sexta-feira, dezembro 15, 2006

A influência dos meios de comunicação

Os meios de comunicação podem conduzir a atitudes e pensamentos contrários ao Evangelho
Até que ponto nossos pensamentos e hábitos podem ser influenciados pela mídia? É possível desenvolver um caráter cristão sob o intenso bombardeio de informações e conceitos secularizantes de nossos dias? Quem responde a essas e outras perguntas é o professor do Centro Universitário Adventista (Unasp), campus Engenheiro Coelho, Valdecir Simões Lima.

Valdecir é formado em Letras, Teologia e Línguas. Dá aulas de Comunicação e Línguas no Seminário Adventista de Teologia e nas faculdades de Educação e Letras do Unasp. Trabalhou por quatro anos como produtor editorial do programa de televisão Está Escrito. Na área de música, atuou como maestro de coral e compositor (dirigiu por seis anos o Coral Jovem do IAE/SP e tem participação, inclusive, em hinos do Hinário Adventista).

Por ocasião da 1ª Jornada de Comunicação da União Central Brasileira, onde foi um dos palestrantes, o professor Valdecir concedeu a seguinte entrevista a Michelson Borges:

Estamos na era das telecomunicações. Até que ponto podemos ser influenciados pela mídia? Ela altera comportamentos?

Mídia é a somatória dos meios de comunicação: rádio, TV, jornal, revista, outdoor, internet, propagandas em geral, etc. Ela é necessária a qualquer sociedade civilizada e não há como viver hoje sem estar envolvido com ela. A maneira como é utilizada, entretanto, nem sempre é de forma eticamente aceitável. Ela nos atinge passiva ou ativamente, positiva ou negativamente. E como vivemos em um mundo capitalista, que necessita de consumo para o crescimento e sobrevivência, a mídia é o veículo adequado para impulsionar o processo que tende a visualizar mais as coisas do que as pessoas.

Não é necessário você ligar algum aparelho para estar envolvido com a propaganda. Basta dirigir na cidade, que os outdoors estão lá de plantão, basta vestir um tênis que a marca está lá... e pior, há quatro anos, apontar o indicador para cima já era fazer, inconscientemente, propaganda de cerveja.

Na propaganda, o que há de mais importante é ser o primeiro a chegar à sua mente e fazer de você um cliente. E se o elemento em questão é a mente, o assunto é realmente sério. As pessoas que lidam com a mídia sabem que o ser humano tem desejos, ansiedades, sonhos, e que, se relacionarem seus produtos a essas necessidades materiais (e mesmo espirituais), conseguirão consumidores em potencial.

Exemplo: “Kolynos, o gosto da vitória!” Não há vitória em Kolynos; há uma associação de um bem espiritual (vitória) com um bem material (creme dental). O fato de que o creme dental previne as cáries não é relevante para as pessoas, portanto, não se vende prevenção, vendem-se ilusões de realização.

Assim, podemos ser influenciados pela mídia porque ela entra em nossa mente sem pedir licença. Basta você chegar em casa, ligar o televisor e já estará pagando um bom preço pelo que está vendo. Você é o pagamento; a sua atenção é o lucro dos anunciantes. E lembre-se: nada é de graça.

A propaganda privilegia o fracasso, a carência, a necessidade, porque sabe que uma pessoa realizada não necessita de consumo para se afirmar. O comportamento se molda a partir de impressões cristalizadas pelo tempo. Hábitos formados por sugestões da mídia podem facilmente alterar seus valores de forma inconsciente. Você não precisa decidir para que sua mente seja influenciada e aqui está a diferença entre a mídia e o Evangelho, que é também comunicação por excelência. Para aceitar um novo comportamento cristão, você precisa tomar decisões conscientes. A mídia não pede licença para entrar em sua vida. Jesus, sim. Aquele que pregou a liberdade, Aquele que é a Liberdade em Pessoa, diz: “Eis que estou à porta e bato, se você abrir...” Veja, “se você abrir”. Jesus não força; Ele quer alterar nosso comportamento também, mas com a nossa escolha, com a nossa decisão.

Os pontos no Ibope são o alvo dos meios de comunicação. Isso parece estar causando um rebaixamento da moral e dos bons costumes. Qual deve ser a postura do cristão diante disso?

Excetuando-se alguns poucos programas, ninguém faz TV por amor ao próximo (aliás parece que não se faz mais quase nada por amor ao próximo). A programação é parte de uma máquina que visa dinheiro, muito dinheiro. Quanto mais qualidade se aplica, maior o preço cobrado. Um filme pode custar 200 milhões, como no caso do Titanic, mas o retorno é certo (e que retorno!). As propagandas podem custar milhares de reais por segundo em horários nobres. E por que são tão caras? Simples, porque têm retorno. Portanto, se a opinião pública demonstra não apreciar certo produto, ele estará fora de circulação ou sofrerá significativas alterações (procedimento muito freqüente em novelas). A arte imita a vida que imita os cofres dos produtores.

