar de ter contribuído de forma muito significativa com o conhecimento científico, as ideias desenvolvidas por Darwin eram, em sua grande maioria, restritas ao conhecimento que os biólogos tinham em seu tempo. Ao longo dos anos, novas tecnologias possibilitaram aos cientistas adquirir novos conhecimentos, como aconteceu com o advento dos microscópios de alta resolução, que permitiram um olhar muito mais preciso para as células que constituem os organismos vivos. Informações advindas de campos de estudos recentes, como a Bioquímica, a Genética e a Biologia Molecular, deixaram claro aos cientistas que a teoria da evolução, como proposta inicialmente por Darwin, carecia de ajustes. Em resposta a esse anseio surgiu o Neodarwinismo. Dessa forma, não apenas os simpatizantes do criacionismo têm feito críticas às teorias de Darwin.

Contudo, as teorias da evolução como são apresentadas hoje, aos olhos não apenas dos simpatizantes do criacionismo, mas também aos de muitos evolucionistas, ainda apresentam pontos que não são corroborados pelo conhecimento científico que temos. Apesar disso, esses pontos são propagados e ensinados em escolas de nível básico e universidades quase de forma doutrinária, tanto que alunos, professores e pesquisadores que façam críticas e considerações sobre esses pontos são literalmente ridicularizados!

Por exemplo, dentro das teorias evolucionistas ainda não há uma explicação satisfatória para a origem da vida. Independentemente da abordagem que seja feita, todas as explicações dadas apresentam inconsistências com aquilo que já é bem estabelecido na Química, na Estatística, na Teoria de Probabilidades, na Termodinâmica ou em muitos outros campos do conhecimento. Não há dúvida de que moléculas de RNA apresentam atividades catalíticas; ou que ácidos graxos originam micelas (estruturas que supostamente teriam originado as membranas celulares, como aceito por muitos pesquisadores) sob certas condições; ou ainda, que seja possível obter compostos orgânicos a partir de matéria orgânica. As falhas apontadas nessas abordagens, entretanto, vão além dessas questões já bem conhecidas. Não tenho como adentrar aqui em questões técnicas a esse respeito, mas qualquer estudante ou pesquisador interessado nesse campo de estudo e que se disponha a fazer uma pesquisa nas publicações sobre o assunto reconhecerá o que digo acima. Apesar disso, os livros didáticos que abordam esse assunto não mencionam esses pontos; muito pelo contrário, transmitem a ideia de que essa é uma dificuldade superada pelas teorias evolucionistas. Dada a superficialidade com que a origem da vida é tratada nesses livros, aliada ao desinteresse por parte dos acadêmicos em se aprofundar mais nessa questão, os mesmos são facilmente convencidos dessa “verdade”.

Além disso, tempo é um fator fundamental para que as teorias evolucionistas façam algum sentido, uma vez que os dados de que dispomos sobre mudanças que observamos em organismos com ciclo de desenvolvimento muito rápido (como as bactérias) somente serão coerentes quando extrapolados para organismos pluricelulares, supondo períodos de tempo demasiadamente longos. Corroborando essas suposições, idades obtidas a partir de datações radiométricas são apresentadas como “prova irrefutável” da longa história do desenvolvimento da vida em nosso planeta. Também é constantemente veiculado pelos meios de comunicação, divulgado em livros e periódicos e apresentado como fato nas aulas de Ciências que as datações radiométricas são inquestionáveis, não havendo nenhum real problema com os pressupostos assumidos para que o método funcione. Mas qualquer análise das publicações a esse respeito constatará que há sérios questionamentos de eminentes cientistas com relação aos pressupostos mencionados acima! Como exemplo, posso garantir que há uma quantidade significativa de trabalhos questionando a constância da taxa de decaimento radioativo de alguns elementos químicos, levando em conta a influência do entorno químico nas taxas de decaimento, a influência da profundidade, da pressão e da temperatura nas taxas de desintegração de diversos isótopos radioativos, dentre outros itens. Esses fatos deveriam alertar as pessoas para terem cautela diante de um assunto relativamente recente como a datação radiométrica.

Mencionei anteriormente que o criacionismo e alguns pontos dentro das teorias da evolução apresentam compatibilidade. Essa intersecção abrange aquilo que realmente é comprovado, ou seja, mudanças (variações) abrangendo do taxon Espécie ao taxon Ordem. Argumentos em favor de mudanças ao nível de taxa superiores a Ordem (saltos evolutivos) são extrapolações daquilo que é possível verificar no estudo da natureza. Essas questões conduzem ao estudo de diferentes campos do conhecimento, dentre eles o do registro fóssil, no qual há uma gama de questões não esclarecidas, dados mal interpretados e incertezas propagadas e divulgadas como verdadeiramente compreendidas. Para exemplificar, vários artigos questionam os princípios da estratificação e da sedimentologia, os quais são fundamentais para a crença na qual, numa dada formação geológica, as rochas inferiores teriam sido formadas primeiro, sendo assim mais antigas que as rochas superiores.

É frequentemente divulgado pela mídia e “pregado” por muitos professores nas universidades que os simpatizantes do criacionismo atribuem todas as coisas aparentemente inexplicáveis à ação de Deus ou qualquer outra entidade sobrenatural, sendo contra qualquer tipo de pesquisa que busque uma explicação natural para os fatos. Isso consiste numa grande inverdade e uma enorme desonestidade, uma vez que, além de não darem oportunidade para contra-argumentação, “implantam” na mente dos estudantes uma visão totalmente distorcida do criacionismo.

Sem dúvida alguma, atribuímos a Deus toda a criação e complexidade observada no Universo e nos seres vivos. Contudo, investigar a natureza e fazer ciência é uma instrução deixada pelo próprio Deus a todos os seres dotados de inteligência. Ao observar um fato que aparentemente se oponha às teses que se acredita estarem corretas, um pesquisador criacionista simplesmente não fecha os olhos ou procura distorcer os fatos para “encaixar” a realidade em sua visão de mundo. Uma prova disso é que temos grandes cientistas criacionistas em importantes universidades no Brasil e no mundo.

Como ilustração há a seguinte situação: nas teorias da evolução o oxigênio teria surgido na Terra em um tempo consideravelmente tardio, após o surgimento do primeiro organismo vivo. No modelo criacionista, a vida teria surgido num ambiente já rico em oxigênio. Uma análise das rochas classificadas como pré-cambrianas e datadas como as mais antigas do planeta indica a presença de íons ferrosos (menor estado de oxidação para esse elemento), ao passo que rochas datadas como sendo mais recentes apresentam um conteúdo significativo de íons férricos (maior estado de oxidação para o ferro). Esses fatos, a princípio, corroboram as teorias evolucionistas e não o modelo criacionista. Um estudante de ciências ou um cientista criacionista jamais ignoraria esse fato, mas buscaria estudá-lo, buscaria respostas na natureza (utilizando também a Bíblia como fonte de informação) e, por fim, como qualquer pesquisador faz em seus modelos, poderia sustentá-lo ou modificá-lo, conforme os resultados obtidos em seu estudo. Criacionistas que atuam no meio científico não são menos curiosos que cientistas evolucionistas (ou vice-versa), como fica evidente na contribuição dada por criacionistas para o desenvolvimento da ciência até o patamar em que a encontramos hoje.

Como o criacionismo avalia a teoria do Big Bang?

Mesmo entre cientistas evolucionistas a teoria de uma grande explosão inicial é muito discutida, contestada e ainda não há um consenso sobre o assunto. A teoria do Big Bang é muito controversa também entre os simpatizantes do criacionismo. Alguns físicos criacionistas que atuam na área de Cosmologia associam essa teoria à criação feita por Deus de modo muito defensável, o que, entretanto, deixa alguns criacionistas que não têm formação nessa área um tanto quanto indecisos.

Em um domingo de dezembro [de 2008], o caderno Aliás, de O Estado de S. Paulo, trouxe uma matéria sobre o criacionismo na escola e uma legenda de foto afirmava que, para os criacionistas, homens conviveram com dinossauros. Isso é verdade?

Esse tipo de afirmação reflete a ignorância (ou a tentativa de denegrir a imagem dos simpatizantes do modelo criacionista) por parte de muitos articulistas quanto ao que é criacionismo e quais as teses propostas por esse modelo. Todos os criacionistas que estudaram ciências também estudaram as teorias evolucionistas, as quais afirmam que o ser humano e os dinossauros viveram em épocas diferentes. Porém, esse é um ponto que não pertence àquela intersecção entre as ideias evolucionistas e o criacionismo.

A ideia de que grandes répteis e o ser humano viveram em épocas distintas tem origem em diversos fatos. Por exemplo, as idades (fornecidas pelas datações radiométricas) das rochas contendo fósseis de dinossauros são muito mais antigas que as idades das rochas contendo fósseis humanos; e, também, fósseis de dinossauros sempre são encontrados em camadas sedimentares inferiores (mais abaixo) em relação às camadas sedimentares (mais acima) nas quais são encontrados fósseis de seres humanos.

Acontece que, conforme mencionado anteriormente, há uma quantidade significativa de trabalhos versando sobre diversos problemas existentes com os pressupostos necessariamente assumidos para que os métodos de datação radiométrica indiquem realmente idades cronológicas e não “idades radioativas”. Em função disso, os valores obtidos por meio dos diversos métodos de datação radiométrica, no modelo criacionista, indicam apenas uma relação entre elementos pais e filhos, não sendo interpretados por seus simpatizantes necessariamente como idades cronológicas. Além disso, como também mencionado acima, há vários trabalhos contestando as ideias de que, numa dada formação geológica, as rochas inferiores seriam sempre mais antigas que as rochas superiores. Essas informações, associadas a outras advindas de diversas áreas do conhecimento, permitem que os simpatizantes do modelo criacionista construam um modelo diferente daquele que é convencionalmente ensinado como verdade inquestionável nas escolas e universidades. Esse modelo, no entanto, apresenta suas falhas e precisa ser melhorado como qualquer outro modelo construído no âmbito científico.

