segunda-feira, março 02, 2009

O criacionismo no ano de Darwin

James Gibson é Ph.D em Biologia pela Universidade de Loma Linda e sempre esteve relacionado com pesquisa e ensino criacionistas. De 1967 a 1980, lecionou na Califórnia e em Serra Leoa, na África. Desde 1994, é o diretor do Geoscience Research Institute, instituto de pesquisas mantido nos Estados Unidos pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. É casado com Dorothy, com quem tem duas filhas: Deborah e Karina. Durante o 6º Encontro Nacional de Criacionistas realizado no Unasp, campus São Paulo (em janeiro de 2009), concedeu esta entrevista a Michelson Borges:

Desde quando existe o Geoscience Research Institute (GRI) e qual a missão dele?

O GRI foi estabelecido em 1958. Sua missão é estudar a relação entre a ciência e a Bíblia, orientar a igreja com respeito a esse relacionamento e dar assistência na evangelização especialmente dos secularizados.

Como o GRI é visto por outros centros de pesquisa e pelos darwinistas?

Não sei exatamente como o GRI é visto pelos evolucionistas, mas como somos criacionistas, possivelmente não sejamos bem vistos por eles. De fato, há quem diga que os criacionistas não são bons cientistas, mas, mesmo para esses, o GRI está entre os melhores centros de pesquisa criacionistas. Para manter essa boa imagem e melhorá-la, devemos continuar participando de pesquisas e publicando esses estudos.

Descreva brevemente o trabalho do GRI.

Trabalhamos em duas frentes: (1) fazemos pesquisas e (2) partilhamos essas descobertas por meio de publicações e palestras. Temos uma revista chamada Origins, que é publicada em inglês, português e francês [no Brasil ela é publicada pela Sociedade Criacionista Brasileira]. Nela, divulgamos os resultados de nossas pesquisas. Também participamos de seminários, conferências e “escolas de campo”, com pesquisas e palestras in loco. Além disso, temos recursos que podem ser encaminhados para professores que apresentam bons projetos de pesquisa. Alguns pesquisadores do GRI têm recebido artigos científicos para revisar, antes da publicação. Mas nesse tipo de trabalho os nomes não são divulgados.

O senhor participou dos seis encontros criacionistas do Brasil nestes últimos 20 anos. Como avalia a importância desses eventos?

A igreja no Brasil é grande e importante. Tem muitos membros preparados e um sistema educacional bastante forte, de forma que é importante que os professores dessa rede tenham bastante informação para não terem medo de discutir em classe as questões que dizem respeito à controvérsia entre o criacionismo e o evolucionismo.

Fiquei muito feliz com a pré-inauguração do Museu de Ciências Naturais Orlando Ritter e com os materiais disponibilizados em língua portuguesa pela Sociedade Criacionista Brasileira.

Em linhas gerais, quais as principais evidências da existência do Deus Criador?

Posso mencionar resumidamente três: (1) o ajuste fino do Universo, (2) a existência de estruturas irredutivelmente complexas nos seres vivos, que tinham que funcionar perfeitamente desde que foram criadas, ou não chegariam aos nossos dias, e (3) a informação complexa existente no material genético.

Podemos aceitar a seleção natural?

A seleção natural é uma boa explicação para pequenas variações nos seres vivos.

Isso é microevolução?

Prefiro usar a expressão “diversificação de baixo nível”. Algumas espécies isoladas podem variar e se tornar novas espécies; isso é aceito pelos criacionistas. Mas a seleção natural não explica como uma célula pode se tornar um organismo com várias células coordenadas. Também não explica como se pode ir da reprodução assexuada para a sexuada. Seleção natural pode explicar a variação, mas não explica como um novo órgão e um novo plano corporal podem surgir. Usando uma comparação, a seleção natural pode explicar como se regula um motor, mas não como se faz um motor.

E as mutações?

Mutação é perda de informação e não ganho. Além disso, mutações capazes de favorecer um ser vivo são bastante raras. Mutações que pudessem dar origem a novas informações demandariam mais tempo do que o estimado para a formação de todo o Universo.

Quais os maiores desafios para os pesquisadores criacionistas?

Destaco dois: como explicar o conjunto do registro fóssil e como explicar a datação radiométrica. No que diz respeito ao registro fóssil, há detalhes que exigem melhor explicação de nossa parte, como a organização dos fósseis de forma específica e ordenada nos estratos da coluna geológica.