Portanto, quando um produto não rende o esperado, ocorrem mudanças que, com toda certeza, não serão feitas com base no crescimento moral da população, mas nos índices do Ibope. E para isso vale tudo: sexo, violência, etc.

Há algum tempo, a Rede OM de televisão (hoje CNT) resolveu pôr um filme obsceno no ar. Várias sociedades protestaram: “Onde já se viu colocar pornografia na televisão!” A reação da Rede foi a mais previsível possível: “Estamos quase no século 21 e não há censura. Não gostam do filme? Vocês são livres, mudem de canal!” Por que é que a TV usa essa argumentação? Ironicamente, porque extraíram da Bíblia um conceito que, usado às avessas, conduz sua filosofia: “O bem que quero fazer, esse não faço; o mal que não quero fazer, esse faço.” Este texto do apóstolo Paulo mostra a angústia que o homem passa quanto às suas intenções e seus atos. A psicologia da TV, portanto, é a seguinte: “O bom filme que a sociedade gostaria de ver, esse ela não vê; mas o mau filme, a baixaria que ela gostaria de evitar, esse/essa ela vê. E se as pessoas assistem a esses programas, mesmo sem querer, dão-nos Ibope; e é isso o que nos interessa.”

Como os pais devem agir com os filhos em relação à TV? Censurar, simplesmente?

A concorrência é desleal. Pesquisas indicam que os pais gastam muito pouco tempo com os filhos por semana. Somos transformados ou moldados por aquilo que passamos mais tempo contemplando. O problema é que o televisor reveste a mensagem com uma beleza incomum. Acaricia nossas necessidades e nosso ego para obter cada vez mais atenção e aprovação; molda seus programas às nossas necessidades e carências. E com as crianças não é diferente. E o pior é que para elas o bombardeamento se apresenta em suas piores cores. Elas são um tremendo mercado hoje e mais ainda um mercado futuro em potencial.

É sabido que o comportamento não se altera pela verdade científica. As pessoas não são transformadas pela verdade da ciência, mas pela beleza. A verdade exige decisão, tomada de atitude consciente. Quando uma criança está na frente do televisor, ela não precisa exercitar o poder de decisão. As mensagens já vêm decididas. A beleza e graça das personagens que imitam a vida real são imbatíveis. É como a visita de um tio que dá presentes, beijinhos e sorvete, mas quem tem que punir os erros é o pai. A parte difícil da educação compete aos pais. Assim é com a TV: mostra só o “belo”, prende a atenção da garotada e os pais, que já dispõem de pouco tempo para a educação dos filhos, quando querem colocá-los no trilho, têm de apresentar a dolorida verdade. É óbvio que as crianças inconscientemente preferirão a Xuxa ou a Angélica, afinal, “elas não brigam com a gente”.

Lembre-se: a batalha é vencida por aquele que chega primeiro à mente. Quem está ocupando o primeiro lugar na mente de seus filhos? Não se assuste se, bem mais tarde na vida, eles não obedecerem aos seus reclamos, às suas ordens, por mais amor e devoção que possam conter. Se as crianças aprenderam a ser educadas por terceiros, agora pode ser tarde demais.

Há um conflito evidente entre o que os jovens ouvem nos cultos e os valores e costumes que lhes são transmitidos pela mídia. Como fica a mente deles diante disso?

Se cremos em tudo o que é dito na igreja e aceitamos as lições extraídas da Bíblia, mas vivemos de forma oposta àquilo com que concordamos, estaremos criando uma diferença muito grande entre a teoria e a prática. Viveremos em constante estado de desarmonia interior; e essa divisão gera sofrimento. Isso é bíblico: “O homem de coração dobre é inconstante em todos os seus caminhos.” Nossa vida parece estar segmentada em duas partes distintas: a espiritual, no sábado, e a material, que se inicia sábado à noite e vai até o pôr-do-sol de sexta.

Certa vez participei, junto com outros pastores, de um debate aberto com um grupo de mais de 150 jovens sobre temas atuais como sexo, drogas, casamentos inadequados, filmes, etc. Enquanto os jovens discutiam, nós, os líderes, apenas observávamos atentos para, em algum momento oportuno, acrescentar um “assim diz o Senhor”. Sabe o que aconteceu? Em nenhum momento tivemos de interferir. Todos os temas foram discutidos com muita informação e segurança; e as conclusões eram espiritualmente amadurecidas. Naquele dia cheguei a uma conclusão que mudou minha conduta como pregador e palestrante: não centralizarei mais meus temas sobre o que é certo ou errado; a maioria dos jovens sabe estabelecer essa diferença. A questão crucial é a seguinte: se sabemos o que é certo, por que fazemos o que é errado?