Não obstante, há vários fatos observáveis que apoiam a ideia de que seres humanos e dinossauros foram contemporâneos, conforme o relato bíblico nos informa. Se a expressão “conviveram” na referida matéria transmite a ideia de contemporaneidade, eles acertaram nesse aspecto; contudo, dentro do modelo criacionista propomos que dinossauros e homens foram contemporâneos, mas habitavam diferentes ecossistemas, de modo que, naquele período, deveria haver um zoneamento ecológico que inviabilizaria qualquer contato entre ambos que, por exemplo, pudesse lembrar o estilo de vida dos Flintstones. A disposição de fósseis nas rochas sedimentares é um fato inquestionável. Considerar que dinossauros e seres humanos eram ou não contemporâneos é uma interpretação daquele fato. O que se deve fazer é verificar se as informações disponíveis e o conhecimento que temos, advindo das diversas áreas acadêmicas, sustentam esta ou aquela interpretação.

Diferentemente daquilo que vem sendo amplamente difundido pela mídia em geral, os simpatizantes do modelo criacionista não são pessoas ignorantes, desprovidas de conhecimento científico e que fecham os olhos para as últimas descobertas científicas. O modelo criacionista foi e está sendo construído por estudantes, professores, pesquisadores e cientistas atuando em diferentes áreas do conhecimento.

Diante das inconsistências apontadas pelo senhor na teoria evolucionista, o criacionismo também deveria ter espaço nas escolas?

Conhecedores da laicidade de nosso Estado, os simpatizantes do criacionismo bíblico que estejam realmente familiarizados com a questão não argumentam em favor da inserção do criacionismo nos currículos escolares e universitários nas escolas públicas, uma vez que, como discorrido acima, o criacionismo não é uma teoria científica e está associado ao conhecimento religioso.

A SCB, por meio de seu presidente, também se manifesta totalmente contra o ensino do criacionismo nas escolas e universidades públicas. Além da questão da laicidade do Estado, temos a escassez de profissionais devidamente versados em criacionismo bíblico advindos de nossas universidades, pois todos os cursos universitários apresentam em sua grade curricular propostas para o ensino apenas das teses evolucionistas. Consequentemente, não há formação de profissionais devidamente conhecedores do modelo criacionista e muito menos aptos a defender suas teses.

Não existe interesse, ao contrário do que é divulgado pela mídia, de que as teses defendidas pelo modelo criacionista substituam a teoria da evolução ensinada nas escolas e universidades; isso é absurdo! Obviamente, não há nenhuma oposição ao ensino do modelo criacionista em escolas que se denominam confessionais, uma vez que há abertura constitucional para isso. Mas as teorias de evolução também devem ser ensinadas.

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

Sonho missionário

Dioi Cruz nasceu em São Paulo, no dia 30 de maio de 1969. Sua base acadêmica foi construída em instituições adventistas: estudou Ciências Exatas e Biológicas no Iasp (Unasp, campus Hortolândia); iniciou Teologia no Unasp, campus São Paulo; continuou o curso (2º ano) na Universidad Adventista Del Plata, Argentina; e o concluiu no Helderberg College, África do Sul, tendo se formado em 1994. Chegou a estudar Sociologia na University of South África (curso inacabado) e atualmente faz mestrado em Liderança na Universidade de Santo Amaro (Unisa). Trabalhou como colportor na Espanha para conseguir uma bolsa a fim de estudar no Newbold College, Inglaterra. Sem sucesso, foi trabalhar na Itália e, finalmente, decidiu estudar no Helderberg College, que é uma extensão da Andrews University na África do Sul. Lá conheceu a esposa e “companheira de aventuras”, a argentina Silvia Zapata. Eles têm dois filhos: Giuliana, de 10 anos, e Guido, de 7.

O pastor Dioi iniciou seu ministério em 1995, tendo servido como pastor assistente na Igreja Central de Brasília, como distrital da Asa Norte e, em seguida, de Sobradinho, enquanto a esposa trabalhava na Divisão Sul-Americana. Em 1999, eles receberam um chamado para o Níger, na África, onde ele serviu como presidente da Missão e diretor da Adra. Dioi também foi presidente interino da Missão do Burkina Faso, presidente da Missão do Chade (para onde nem chegou a ir, devido às convulsões sociais) e, desde 2006, serve na Missão da Guiné Conakry, no oeste da África. Ele coordena as atividades da Missão, da Adra e de um distrito pastoral. Silvia trabalha como secretária e diretora de departamentos.

Em recente passagem pelo Brasil, concedeu esta entrevista a Michelson Borges:

Por que você decidiu se tornar missionário?

Servir a Deus em um contexto transcultural foi meu sonho de criança. Por meio dos cultos em família, das atividades na igreja e principalmente das emocionantes histórias de missionários, Deus estava me preparando para servi-Lo em alguns dos países mais difíceis da África. Ao ouvir aquelas lindas histórias antes de ir dormir, que faziam rir e chorar, eu era tocado pelo “ide” de Jesus e, com voz embargada, dizia aos meus pais que um dia seria missionário.

Meu pai era pastor, gostava de viajar e moramos em algumas regiões da rica e diversificada cultura brasileira. Essas experiências alimentavam meu sonho. Na adolescência, li de David Livinsgtone a Leo Halliwell e outros missionários que me inspiraram. Ao ler essas histórias, meu coração ardia de vontade de servir a Deus em algum lugar não alcançado, aprender novas línguas e desvendar a diversidade cultural de cada região. Assim, com sacrifício e perseverança, decidi estudar Teologia e Sociologia em diferentes lugares, descobrindo com empolgação como Deus conduz Seu povo em diferentes contextos culturais.

Como é o seu dia-a-dia?

Não é simples, especialmente na Guiné Conakry, onde vivemos há dois anos. Não temos eletricidade, nem água corrente, e é preciso encontrar soluções práticas. O gás de cozinha é caro e algumas vezes tivemos que usar o fogãozinho a brasa. A insegurança é constante, o governo é instável e sempre há greves violentas nas quais muitas pessoas morrem. Numa crise grave em 2007, recebemos autorização para ser evacuados, mas já não havia aviões. Sair por terra seria muito arriscado e tivemos que ficar um mês prisioneiros em nossa própria casa. Foi declarado estado de sítio e ninguém podia sair às ruas.

Diariamente enfrentamos muitos problemas práticos e é importante conhecer um pouco de enfermagem, nutrição, mecânica, informática, marcenaria, eletricidade, construção, etc. Em outras palavras, é preciso saber dar um “jeitinho”.

Além desse problema na Guiné Conakry, que outras situações difíceis você já enfrentou como missionário?

Quando chegamos ao Níger, há nove anos, ao sair do avião tínhamos a impressão de estar entrando em uma sauna seca. Deu vontade de dar meia-volta e ficar dentro do avião. Ao chegarmos à casa pastoral, parecia que tudo estava pegando fogo. O termômetro marcava 48 graus Celsius à sombra. O ar que respirávamos queimava e quando faltava eletricidade e não podíamos usar o ventilador ou o ar condicionado, tínhamos que dormir sobre uma toalha molhada tendo outra para nos cobrir, para refrescar um pouco.

Aprendemos a comer de maneira simples, tentando sempre balancear a alimentação com o que estava disponível. Muitas vezes, não podíamos encontrar uma única banana em Niamey, a capital, e tínhamos que esperar chegar da Costa do Marfim. Internet ainda era uma comodidade rara e nos sentíamos muito sozinhos. Apesar disso, o Senhor sempre nos confortou por meio de novos amigos, de irmãs e irmãos africanos que não mediram esforços para nos entender e nos aceitar.

No começo da Guerra no Iraque, o governo nos convidou para participar em uma comissão de entendimento entre as religiões reveladas, o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo. Várias autoridades do governo estavam presentes e a reunião foi realizada na Grande Mesquita em Niamey, onde estávamos todos sentados no chão, sem sapatos, segundo o costume. O líder da Associação Muçulmana Nacional começou a falar em Árabe e após quase duas horas de introdução, começamos a nos apresentar. O pastor local estava comigo e após as apresentações, todos nos olhavam de maneira diferente, até que alguém se levantou dizendo que não éramos dignos de estar ali porque éramos uma seita perigosa e que havíamos blasfemado no passado contra o Islamismo.

Olhei para meu colega Nigeriano e lhe perguntei cochichando se deveríamos nos defender de tamanha acusação. Ele me respondeu discretamente que não deveríamos falar nada, mas permanecer sentados e estáticos. Percebi que a situação era muito séria. Nossa única chance era que alguém se levantasse para nos defender. Depois de alguns minutos de silêncio, um líder muçulmano se levantou, nos defendeu e elogiou o trabalho que fazemos por meio das três escolas da Adra, dos programas de saúde e da distribuição de alimentos. A representante de uma associação de mulheres muçulmanas também elogiou o trabalho que a Igreja Adventista faz e a educação que seus próprios filhos receberam. Vários outros se levantaram e nos defenderam, entre eles um pastor batista que afirmou que não éramos uma seita e que seguimos os princípios bíblicos. Confesso que tive medo de ser lapidado e até morto, como sempre aconteceu nos conflitos entre cristãos e muçulmanos no país ao lado, a Nigéria. Ao sair, deixei com cada pessoa um livro da Associação Internacional de Liberdade Religiosa (Irla) e nunca mais tivemos problemas de preconceito com ninguém. Além disso, o governo nos concedeu uma autorização de atividades para períodos renováveis de cinco anos, em vez um ano.

Fale sobre a história do “vento do Espírito Santo”.

Por meio do ministério de apoio Gospel Outreach, decidimos implantar uma igreja em Maradi, a segunda maior cidade do Níger que não tinha nenhuma presença adventista. Fizemos uma reunião de planejamento e escolhemos os métodos que seriam usados. Começaríamos com o futebol, o Clube de Desbravadores e um curso de fabricação de sabão.