O MEC não quer que o criacionismo seja ensinado nas escolas públicas. Qual a sua opinião sobre isso?

Nas escolas confessionais, é natural e esperado que se ensine o que a igreja que a mantém crê. Nas escolas públicas, é difícil ter uma abordagem equilibrada. Um dos extremos é dizer que não devemos ensinar nada sobre Deus, sobre design inteligente. A visão oposta é querer que se ensine uma visão religiosa particular. Parece-me que a visão mais equilibrada consiste em reconhecer que existe a possibilidade da ação sobrenatural na natureza. É possível que Deus tenha criado, mas em ciência não se leva isso em consideração. Assim, não se ensina uma visão religiosa, mas se reconhece que Deus existe. O Design Inteligente é uma abordagem que pode ser adotada nas escolas públicas, já que procura detectar evidências de planejamento na natureza, sem se preocupar necessariamente com quem a planejou. Proibir o ensino do Design Inteligente é tão tendencioso quanto proibir o ensino da religião.

Ultimamente, a mídia vem criticando muito o criacionismo. A que se deve esse preconceito?

Talvez porque a mídia teme o poder da religião. Preocupada com a liberdade de expressão, ela teme que as pessoas religiosas, ao chegar ao poder, possam ameaçar a liberdade de imprensa. Além disso, a religião costuma falar sobre comportamento, controle das paixões, e muitas pessoas não gostam disso; por isso, procuram afastar a visão religiosa.

O que os criacionistas podem fazer para melhorar o diálogo com os darwinistas?

É certo discutir que a teoria da evolução não é uma boa teoria, mas é incorreto dizer que a pessoa que crê nela seja má. Esse é um modo de fazer inimigos e não amigos. Outro problema é que muitas vezes os criacionistas fazem afirmações não precisas e usam maus argumentos. Temos que ser mais humildes, respeitosos e cuidadosos.

Às vezes, dá-se a impressão de que apenas o darwinismo é científico e de que o criacionismo é teológico ou filosófico. Isso é assim mesmo?

A atividade sobrenatural não faz parte da definição comum da ciência. Criacionismo envolve a participação do sobrenatural. Então, se você usa a definição comum da ciência, criacionismo não pode ser ciência. Infelizmente, nossa cultura tende a tornar equivalentes ciência e verdade. Ciência é uma palavra mágica. Precisamos cuidar com o significado das palavras e reconhecer que nossas ideias podem ser verdade, mas não necessariamente científicas. A crença de que toda verdade vem da ciência é chamada cientismo [ou cientificismo]. Muita gente é “crente” no cientismo. Quando alguém diz que determinada afirmação não é científica, quer dizer que ela não é verdade. Algumas vezes, deveríamos discutir certas coisas retirando a palavra “científico”. Isso forçaria as pessoas a procurar explicar melhor suas afirmações e crenças.

Embora discordemos do naturalismo filosófico, podemos nos valer do naturalismo metodológico.

Sem dúvida. Como criacionistas, podemos perfeitamente fazer trabalhos científicos, usando o método científico, sem apelar para o sobrenatural, embora sejamos capazes de enxergar como Deus Se relaciona com nossas descobertas.

Neste ano, comemoram-se os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies. Outros cientistas mais importantes como Newton e Einstein não recebem todo esse louvor. Por quê?

Creio que isso se deva principalmente à idéia de que Darwin libertou a humanidade das imposições e dogmas da igreja.

Por que a causa criacionista é tão importante para os adventistas?

Porque o criacionismo aponta para Deus em contraste com Darwin, que acabou tirando Deus do processo.

Recentemente o GRI estabeleceu uma filial no Brasil, no Unasp, campus Engenheiro Coelho. Por que essas iniciativas são importantes?

O GRI é importante porque ajuda a igreja a não esquecer Deus como Criador. Além disso, mostramos para os membros da igreja e para os estudantes que os crentes não precisam ter medo da ciência. A ciência não é nossa inimiga. A filosofia naturalista, sim.

Suas palavras finais.

Não devemos basear nossa fé na habilidade de provar as coisas. Devemos baseá-la no conhecimento da Bíblia, mesmo não tendo todas as respostas.

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