James Ashlemberg escreveu uma teoria chamada “Dissonância Cognitiva”. Essa teoria se divide em três partes: (1) você vive de acordo com o que crê, ou (2) você crê naquilo que vive. (3) Se você não viver de acordo com qualquer desses dois princípios, fatalmente perderá o equilíbrio mental.

Quem chega primeiro à nossa mente altera nossos hábitos. Quanto tempo dedico à leitura da Bíblia e à meditação? Se não dedico nada, meu testemunho será negativo, mesmo que eu não queira. Só minhas convicções não adiantam. Uma vez que minha vida é suscetível às influências a que me exponho, só posso testemunhar daquilo que acredito e vivo.

Um dos maiores inimigos da nossa época é a falta de tempo. Com tanta exposição ao bombardeamento da mídia, somos influenciados pelo consumismo e materialismo e nos tornamos vítimas da pressa. O que há de interessante por trás da pressa é que ela destrói nossos valores sem destruir nossas convicções. Ou seja, a pressa lhe traz estresse e ansiedade porque você tem que viver em constante estado de competição, busca e acúmulo para manter a normalidade da vida; e o resultado disso são desastrosas conseqüências físicas e mentais.

Assim, inconscientemente trocamos o senso de serviço pelo de sobrevivência e nossa mente tenta justificar essa troca. A Bíblia e a Igreja reforçam valores e um estilo de vida que parece não condizer com os tempos modernos. Por exemplo: andar a segunda milha, dar a outra face, orar sem cessar, parar para meditar, fazer escolhas conscientes, prestar um culto racional, não olhar para uma mulher com olhar impuro, amar os inimigos e o próximo como a nós mesmos, guardar o sábado, servir por amor, etc. Cremos em tudo isso. A pergunta é: vivemos isso? Sem dúvida, o Evangelho parece loucura aos olhos dos homens.

A mídia nos olha como consumidores, clientes, lucro em potencial. Até mesmo o tão atual processo de Qualidade Total tem limites. Segundo a Bíblia, temos que olhar o homem não como cliente, mas como nosso próximo. Investir nele, mesmo que isso custe nossa própria vida. Isso é amor e não uma estratégia de marketing.

Uma vez que há flagrante diferença entre aquilo que a sociedade secular nos propõe e o caminho cristão, ser jovem adventista é ser “rebelde”?

Em certo sentido, sim. Deus não muda; Seus princípios são eternos. Já a sociedade está em constante movimento, alterando suas normas de comportamento e, junto, está alterando também seus princípios morais. Aquilo que era errado, não é mais. Na sociedade, há sempre constante adaptação às necessidades de cada tempo, mesmo que para isso sejam sacrificadas algumas normas de conduta. “Como o homem veio dos animais,” – dizem – “a moral divina não importa.” A lei moral é uma “bela lenda”. E deve ser seguida com ressalvas, pois as necessidades dos tempos modernos nos abrigam a constantes adaptações. O problema é que a sociedade mudou tanto que obriga os seres humanos a se comportarem adaptando-se aos novos tempos. Temos que nos curvar aos apelos modernos para garantir a sobrevivência. Assim, adiamos muitas vezes nosso compromisso com os Céus, porque parece que seus apelos não se adaptam aos nossos dias. Curvamo-nos perante a sociedade que exige de nós obediência a Deus e solicitamos que Ele nos entenda, afinal, “estamos bem intencionados”. “Trabalhei demais nesta semana para garantir minha sobrevivência e a de meus filhos, portanto, neste sábado não irei à igreja. O motivo é justo e bom; Deus há de entender”, pensamos. Assim, curvamo-nos perante os apelos do mundo e nos esquecemos de nos curvar perante os apelos de Deus, achando que Ele, em Sua bondade, há de entender nossas “justas” necessidades. Mas Deus não aceita que O coloquemos em segundo plano. “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”, é o que Ele diz.

Deus nos criou à Sua imagem e parece que o homem quer criar Deus à sua imagem e semelhança. É a criatura querendo fazer Deus Se sujeitar às suas necessidades. Deus é bom, sim, e temos que seguir os Seus planos.

Os três jovens hebreus foram altamente rebeldes: “E fica sabendo, ó rei, que não nos curvaremos...” Paulo foi rebelde. Basta lembrarmos de onde suas cartas foram escritas: da prisão. Ele se rebelou por uma causa. Essa “rebeldia” é necessária hoje. Homens que não se comprem nem se vendam são por natureza rebeldes em relação às causas injustas.

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