Assim, antes de cada aula de fabricação de sabão, o obreiro bíblico lia alguns textos do Alcorão e da Bíblia e dava algumas explicações antes de orar a Al-fatiah, uma linda oração muçulmana. Certo dia, vários homens barbudos, conhecidos por serem extremistas, vieram com o presidente de uma associação temida. Nosso obreiro evitou tocar em assunto religioso e quis começar a aula rapidamente porque temia ser agredido.

Um deles disse: “Queremos ouvir a pregação!” O obreiro, em oração e com mãos trêmulas, tomou o Alcorão com todo respeito para ler um texto, quando de repente um vento começou do nada e jogou todos os folhetos de lições bíblicas sobre as pessoas. Quando o obreiro já estava tentando sair discretamente pelas portas do fundo, as pessoas começaram a pedir insistentemente explicações do conteúdo dos folhetos. Temeroso, ele começou a explicar e se surpreendeu ao perceber que eles não tinham má intenção. Nos dois meses seguintes, aqueles barbudos assistiram todas as aulas de fabricação de sabão e aos estudos bíblicos. Formaram uma cooperativa de sabão e estavam muito felizes com tudo o que aprenderam sobre os cristãos adventistas.

Quando fui à cerimônia de entrega dos certificados de conclusão, percebi que a placa que havíamos feito para identificar o grupo adventista havia sido alterada. Não estava mais escrito “Eglise Adventiste du Septième Jour”. Alguém havia alterado para “Les Adventistes du Septième Jour”. O obreiro bíblico explicou-me que havia sido uma sugestão do presidente da associação extremista e que com essa mudança na placa todos estavam vindo às reuniões da Escola Sabatina e cultos sem preconceito algum. Quando perguntei ao presidente da associação por que estavam freqüentando o grupo adventista, ele respondeu: “Vocês são bons cristãos e pela primeira vez ouvi alguém nos falar de Issa (Jesus Cristo) como Messias usando o nosso próprio livro.”

Esse “vento do Espírito Santo” deu início a um lindo grupo de adventistas naquela cidade.

Você encontrou uma vila que tinha o sábado como dia de descanso. Fale sobre isso.

Uma história recente e emocionante foi a conversão em massa da população de uma aldeia dos Kissis chamada Powa, que fica na floresta próxima da fronteira com Serra Leoa, onde morreram muitas pessoas em guerrilhas violentas. Kissi quer dizer “salvador” ou “protetor”, porque no passado os melhores guerreiros eram Kissi. Um jovem Kissi chamado Michel saiu de sua aldeia para estudar em Gueckedou, a cidade mais próxima, onde através de um folheto bíblico conheceu a mensagem adventista e foi batizado. Voltou à Aldeia e depois de muita insistência convenceu os pais a irem à Escola Adventista de Gueckedou assistir aos cultos. Eles gostaram e persuadiram o chefe da aldeia que também decidiu estudar a Bíblia. Nessa região, tradicionalmente as pessoas não plantam nem colhem no sábado porque é o “dia do descanso da terra”. Apesar de serem todos animistas e feiticeiros, o chefe gostou muito do que aprendeu sobre o sábado e disse que ele seria batizado, mas que todo o povo da aldeia deveria também ser batizado. Quando estive lá, falei do amor de Jesus e do Seu poder para nos libertar das forças do maligno e de todas as feitiçarias.

Despedimo-nos ao som do coral das crianças cantando musicas feitas na hora sobre a pregação que haviam escutado. Marcamos o grande batismo para o mês de maio deste ano e foi uma festa! Graças a doações de irmãos da igreja no Brasil, a capela estava pronta para ser inaugurada. Considerando que os braços de nossa pregação são o Ministério da Saúde e da Educação, construímos um poço e iniciamos uma escola de alfabetização. Hoje, três aldeias próximas a Powa decidiram também aceitar Jesus Cristo como seu protetor e se preparam para um grande batismo de mais de 150 pessoas, quando será inaugurada a sua capela, o poço e a escola de alfabetização.

Como construir pontes e aproveitar aspectos culturais de cada povo a fim de levá-lo a Jesus?

Precisamos entender os princípios bíblicos mostrados na vida dos grandes missionários de Deus como Abraão, Paulo, João, Pedro e muitos outros. Todos esses homens e mulheres de Deus, devido às circunstâncias naturais ou segundo o plano de Deus, aprenderam a não ser rígidos e monoculturais. Eles foram eficientes em sua missão porque souberam honrar e amar as pessoas respeitando sua cultura, tradições, costumes e língua. Decidiram ser flexíveis, tolerantes e amáveis sem, contudo, desprezar as regras, normas e princípios eternos de Deus. O Espírito Santo outorga esses dons principalmente às pessoas que têm paixão pelo bem-estar do próximo e por sua salvação.

É possível alcançar esse equilíbrio quando imergimos na cultura onde atuamos e olhamos para as pessoas com os olhos de Jesus. Por isso, no maravilhoso plano da redenção, Cristo Se encarnou em nossa cultura pecadora, porém, sem cometer pecado, para que o Divino pudesse Se comunicar com o humano.

Até que ponto podemos ir nessa “abertura cultural” sem comprometer princípios?

Alguns argumentam que o pecado é relativo e que não existem absolutos morais porque as definições culturais do pecado mudam. Se não distinguirmos as normas bíblicas das normas de nossa cultura, não poderemos afirmar a natureza absoluta das definições dos princípios bíblicos. Como cristãos, pregamos que existem padrões de justiça dados por Deus sob os quais serão julgados os seres humanos de todas as culturas.

É necessário que façamos distinção entre as “coisas celestiais” e as “coisas terrenas”, e entre “graça salvadora” e “graça comum”. Em todo o Seu ministério, Cristo tentou nos mostrar a posição correta dessa linha divisória rompendo com algumas tradições e lembrando-nos dos princípios. Alguns cristãos confusos pretendem ser salvos pela “graça comum” e ignoram a “graça salvadora” ou transformadora de Cristo.

A linha divisória entre as tradições ou costumes temporais e os princípios eternos de Deus é, às vezes, erroneamente definida segundo a cultura em que vivemos e a nossa experiência pessoal com Deus. Nossos valores e costumes influenciam o entendimento da justiça e da misericórdia de Deus e a percepção do que Ele espera de nós e do que esperamos dEle. Existem cristãos que de maneira rígida “santificam” tradições e costumes e existem cristãos que de maneira profana depreciam as normas, regras e princípios eternos de Deus. Precisamos dar coerência a nossa fé seguindo nosso exemplo máximo, Jesus Cristo.

Pode dar algum exemplo prático disso?

Quando trabalhávamos no Níger, percebemos que a população não ocidentalizada não usa aliança de casamento. A mulher usa brincos que foram dados por seu marido como símbolo de fidelidade. Se uma mulher não usa brincos é porque é solteira, viúva ou divorciada. Que conselho dar às irmãs adventistas cujo marido ainda não é convertido e se sente ofendido se a esposa não usa os brincos do casamento? Com base no conselho bíblico, essas irmãs não deveriam abandonar os maridos não crentes, mas serem fieis e convertê-los (1Co 7:13). Sabendo que o uso de brincos nesse contexto não é um ato de vaidade, mas sim de fidelidade e respeito ao casamento, essas irmãs usaram brincos até que seus maridos se convertessem. E por respeito aos membros, essas irmãs retiravam os brincos ao irem à igreja.

O cristianismo “beatificou” muitos costumes pagãos como, por exemplo, o uso da aliança de casamento para ser um símbolo da fidelidade no casamento. Alguns desses costumes são aceitos pela maioria dos cristãos hoje. São tradições religiosas que devemos subjugar aos princípios bíblicos.

Sobre os cristãos que têm costumes não respaldados por princípios bíblicos, o missionário Paulo disse uma vez: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo e me regozijarei ainda” (Fp 1:18). Por que não anunciar Jesus sendo cristãos autênticos? Com certeza seríamos mais eficientes.

Como adventistas do sétimo dia, nossa posição se aproxima mais de Cristo como transformador da cultura, porque a nossa mensagem é peculiar para este momento histórico em que os valores na sociedade estão quase todos invertidos.

Como pregar especificamente para um muçulmano?

A melhor maneira de apresentar Jesus como Salvador a um muçulmano é por meio da maneira como vivemos. O maior desejo do muçulmano sincero é saber que Deus o ama e pode perdoá-lo, mas antes precisa ver isso em nossa vida. Ao observá-lo para ver se você é um crente fiel, ele vai primeiro analisar se os que estão mais próximos de você são também fiéis. Por isso, antes de começar a trabalhar com um muçulmano, é muito importante que sua família e amigos amem ao Senhor e vivam em harmonia com a vontade dEle. O estilo “faça o que Deus diz, mas não siga o meu exemplo” não funciona. Precisamos falar numa linguagem adaptada. Isso inclui histórias, tradições e poemas que apresentem a verdade dentro da cultura islâmica. É muito importante conhecer o Alcorão e as tradições muçulmanas.

O que envolve o preparo para ser missionário? Que aptidões são úteis?

Ter muito tato e nenhum olfato! Se você não gosta de ovelhas, não seja pastor. É preciso gostar de gente e não ser preconceituoso. Conseguir ver o valor infinito que cada pessoa tem para Deus. Estar disposto a sofrer. Ter hábitos saudáveis que promovam a saúde física e emocional. Respeitar as tradições locais. Gostar de aprender novas línguas e costumes. Muita oração. E, sobretudo, buscar inspiração na vida de Cristo e na dos grandes missionários apostólicos e contemporâneos.

O que deve fazer quem deseja ser missionário?

Deve colocar o projeto nas mãos de Deus, entregar o currículo ao secretário da Associação ou União e aguardar a oportunidade. Existem muitos lugares onde atuar como missionário. Para começar, é importante estar envolvido em todas as atividades da igreja local, ler sobre a vida dos grandes missionários, sonhar alto e aprender o inglês, se desejar servir fora do Brasil. O site https://interdivisionservices.gc.adventist.org oferece várias oportunidades, como também o programa de Missionários Voluntários http://www.adventistvolunteers.org, coordenado pela Marly Timm (marly.timm@dsa.org.br) da Divisão Sul-Americana.

Quais as vantagens dos missionários brasileiros?

Vivemos no país dos mamelucos, mulatos e cafuzos. Nossa cultura é rica, abrangente e qualquer estrangeiro se sente bem aqui. No Brasil, existe a maior comunidade japonesa fora do Japão, vivem mais libaneses aqui do que no Líbano. Em toda a África, apenas na Nigéria a população negra é maior do que a do Brasil. Existem outros países que são mais multiculturais e multilingüísticos que o Brasil, mas não se vê tanta miscigenação racial. Por mais marginalizado que seja, o estrangeiro é recebido com carinho pelos brasileiros.

Essa tolerância cultural nos ajuda a sofrer menos com o choque cultural ao ir para o exterior. E caso haja algum problema de desentendimento, é só falar do Pelé, dos Ronaldinhos, de Samba e Bossa Nova, que todas as barreiras desaparecem.


Batismo no rio Niger

Quinta-feira, Novembro 27, 2008

Aventura sobre duas rodas

Manoel de Carvalho tem 46 anos, é ex-professor e há 17 anos atua como técnico gráfico na Editora do Colégio Objetivo. Casado com a Nora e pai da Carol e do Artur, é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia de São Miguel Paulista, onde foi ancião e tesoureiro, entre outros cargos. Além disso, é líder de jovens e de desbravadores. Nesta entrevista, ele conta um pouco de suas aventuras motociclísticas que renderam a publicação de um livro intitulado A América do Sul Sobre Duas Rodas.

Em suas palestras você costuma dizer que é importante ter um sonho.

Certamente, uma das coisas mais importantes da vida é ter um sonho. Você e eu não devemos viver sem ter sonhos. Ou a gente vive o sonho ou vive um dia após o outro sem sair da zona de conforto. Acredito que o que você faz normalmente é resultado do que você na verdade crê.

E qual é o seu sonho para curto prazo?

Entrar para o Guinness Book [Livro dos Recordes], ao fazer a travessia pan-americana do Alasca à Patagônia, numa moto 125cc. Como se trata de uma aventura muito cara, resolvi fazer algumas aventuras pela América do Sul. Foram três viagens que perfizeram 51.000 km. Cada viagem foi feita em um período de férias. Assim, ganhei alguma experiência, o que, ao meu ver, facilitaria o aparecimento de um patrocinador. Na verdade, descobri que conseguir um patrocínio no Brasil é como ganhar na loteria. Mesmo depois de dar entrevistas nas rádios mais ouvidas de São Paulo, de ser entrevistado por revistas especializadas em motociclismo, pelo Jornal da Tarde e outros jornais regionais, o patrocínio ainda não chegou.

Fale sobre as dificuldades enfrentadas em suas viagens.

Foram muitas. Por isso costumo dizer que para se aventurar como fiz é preciso um preparo especial antes de cair na estrada. Estar preparado física e psicologicamente é primordial, sem contar o dinheiro no bolso, coisa que eu menos tinha. Justo pela falta de dinheiro, enfrentei muitas privações. A primeira dificuldade foi o frio na região de Entre Rios, Argentina, quando a temperatura chegou a 2 graus. Frio, né? Mas acrescente a isso a velocidade da moto, o vento e a garoa que caía no início daquela noite. Esse conjunto gerou uma sensação térmica de 14 graus negativos. No terceiro dia na Argentina, surgiu um problema sério: na cidade de Rio Cuarto, numa parada para trocar a corrente e o pneu traseiro, o meu cartão de crédito não funcionou. O dono da loja fez de tudo, mas não teve jeito: o pagamento foi feito em dólar. Saí de casa com 380 dólares e o cartão de crédito. Para complicar ainda mais, perdi todos os meus pesos argentinos. Mais uma vez usei dólares. No fim desse terceiro dia na Argentina, às 23h, ao chegar na pequena Uspallata, no meio da Cordilheira dos Andes, percebi que perdera pouco mais de 30 dólares. Que dia!

Depois de ir dormir quase uma hora da manhã, acordei às 7h30. Afinal de contas, a neve estava ali do lado. Agora era só andar pouco mais de uma hora e já estaria em terras chilenas. Demorei mais de três horas, pois a beleza dos picos nevados me fez parar várias vezes, sem contar a velocidade da moto que cai bastante devido à altitude. Antes de entrar no Túnel Cristo Redentor, que separa Chile e Argentina, tive que conversar bastante com um policial argentino que alegou que faltava um documento da moto.

A decida da cordilheira é uma coisa incrível: são 42 curvas simétricas. Às 16h daquela sexta-feira, cheguei a Santiago. Procurei a igreja adventista central de Santiago. Passei a noite na casa do pastor brasileiro Josias Machado. Ele passara a semana fora e seu bebê estava adoentado. Escola Sabatina e culto foram feitos na casa do pastor. O pastor Josias disse para eu não me preocupar porque o cartão iria funcionar. Assim que pudemos, fomos ao “cacheiro” (caixa eletrônico). E não é que o cartão funcionou! O pastor fez a operação e sacou quase 400 dólares. E me disse: “Agora você pode continuar sua viagem.”

Ficou combinado que eu passaria a noite na Escola Adventista de La Serena, uma bela cidade à beira-mar. Antes, passei em Viña del Mar e isso me atrasou. Ao anoitecer, La Serena ainda estava a mais de 100 km. Acabei entrando no deserto à noite. No Atacama, ninguém anda de moto à noite. Passei mais frio do que na Argentina. Quase morri de hipotermia.

Em Antofagasta, almocei na casa da família do pastor Osmar Scherch. Eles também são brasileiros. Foi bom comer uma comidinha caseira. Perto de Arica, na Costa Cinza, a gasolina entrou na reserva, em pleno deserto.

Você também quase sofreu um acidente nessa viagem. Como foi?

Pilotar uma moto em média 15 horas por dia não é brincadeira. Assim, faço alguns exercícios sobre a moto para aliviar as dores. Uso uma almofada presa ao banco para não ferir as nádegas. Naquele trecho, ao deitar-me sobre a moto, a almofada soltou-se e caiu do lado esquerdo entre a corrente e a roda, quebrando a corrente. Foi um tranco violento. A máquina fotográfica que estava sob minha jaqueta foi parar longe. Ao mesmo tempo em que comecei a arrumar a moto, um motorista parou e ofereceu ajuda. Uma hora depois, cheguei em Arica. Aquele homem foi como um anjo enviado por Deus.

Os problemas não acabaram ali, não é mesmo?

Não. Depois de La Joya, no Deserto de Shilca, Peru, estava a última saída para voltar ao Brasil via Arequipa, Puno e depois Bolívia. Pensei em voltar, pois achei que o dinheiro não daria para chegar à Venezuela. Na verdade, só pensei. Segui para Lima. Nessa hora, fiquei sem meus óculos. O parafuso da armação se soltou e as lentes caíram. Como pilotar sem óculos, visto que tenho só 50% da visão. Pedi para que Deus suprisse a falta dos meus óculos.

Ao entrar na pequena Guadalupe, norte do Peru, pisei no freio e ele não respondeu. Parei a moto e vi que o pino da roda traseira estava solto. A porca havia caído. Foi por um triz. O meu anjo segurou aquele pino e a estrada boa ajudou também (a moto vibra menos). Imagine se o pino tivesse saído? Teria acabado tudo ali mesmo, depois de ter rodado mais de 9.000 km. Arrumar uma porca em Guadalupe não foi fácil.

Subindo a Cordilheira Central, pouco antes de Bogotá, fui ultrapassar uma carreta bitrem. Nisso, desceu um caminhão na contramão. A moto não passava dos 30 km/h por causa da grande altitude. Vi que ele ia bater de frente. Num segundo, pensei: “Ai, meu Deus, agora que rodei 11.000 km, vou morrer aqui tão longe de casa. Não me deixe morrer aqui, por favor!” Foi quando o motorista do caminhão freou e o veículo derrapou na pista. Consegui passar entre a lateral do caminhão e a cabine da carreta. Mais uma vez meu anjo me ajudou.

Perto de El Tigre, Venezuela, a moto apresentou desgaste na corrente. Eu tinha pela frente a Serra do Lema. Como subir os 32 quilômetros dessa serra com a corrente ruim? Seria impossível. Eu precisava subir antes de escurecer. Cheguei ao pé da serra junto com o pôr-do-sol. Entrei na serra. Subi 6 km e a corrente soltou. Arrumei, andei uns 5 metros, soltou pela segunda vez. Parei, arrumei, andei mais 2 km e ela soltou pela terceira vez, e desta vez soltou no pinhão e coroa. Eu já estava todo sujo de graxa. Coloquei a corrente no lugar, andei mais 1,5 km e soltou pela quarta vez. Atente para uma coisa: quando se esgotam nossos recursos, temos apenas um, nosso Deus. Ajoelhei-me ao lado da moto, no meio daquela floresta, e disse ao meu Deus: “Senhor Deus, não há ninguém aqui além de mim. Apenas eu, a moto, a escuridão da noite e o Senhor. Ttira-me daqui, em nome de Jesus. Amém.” Subi na moto e ela andou mais 530 km sem dar sinal de desgaste na corrente. Deus atendeu minha “discagem direta a Deus (DDD)”.

E no Brasil, como foi a aventura?

Depois de chegar a Manaus, peguei um barco para Santarém. De lá, encarei a Cuiabá-Santarém. Foram 890 km de todo tipo de terreno. Perto de Rurópolis, há um trecho de asfalto, onde entrei às 19h. Quando menos esperava, a estrada acabou. Estava muito escuro! Quando me dei conta, a moto já estava suspensa no ar. Voei 5,5 m e cai num lugar meio fofo. Lá estava eu na beira de um igarapé. Nesse segundo em que a moto voou, passou um “filme” de toda minha vida. Achei que tudo ia acabar ali mesmo. Entretanto, mais uma vez, meu anjo me segurou pela mão, ou melhor, pelo guidão da moto. Agradeci mais uma vez a proteção divina.

Agora, ao fazer a Expedição os Quatro Extremos do Brasil, eu sabia que ia ser mais difícil do que o Contorno da América do Sul, pois as estradas são terríveis na região Norte – isso quando existe alguma estrada.

Minha primeira grande dificuldade foi uma chuva torrencial antes de chegar a Rio Branco, capital do Acre. Foram momentos tenebrosos, sem ter um lugar para me abrigar naquela noite. No outro dia, enfrentei uma estrada enlameada que mais parecia sabão. Pensei que não conseguiria chegar a Feijó. As estradas nessa região ficam fechadas na época da chuva. Foi um verdadeiro rali.

Ao andar de Porto Velho a Manaus, fui obrigado a encarar a BR 319, estrada abandonada há muitos anos. Foram mais de 500 km sem gasolina, sem telefone, sem civilização. Imagine se a moto quebra num lugar desse ou se acontece um acidente? Depois, fiquei dois dias com os índios na Reserva Raposa Serra do Sol, onde está o Monte Caburaí, o ponto mais ao norte do Brasil.

Ao partir para o terceiro extremo, Ponta do Seixas, resolvi ir pelo Sertão do Cariri. Desisti de um compromisso com o pastor Wiliam (“Chumbinho”) em Fortaleza. Foi a pior viagem, pois em Patos, na Paraíba, tive todos os documentos e dinheiro roubados. Imagine você a 3.000 km de casa, sem nada no bolso. Não dá para contar todos os detalhes, mas foi um dia traumático.

Mas a situação piorou, né?

E como! No dia seguinte, apareceram os primeiros sintomas da malária. Quase morri. Levei quatro dias e meio para chegar a São Paulo. Perto de Vitória da Conquista, ao perceber que a morte me rondava, resolvi pegar carona com um caminhão. Foram quatro dias e meio até chegar à minha casa. Só não morri porque Deus não permitiu e porque eu carregava na bagagem vários remédios. A malária faz a febre chegar aos 42 graus, o que pode causar convulsão e levar o paciente à morte.

E o aspecto missionário da viagem?

Levei muitos daquele livreto Ele é a Saída, da Casa Publicadora Brasileira. Onde eu passava, deixava um exemplar. Nos outros países, deixei um panfleto que peguei na igreja adventista central de Santiago. Até hoje mantenho contato com pessoas de outros países e do Brasil, e, sempre que posso, mando algum material evangelístico para eles.

A vida pode ser uma aventura, em todos os aspectos.

(Para adquirir o livro A América do Sul Sobre Duas Rodas ligue para [11] 3289-7522, 7102-2141 ou envie um e-mail para nora.manoel@terra.com.br)

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

Experiência missionária em Ruanda

Simone Carvalho de Azevedo nasceu no dia 5 de janeiro de 1983, no Rio de Janeiro. Formada em Relações Internacionais, trabalha como analista de projetos de cooperação internacional do British Council (BC), organização internacional do Reino Unido para oportunidades educacionais e relações culturais. O BC está ligado à Embaixada Britânica, responsável por programas de cooperação entre o Reino Unido e o Brasil e busca estabelecer troca de experiências e fortalecer laços que resultem em benefícios mútuos entre o Reino Unido e os países onde está presente, atuando em educação, língua inglesa, ciências, arte, governança e direitos humanos. O BC está presente em 222 cidades e 109 países. Seus principais parceiros incluem governos, organizações não-governamentais e instituições privadas.

Simone trabalhou na equipe de planejamento, implementação, monitoramento e avaliação de projetos de educação, governança/direitos humanos e mudanças climáticas. Relaciona-se principalmente com o MEC, MCT, Unesco, Consed, União Européia e embaixadas européias em Brasília.

Simone fala fluentemente inglês, francês, espanhol, italiano, além do português; e entende “um pouco” de romeno, swahili e kinyaruanda. Ela teve algumas experiências missionárias marcantes, sobre as quais fala um pouco nesta entrevista concedida a Michelson Borges:

Como surgiu a idéia de ser missionária?

Desde pequena, tive vontade de ser missionária. As histórias que ouvia de missionários brasileiros e estrangeiros me encantavam e emocionavam. Enquanto cursava Relações Internacionais, o desejo se intensificou e decidi que iria para a África de qualquer maneira, logo após minha formatura.

Algum tempo antes tinha conversado sobre meu desejo com o Pr. Daniel dos Santos, então diretor da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra) do Estado de São Paulo (União Central Brasileira). Ele estava prestes a se mudar para Ruanda, África, onde seria diretor da Adra. Assim, no fim do último ano da faculdade entrei em contato com ele novamente e com outros diretores da Adra em países africanos. Orei bastante a Deus e decidi que eu iria para o primeiro país que me desse uma resposta positiva. Foram três meses de ansiedade, espera e oração. Por fim, a Adra Ruanda formalizou o convite para eu trabalhar como voluntária/missionária em Relações Públicas, e eu prontamente aceitei.

Em que países você já estudou ou trabalhou e o que fez lá?

Logo que ingressei no curso superior de Relações Internacionais, tomei a decisão de que aprenderia quatro idiomas (um em cada ano) e seria poliglota. Foi um sonho que brotou em 2001 e se concretizou em 2004, com o apoio da minha família e de Deus. Eu sabia um pouco de inglês e nada mais. Assim, fiz uma espécie de plano/roteiro com meu pai e fui à luta! Cada período de férias estudava um idioma ou o reforçava, sempre em países diferentes. Durante o ano, fazia aulas particulares com professores nativos da língua, para mantê-la e aperfeiçoá-la. Foram muitas horas de estudo e muitas pesquisas de passagens aéreas, lugares para estudar, cursos, etc. Sempre priorizei estar com famílias ou instituições adventistas.
Em quatro anos pude estudar espanhol na Universidade Adventista de Cochabamba (Bolívia); francês na casa de uma família adventista da Guiana Francesa e no Colégio Adventista de Collonges (França); inglês nos Estados Unidos e no Helderberg College (Africa do Sul) e italiano no Instituto Adventista de Villa Aurora (Itália).

Em 2005 trabalhei em Ruanda como coordenadora de Relações Públicas da Adra. No ano seguinte, tive a oportunidade de trabalhar na Bélgica como trainee da Comissão Européia, no Departamento de Cooperação Internacional. Foi um grande privilégio para mim, pois cada semestre a União Européia seleciona em média 700 trainees, dos quais a grande maioria é européia, e convocam somente, no máximo, dois brasileiros. O ano de 2006 foi muito interessante, pois vivi e trabalhei justamente no país que colonizou Ruanda, ou seja, a Bélgica. Como meus colegas de trabalho e amigos não eram cristãos, pude testemunhar sobre minha fé.

Além de Ruanda e Bélgica, tive a oportunidade de ser missionária em Taiwan, Ásia, no fim de 2007. Participei ali da 2ª Conferência Mundial de Jovens e Serviço Comunitário, representando os jovens da América do Sul. Na primeira semana participamos de projetos comunitários ao redor do país. Estive no Colégio Adventista de Taiwan, com um grupo de norte-americanos, ensinando Inglês. Apesar de ser uma escola adventista, a maioria dos alunos era budista. Por isso, muitas sementes foram plantadas naqueles dias. Na semana seguinte, 2.500 jovens se reuniram na capital, Taipei, onde participamos da conferência. Auxiliei os pastores jovens de nossa Divisão Sul-Americana com interpretação do inglês para o português, colhi depoimentos, fotografei os melhores momentos e me envolvi na programação.

Fale um pouco sobre Ruanda e o genocídio.

Ruanda é um país localizado no interior da África. Faz fronteira ao norte com Uganda, ao sul e a leste com Tanzânia e a oeste com a República Democrática do Congo. A fronteira com a República Democrática do Congo está estabelecida em grande parte pelo lago Kivu. A elevada altitude de Ruanda torna o clima temperado. É um país muito acidentado, com muitas montanhas e vales, pelos quais é conhecido como o “país das mil colinas”. Abriga parte dos “gorilas de montanha”, que estão em extinção.

Ruanda tem aproximadamente 8 milhões de habitantes. Sua capital é Kigali e a principal religião é o catolicismo. Menos de 10% da população é adventista e atualmente há pouco menos de 2 mil igrejas adventistas no país.

As exportações de Ruanda se resumem em café e chá. Trata-se é um país rural com aproximadamente 90% da população trabalhando na agricultura. É o país mais densamente povoado da África, tem poucos recursos naturais e um setor industrial extremamente pequeno. Existem três idiomas oficiais: inglês, francês e kinyaruanda (idioma nacional e também o mais falado).

Em 1994 as tropas hutus, chamadas Interahamwe, acentuaram seus treinamentos e foram mais equipadas pelo exército ruandês com o objetivo de confrontar os tutsis. Em 6 de abril de 1994, Juvénal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, o presidente do Burundi, foram assassinados quando o avião em que estavam foi atingido enquanto aterrissava em Kigali. Durante os três meses seguintes, os militares e as tropas hutus mataram cerca de um milhão de tutsis e hutus oposicionistas, naquilo que ficou conhecido como o Genocídio de Ruanda.

Um dos grandes motivadores do massacre que houve em Ruanda foi a Radio Télévision Libre de Mille Collines (RTLM), dirigida pelas facções hutus mais extremas. As mensagens da rádio focavam nas diferenças que separavam ambos os grupos étnicos e, à medida que o conflito avançava, os apelos à confrontação e à “caça dos tutsi” tornaram-se mais explícitos.

Quase cada uma das mulheres que sobreviveram ao genocídio foi estuprada. Muitas contraíram HIV/aids e ainda engravidaram. Hoje o país tem um grande número de órfãos e pessoas com aids. Apesar do ódio e rancor que existe ainda entre as tribos e famílias, o país, a Igreja e a Adra têm somado esforços para promover a união e reconciliação do povo ruandês. Por isso, viver e trabalhar em Ruanda foi um grande desafio, por ser um país que ainda está completamente mergulhado em tristezas e traumas.

Descreva brevemente os projetos da Adra lá.

Como coordenadora de Relações Públicas da Adra, eu era responsável por fazer o contato com a mídia impressa e eletrônica e apresentar os projetos de desenvolvimento da Adra a instituições governamentais, ONGs, agências da ONU e embaixadas. Pude também desenvolver newsletters, criar conteúdo para o novo website e auxiliar na elaboração de dois projetos de desenvolvimento social.

Como parte do meu trabalho consistia em colher depoimentos, fazer entrevistas e tirar fotografias, tive a oportunidade de ouvir muitas histórias interessantes e emocionantes e estar em contato com todos os projetos da Adra.

Em 2005 a Adra trabalhava com programas de Educação e Formação, Saúde Sexual Reprodutiva, Desenvolvimento Econômico, Direitos Humanos e Segurança Alimentar. Tínhamos um projeto de alfabetização e educação de adultos; apadrinhamento de crianças; produção agrícola (arroz); distribuição de alimentos para pessoas carentes que tinham HIV/aids; treinamento e capacitação nas áreas de saúde, segurança alimentar e microcréditos; treinamento para jovens sobre saúde sexual e o programa integrado de terapia da aventura.

De qual desses projetos você mais gostou de participar e por quê?

O que mais me chamou a atenção foi o projeto de alfabetização de adultos, pois combinava teoria e prática de uma forma muito interessante. A maioria das aulas era ministrada ao ar livre, ou seja, embaixo de árvores. Por meio desse projeto, a Adra treinava instrutores, que eram pessoas que tinham terminado seus estudos (uma raridade), e esses ensinavam outros a ler e escrever. Os livros-texto traziam ilustrações do cotidiano ruandês e lições práticas relacionadas a sua cultura. Além disso, os alunos tinham a oportunidade de aprender atividades úteis, como fazer vaselina, sabão, cultivar horta, cuidar da água, entre outras.

Nos fins de semana, me envolvia bastante com atividades nas igrejas francófonas, anglófonas ou as que falavam somente kinyaruanda. Gostava de interagir com as pessoas, fazer novos amigos e ajudar principalmente na área musical. Tocava flauta transversal e piano nos cultos, cantava e auxiliava na Escola Sabatina das crianças (elas ficavam praticamente todas juntas em uma mesma sala). A Dra. Claudia Araújo, médica missionária brasileira, e eu cantávamos juntas e formamos um coral infanto-juvenil. Gostava também de cantar, tocar e contar histórias em orfanatos, prisões e em eventos da igreja.

Que tipos de privações você sofreu como missionária?

Minha maior privação foi a saudade da família e dos amigos. Apesar de fazer novos amigos lá, sentia falta das pessoas queridas que estavam longe. Muitas vezes me senti compadecida, tocada e emocionada ao ouvir as histórias e experiências tristes pelas quais os ruandeses passaram durante e após a guerra.

Lembro também de uma viagem de ônibus que fiz nas férias pelo Quênia, Uganda e Tanzânia. Foram longas horas de viagem sem ver nenhum banheiro. Não havia postos de gasolina ou “paradas” na estrada, então a único jeito era achar num lugarzinho no meio do mato!

Conte a história que mais a marcou.

Em uma de minhas visitas ao projeto de alfabetização de adultos no norte de Ruanda, tive a oportunidade de conhecer o Sr. Epinaque. Ele tinha 51 anos na época, era cheio de energia e simpatia. Apesar de ter poucos dentes, esbanjava um sorriso contagiante. Logo que entrei em sua casinha de barro, o Sr. Epinaque me chamou para mostrar o seu certificado de conclusão do curso da Adra de instrutor do programa de alfabetização de adultos. Com muito orgulho, ele me contou de sua alegria em ter aprendido um pouco de inglês naquele período e de como sua vida havia mudado.

Antes do curso, ele bebia muito. A esposa o deixou e levou consigo seus filhos. Após o envolvimento com o projeto da Adra, ele decidiu parar de beber, ganhou uma ocupação, melhorou a auto-estima e até se casou novamente. A Sra. Patrícia, sua nova esposa, estava ao lado dele naquele dia e não conseguia parar de sorrir, de tanta felicidade. Para mim, essa história foi mais um exemplo de como a Adra faz a diferença na vida das pessoas, uma de cada vez.

O que motiva alguém a ser missionário em outro país?

Senso de missão, vontade de servir, conhecer outras culturas, ajudar o próximo. No meu caso, além de tudo isso, crescimento espiritual e profissional também foram fatores marcantes.

Que lições você aprendeu e como passou a ver a vida depois dessa experiência?

Aprendi a ser mais paciente, simples, bondosa, humilde e respeitar e amar o outro. Como já mencionei, logo após Ruanda, fui trabalhar justamente na Bélgica, o país que colonizou Ruanda. Para mim, foram dois extremos – o colonizador e o colonizado, terceiro e primeiro mundos –, porém, cada um me ensinou uma lição de vida.

Que tipo de preparo se deve ter para ser missionário em outro país?

Muita oração, comunhão com Deus, empatia e desapego dos bens materiais. É muito importante também estar pronto para aprender coisas novas, interagir com pessoas diferentes sem preconceito e fazer leituras prévias sobre o país e a cultura.

O brasileiro leva alguma vantagem como missionário?

Sim, nosso “jeitinho brasileiro” abre muitas portas e encanta as pessoas. A facilidade de comunicação e a alegria que nós temos considero também pontos muito fortes.

Caso algum leitor sinta o desejo de ser missionário, o que ele/ela deve fazer e a quem deve contatar?

Em primeiro lugar, é importante sentir o chamado de Deus e o verdadeiro desejo de servir. Se você deseja trabalhar em um país que não seja de fala portuguesa, é imprescindível o domínio de um idioma estrangeiro (inglês ou francês, dependendo do lugar). Sempre indico escolas e universidades adventistas para o aprendizado de línguas, pois além de ter uma filosofia cristã, o ambiente de estudos e convívio é bastante agradável.

Quanto a escolas na Europa, indico o seguinte website: www.linguadvent.org. Há outras opções interessantes na América do Norte ou Oceania, que podem também ser encontradas na internet. Com relação a oportunidades missionárias, aconselho a busca nos seguintes websites: www.adventistvolunteers.org e www.adra.org

Terça-feira, Outubro 21, 2008

Novo fôlego criacionista

Geólogo adventista fala sobre a importância da criação da “filial” brasileira do Geoscience Research Institute

Aos 27 anos de idade, Nahor Neves de Souza Junior iniciou sua carreira profissional que já dura outros 27 anos. Essas quase três décadas, por sua vez, dividem-se em dois períodos iguais de 13,5 anos. Como geólogo criacionista, Nahor optou por uma carreira em Geologia Aplicada, tanto no âmbito acadêmico (mestrado e doutorado em Geotecnia, pela USP), como na esfera profissional (Petrobras, professor e pesquisador da Unesp e USP). Os 13,5 anos seguintes foram dedicados exclusivamente à obra de Deus, no Unasp, na coordenação de cursos de graduação e pós-graduação; como professor de Ciência e Religião; na publicação do livro Uma Breve História da Terra (em fase de conclusão da 3ª edição), preparação de artigos, CD-ROM e participação na produção de DVDs; apresentação de mais de trezentas palestras criacionistas em aproximadamente 120 eventos, entre outras atividades. “Estou entrando no meu 27º ano de feliz vida conjugal com Noemi [cirurgiã dentista, em São Carlos, SP], que me presenteou com quatro filhos, dos quais muito me orgulho: Israel, Tiago, Ana Claudia e Sarah”, diz Nahor.

No fim de junho, ele recebeu aquele que talvez seja o convite mais desafiador de sua carreira como militante criacionista: dirigir a “filial” brasileira do Geoscience Research Institute.

Para falar sobre isso, o Dr. Nahor conversou com Michelson Borges, no Unasp, campus Engenheiro Coelho.

Fale um pouco sobre o Geoscience Research Institute (GRI).

O GRI é uma instituição diretamente ligada à Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Foi fundado em 1958 com o propósito de utilizar tanto o conhecimento bíblico como o conhecimento científico, na busca de explicações para questões relativas às origens. Na verdade, a tentativa de harmonizar ambas as modalidades de conhecimento constitui a essência do próprio criacionismo.

Quem são os cientistas que trabalham ali e quais projetos de pesquisa eles desenvolvem?

A sede do GRI, localizada no campus da Universidade Adventista de Loma Linda (Califórnia), tem laboratórios próprios para pesquisa e uma biblioteca com 18 mil volumes, incluindo assinaturas de cem revistas técnicas. O instituto é responsável também pela publicação de dois periódicos: Origins e Ciencia de los Origenes. Sete cientistas, vinculados à instituição e que trabalham em período integral nos campos da Biologia, Geologia, Física e áreas afins, devotam seu tempo à pesquisa e divulgação do criacionismo em várias partes do mundo.

Essas pesquisas causam algum impacto na comunidade científica?

Além da atuação dos sete pesquisadores de tempo integral, o instituto mantém um modesto programa de apoio financeiro que favorece outros pesquisadores qualificados. O investimento em pesquisas, nos últimos 20 anos, resultou no desenvolvimento de aproximadamente cem novos projetos sobre temas relacionados com a origem e história da Terra. Vários desses projetos contribuíram para a produção de excelentes artigos científicos, publicados em anais de eventos técnico-científicos e em importantes revistas especializadas na área de ciências naturais.

Para o Brasil, o que significa ter uma filial do GRI?

Nosso País vem se destacando, no cenário da igreja mundial, não somente pelo expressivo número de membros, mas também nos setores da educação e do criacionismo. Nesse sentido, ressaltamos o trabalho pioneiro, extremamente abrangente e eficaz, desenvolvido (por quase quatro décadas) pela Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), com sede em Brasília, DF; as atividades realizadas pelo NEO (tradução e produção de artigos e livros criacionistas, divulgação mediante palestras em congressos e simpósios, entre outras iniciativas); e a oportuna e importante contribuição da CPB, na produção de abundante e excelente material criacionista (livros, materiais didáticos, CDs, etc.). Com efeito, podemos, então, destacar o principal objetivo dessa nova filial do GRI: otimizar os esforços e iniciativas individuais e das referidas instituições, em prol da conscientização e divulgação do criacionismo, para alcançar tanto a comunidade adventista como o meio acadêmico secular.

Como encarou sua nomeação para a função de diretor da sub-sede do GRI/Brasil?

Com surpresa e certa apreensão.

De que forma a criação dessa filial vai contribuir para a ampliação das atividades criacionistas no País?

Tendo em vista as oportunidades já disponíveis e os serviços atualmente oferecidos pelas três instituições (NEO, SCB e CPB), o criacionismo poderia já estar bem mais difundido ou ampliado no Brasil. Ou seja, os projetos (em andamento e outros em vista) somente poderão ser desenvolvidos, com sucesso, mediante a efetiva colaboração dos líderes da Igreja (da Divisão Sul-Americana à igreja local) e do real engajamento dos cientistas e professores adventistas.

Fale sobre os projetos que serão levados avante pelo GRI.

Dentre os novos projetos a ser implementados, destaco: intensificar e diversificar a produção de material criacionista (livros, revistas, CDs, DVDs e outros produtos); estimular e facilitar a aquisição desse material, de tal forma que os pré-universitários, universitários, professores e demais interessados adquiram adequada cultura criacionista; incentivar a criação de “pequenos grupos criacionistas” para atuarem no próprio ambiente universitário secular; encorajar pesquisadores universitários para que direcionem seus projetos em áreas promissoras (descobertas favoráveis à cosmovisão criacionista). Evidentemente, os eventos e cursos que visam à divulgação do criacionismo e à capacitação de estudantes e professores serão oferecidos com maior freqüência e abrangerão todo o território brasileiro.

Como o senhor avalia a controvérsia entre o criacionismo e o darwinismo?

Nos últimos treze anos, diretamente envolvido com essa controvérsia, tenho presenciado acontecimentos marcantes. O recente movimento do Design Inteligente ou TDI (que não deve ser, necessariamente, confundido com o criacionismo) tem confrontado o evolucionismo, revelando suas reais inconsistências e fragilidades. A o dedicar mais espaço à controvérsia, a mídia destaca a posição defensiva (muitas vezes, incoerente, agressiva e desrespeitosa) dos adeptos do paradigma evolucionista das origens. Na realidade, os problemas enfrentados por esse paradigma envolvem questões fundamentais e não periféricas. Particularmente, ao participar de eventos em várias universidades públicas, tenho a grata satisfação de sentir, além da boa recepção, o grande interesse de alunos e professores em conhecer a visão criacionista das origens. Essas oportunidades devem ser buscadas com maior freqüência. A cosmovisão criacionista, muito mais abrangente e consistente que a TDI, poderia promover a construção de modelos científicos (sobre temas relacionados com as origens) muito mais elucidativos e coerentes com a realidade dos fatos. Mas, onde estão e o que estão fazendo os cientistas criacionistas?

Por que os adventistas têm especial interesse na defesa do criacionismo, a ponto de manter um instituto de pesquisas científicas?

Para responder sua pergunta, preciso citar um pequeno texto de Ellen White: “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. A eles foi confiada a última mensagem de advertência a um mundo a perecer. Sobre eles incide maravilhosa luz da Palavra de Deus. Foi-lhes confiada uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção” (Testemunhos Seletos, v. 3, p. 288). É também do nosso conhecimento que a primeira mensagem angélica nos conclama a adorar o Criador (o Autor do livro da natureza e do Livro dos livros, a Bíblia). Consideremos, ainda, que o criacionismo (em harmonia com Romanos 1:20) pode ser definido como uma associação coerente e sustentável entre o conhecimento bíblico e o conhecimento científico. Desse modo, podemos afirmar que o criacionismo é parte integrante do evangelho eterno (Apocalipse 14:6, 7). Portanto, a manutenção de um instituto de pesquisas em geociências não é apenas importante, mas imprescindível.

Assim, com coragem e determinação, mas com o devido preparo, estratégias adequadas e o amor de Jesus Cristo no coração, devemos atender ao “Ide” (Mc 16:15), como autênticos criacionistas adventistas.

Segunda-feira, Setembro 29, 2008

Big bang e universos paralelos

Eduardo Lütz é físico e tem atuado também em outras áreas como, por exemplo, Matemática, Informática, Filosofia, Linguagens e Educação. Foi, além de tradutor, professor de Ensino Médio, de escola técnica e de nível superior. Também é programador, analista de sistemas, arquiteto e engenheiro de software. Na Física, tem feito pesquisas em Astrofísica Nuclear, Física Hipernuclear, Buracos Negros e aplicações da Geometria Diferencial a estudos de Cosmologia. Atualmente, ocupa a maior parte de seu tempo em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de software para a Hewlett-Packard.

Nesta entrevista, concedida a Michelson Borges, ele fala sobre big bang, universos e paralelos e outros temas afins.

Você acha que o big bang é uma teoria plausível?

Antes de responder, me parece importante mencionar um aspecto importante da divulgação de informações sobre ciência.

É importante ter em mente que a intuição humana (incluindo a Filosofia) é extremamente inadequada para lidar propriamente com as leis físicas. Felizmente, isso não se aplica a métodos matemáticos, cuja origem não é humana, embora os símbolos sejam inventados. Assim, várias coisas que eu digo sobre ciência podem parecer inconsistentes ou até absurdas, à primeira vista, (incluindo o que acabei de falar sobnre Matemática) pois procuro ajustar a visão filosófica às evidências físicas e suas conseqüências matemáticas, e não ao que parece “razoável” à intuição humana.

Muitas pessoas, ao saber que a probabilidade de determinada hipótese é de “apenas” 99%, optam por uma hipótese concorrente que lhes parece mais razoável. Muito freqüentemente, porém, essa tal “hipótese mais razoável” possui uma probabilidade muito baixa (digamos, 1%), só que sua medida não é amplamente conhecida.

Quando utilizamos o método científico genuíno (não aquela versão descaracterizada que vemos nos livros didáticos), podemos descobrir e corrigir esses equívocos. Um dos aspectos mais fundamentais e menos reconhecidos do método científico é sua base matemática. Teorias científicas são estruturas matemáticas que satisfazem a certos critérios. Muitos, ao ouvirem explicações, motivações ou resultados de uma teoria, confundem essas coisas com a teoria em si.

Estritamente falando, o big bang não chega a ser uma teoria científica. Trata-se de uma família de soluções da equação fundamental de uma teoria científica chamada de Relatividade Geral. Essa teoria, por sua vez, tem-se demonstrado uma excelente aproximação em literalmente bilhões de experimentos e observações.

Vou tentar dar uma idéia do que se trata. Existe um teorema da geometria conhecido pelo nome de “identidades de Bianchi”. Esse teorema, quando combinado com a lei da conservação de energia (primeira lei da Termodinâmica) gera uma equação que constitui a pedra angular da Relatividade Geral.

Como qualquer equação que representa leis físicas, essa descreve uma infinidade de comportamentos possíveis (um para cada situação possível), chamados de soluções da equação. Basicamente, podemos “perguntar” à equação o que acontece em uma dada situação, e ela “responde” com uma de suas soluções. Ao aplicarmos essa equação ao Universo como um todo, podemos ver quais tipos de cosmologias são viáveis e quais tipos são inviáveis, em termos de compatibilidade com a equação.

Observando o Universo, e comparando os dados coletados com as diferentes famílias de soluções da equação da Relatividade Geral, há uma família que se destaca: uma em que o Universo está em expansão. O “problema” é que os membros dessa família têm outra coisa em comum: se o Universo for finito, ele foi extremamente pequeno no passado. Se for infinito, pelo menos a matéria esteve muito concentrada no passado, mesmo ocupando todo o espaço existente. Pode não parecer óbvio à primeira vista, mas matematicamente isso indica que o Universo teve uma origem.

A própria equação que gera essas soluções só é válida até muito próxima ao instante inicial, mas não pode tocar nele e dizer exatamente como o Universo foi criado.

Então, a resposta à sua pergunta, do ponto de vista físico, é: “Sim, o big bang é razoável, mas com uma ressalva quanto ao uso da palavra ‘teoria’, que é questionável nesse caso.”

Como relacionar tudo isso com a doutrina da Criação como exposta na Bíblia?

Primeiramente, é interessante notar que a Relatividade Geral é bem aceita entre criacionistas que têm algum conhecimento dessa área.

De acordo com a Bíblia, o Universo foi criado por Deus antes da semana de Gênesis 1. Uma das evidências encontra-se em Jó 38. Não é razoável, do ponto de vista bíblico, especular-se que o Universo teria sido criado na mesma semana de Gênesis 1. Quão mais velho é o Universo do que a Terra? Um ano? Mil anos? Um trilhão de anos? Pela Bíblia, somente, não sabemos e não podemos opinar.

Como Deus criou o Universo? A Bíblia não diz. Apenas comenta que foi pela Sua Palavra (por meio do Logos) que Ele ordenou e logo tudo apareceu. Isso significa que houve apenas uma fase da criação, que absolutamente tudo foi criado instantaneamente? Obviamente não. Isso seria incompatível até mesmo com Gênesis 1 sozinho, mesmo sem o auxílio de outras passagens. Significa que Deus criou o Universo já grande, plenamente expandido? De forma nenhuma.

Por outro lado, Cristo é chamado de Pai da Eternidade ou Pai Eterno (Isaías 9:6) . Comparando com outras afirmações bíblicas associadas, vemos indicações de Deus existindo além do espaço-tempo. Quando falamos em início do Universo, no contexto físico, estamos falando em início do espaço e do tempo, não só da matéria (até porque matéria e espaço-tempo são interdependentes). A passagem da não-existência do espaço-tempo para a existência dessa estrutura parece ter sua forma mais simples se essa origem ocorrer em algo parecido com uma singularidade (concentração que parece “infinita”), com posterior expansão. As leis físicas mostram que o Universo funciona de maneira otimizada (princípio de Hamilton). Teologicamente, isso significa que Deus sempre age da forma mais eficiente possível, adotando a solução mais simples para cada objetivo.

Então, do ponto de vista teológico, levando em conta Bíblia e as evidências físicas, o cenário do big bang é uma possibilidade mais do que razoável.

E quanto a galáxias “velhas” detectadas a mais de 11 bilhões de anos-luz?

Respondo com outra pergunta: O que isso tem a ver com o big bang? Intrinsecamente, nada. Indiretamente, isso afeta hipóteses sobre mecanismos de formação de galáxias que pretendem estar em harmonia com o cenário do big bang, porém, não lhe servem de fundamento.

Mas existem confusões ainda maiores: há quem chegue a misturar idéias sobre a origem da vida com a do big bang. Lamentável!

Outro detalhe: as estimativas sobre a idade do Universo são muito mais frágeis do que muitos pensam. Existem modelos com altíssima probabilidade de serem adequados, mas também existem modelos frágeis ou até bastante limitados em termos de consistência. Infelizmente, o público leigo dificilmente recebe informações para poder perceber a diferença.

O que você acha da teoria dos multiversos ou universos paralelos? Não seria uma tentativa de escapar à conclusão aparentemente lógica de que o Universo teve um começo?

Realmente, existem muitas tentativas de fugir de cenários nos quais o Universo teve uma origem. Quanto a idéias de multiversos, existem vários indícios no mundo físico que apontam para a existência de “universos paralelos”. Eles aparecem em vários contextos, na verdade. Alguns desses contextos são bastante atraentes para o estudioso da Bíblia.

Existem também os casos de mera especulação, sem qualquer apoio de evidências, aparentemente motivados somente pela aversão à idéia de o Universo ter tido um início, como é o caso do ponto de origem no big bang.

De que forma os universos paralelos podem ser atraentes para o estudioso da Bíblia?

Primeiramente, a Bíblia não se preocupa em explicar fenômenos físicos, embora ela ensine que devemos estudar o mundo físico até para entender melhor temas teológicos. A título de exemplo, notemos a discussão de Jó e seus amigos sobre a justiça de Deus e a forma como Deus aparece no capítulo 38, comentando que eles falavam sem conhecimento de causa, e que deveriam observar o mundo físico para aprender mais sobre o Criador. Voltando ao foco: a Bíblia concentra-se em informações de mais alto nível, do tipo, “Por que Deus permite o sofrimento, em que contexto maior isso se encaixa e qual a solução?”. Ela fornece detalhes históricos passados, presentes e futuros, indicando sua relevância no contexto geral e qual deve ser nosso papel nesses eventos. Isso, por si só, já deveria despertar a curiosidade para que se fizessem pesquisas científicas a respeito.

Apesar de o foco não ser esse, a Bíblia faz afirmações ousadas que possuem implicações físicas. Ela também menciona de passagem algumas coisas que as pessoas tendem a ignorar. Entre os conceitos bíblicos interessantes estão os “buracos de verme”, “wormholes”, “aberturas” no espaço-tempo permitindo, por exemplo, transpor rapidamente distâncias astronômicas sem violar o limite da velocidade da luz.

Outro conceito interessante é o de “regiões celestes”. Muitas pessoas, que crêem na Bíblia e acreditam em anjos e demônios, pensam nessas entidades como seres etéreos, feitos de “energia pura” (isso não existe, diga-se de passagem). Essas entidades seriam invisíveis e intangíveis, podendo atravessar paredes, por exemplo. Porém, observando com mais atenção os textos bíblicos, não bem é isso o que encontramos.

Para encurtar a história, o contexto geral sugere que este universo teria diferentes camadas capazes de comunicar-se entre si em condições adequadas. Essas camadas funcionariam como se fossem universos paralelos, mas na verdade seriam parte deste universo. Objetos e pessoas poderiam, em princípio, passar de uma camada para outra, mas não espontaneamente. Alguém com acesso a uma tecnologia para mover-se de uma camada para outra poderia entrar e sair de lugares “fechados” (pareceria ter atravessado paredes) e ficar invisível.

Podemos aplicar a primeira e a segunda leis da Termodinâmica para afirmar que o Universo teve que ter tido um início?

Podemos usar essas leis ao estudar as evidências. Conforme mencionei, um dos dois princípios que geram a equação que aponta para o início e expansão do Universo (big bang) é justamente a primeira lei da Termodinâmica. Esse cenário de Universo em expansão é extremamente favorável a que a segunda lei da Termodinâmica permita a existência de um Universo habitável.

É bastante estranho ver criacionistas combatendo essas idéias e às vezes até tentando propor modelos alternativos que acabariam implicando em um universo eterno.

Algumas reportagens sobre experimentos com o acelerador de partículas LHC afirmaram que se a tal “partícula de Deus” (bóson de Higgs) não for descoberta terão que reformular a física. Isso é verdade?

A imprensa tem feito um péssimo trabalho ao divulgar informações sobre esses assuntos. Suspeito que isso possa até ter sido estimulado por alguns físicos que queriam fazer propaganda de seu trabalho, mas as distorções que se observam são impressionantes: nenhum físico, por mais sensacionalista que seja, deve ter dito a maioria do que se alardeia por aí. Há muitos erros grosseiros. Falta revisão. Você já alertou seus leitores para as aberrações que aparecem em reportagens sobre a Bíblia, Cristo e assuntos correlatos em certos meios de comunicação, como a revista Veja, Superinteressante, IstoÉ, etc. O mesmo tipo de coisa que eles fazem com a Bíblia, fazem também com a ciência. Distorção total.

A própria expressão “partícula Deus” é totalmente descabida e desconectada de qualquer sentido.

Vamos contextualizar um pouco esse assunto: nós e tudo o que nos cerca, incluindo a própria luz, tudo isso é feito de partículas. Essas partículas são classificadas de acordo com suas propriedades. No primeiro nível de classificação, temos os bósons e os férmions. Fótons (partículas de luz) são exemplos de bósons. Existem vários outros exemplos conhecidos e estudados em laboratório. Bósons são partículas tais que várias podem ocupar o mesmo estado ao mesmo tempo (a idéia de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo não se aplica a bósons). Ou seja, bósons não obedecem ao princípio da exclusão de Pauli. Os férmions são as partículas que obedecem a este princípio. Exemplos: elétrons, prótons, nêutrons, quarks.

A partícula que muitos estão esperando encontrar no LHC é um bóson em particular chamado de bóson de Higgs. De acordo com um os modelos mas aceitos para classificar partículas e prever seu comportamento (especialmente no contexto do chamado Modelo Padrão da Física de Partículas), esse tipo de partícula seria responsável pelo fato de que as demais partículas têm massa.

Além disso, segundo algumas estimativas, essa partícula tem uma boa chance de ser detectada em experimentos envolvendo energias em uma faixa acessível ao LHC. E essa partícula, prevista teoricamente, é uma espécie de última peça do quebra-cabeça de uma área bastante importante. Por isso os físicos estão excitados.

Infelizmente, para justificar os investimentos, vários físicos adotam a postura de anunciar que essa ou aquela descoberta vai revolucionar completamente tudo o que se sabe sobre X ou Y. Isso é conversa para os órgãos financiadores, para a imprensa e para os pobres filósofos da ciência seguidores de Kuhn. As coisas nunca funcionaram assim e não vão começar a funcionar assim agora. Os modelos em questão já funcionam bem para seus propósitos e nada pode tirar isso deles.

Teoremas e teorias testados e funcionais não perdem validade. A teoria da Mecânica de Newton sempre permanecerá válida, pois foi devidamente testada. Isso não significa que os postulados newtonianos sejam verdades absolutas, mas significa que o modelo matemático correspondentes fornece resultados adequados em seu domínio de validade.

Novas teorias apenas ampliam as fronteiras, não podem invalidar as anteriores. Se você tem lido algo diferente disso, precisa reavaliar suas fontes sobre o funcionamento da ciência. Provavelmente essas fontes estão misturando ciência verdadeira com falsa e muito provavelmente confundindo filosofia da ciência com ciência. A última é confiável. Já a filosofia da ciência tem sido um poderoso instrumento de desinformação e, ainda assim, é a principal fonte de informação sobre ciência para não-cientistas.

Por outro lado, uma das coisas que mais entusiasma aos físicos em experimentos como os que serão feitos no LHC é justamente a possibilidade de encontrar coisas estranhas, além ou diferentemente do que foi previsto teoricamente. Por exemplo, o Universo pode ter mais do que três dimensões de espaço (não confundir com universos paralelos). Por que não vemos essas dimensões? Porque estariam compactificadas, como se nessas direções o universo estivesse enrolado com um diâmetro muito pequeno, não afetando nosso cotidiano. Existe isso? Quantas dimensões são? Que efeitos isso tem sobre as possibilidades de explorar o mundo físico? Essas dimensões extras podem afetar drasticamente os resultados de experimentos no LHC.

Por uma questão de romantismo ou propaganda, muitos físicos parecem gostar de pensar nesses eventos como surpresas que jogam por terra o que se pensava saber sobre Física, mas o fato é que essas “surpresas” geralmente são esperadas. Por exemplo, o caso das dimensões extras fazendo “desaparecer” alguns fenômenos esperados e fazendo “aparecer” outros foi previsto teoricamente (ex.: http://arxiv.org/abs/hep-ph/0605062v3). O que acontece é que esses experimentos servem para tirar dúvidas (ex.: quantas dimensões extras existem?), testar os limites das teorias atuais e obter informações para a elaboração de teorias com domínio de validade ainda maior.
Related Posts with Thumbnails