quarta-feira, dezembro 31, 2008

Sonho missionário

Dioi Cruz nasceu em São Paulo, no dia 30 de maio de 1969. Sua base acadêmica foi construída em instituições adventistas: estudou Ciências Exatas e Biológicas no Iasp (Unasp, campus Hortolândia); iniciou Teologia no Unasp, campus São Paulo; continuou o curso (2º ano) na Universidad Adventista Del Plata, Argentina; e o concluiu no Helderberg College, África do Sul, tendo se formado em 1994. Chegou a estudar Sociologia na University of South África (curso inacabado) e atualmente faz mestrado em Liderança na Universidade de Santo Amaro (Unisa). Trabalhou como colportor na Espanha para conseguir uma bolsa a fim de estudar no Newbold College, Inglaterra. Sem sucesso, foi trabalhar na Itália e, finalmente, decidiu estudar no Helderberg College, que é uma extensão da Andrews University na África do Sul. Lá conheceu a esposa e “companheira de aventuras”, a argentina Silvia Zapata. Eles têm dois filhos: Giuliana, de 10 anos, e Guido, de 7.

O pastor Dioi iniciou seu ministério em 1995, tendo servido como pastor assistente na Igreja Central de Brasília, como distrital da Asa Norte e, em seguida, de Sobradinho, enquanto a esposa trabalhava na Divisão Sul-Americana. Em 1999, eles receberam um chamado para o Níger, na África, onde ele serviu como presidente da Missão e diretor da Adra. Dioi também foi presidente interino da Missão do Burkina Faso, presidente da Missão do Chade (para onde nem chegou a ir, devido às convulsões sociais) e, desde 2006, serve na Missão da Guiné Conakry, no oeste da África. Ele coordena as atividades da Missão, da Adra e de um distrito pastoral. Silvia trabalha como secretária e diretora de departamentos.

Em recente passagem pelo Brasil, concedeu esta entrevista a Michelson Borges:

Por que você decidiu se tornar missionário?

Servir a Deus em um contexto transcultural foi meu sonho de criança. Por meio dos cultos em família, das atividades na igreja e principalmente das emocionantes histórias de missionários, Deus estava me preparando para servi-Lo em alguns dos países mais difíceis da África. Ao ouvir aquelas lindas histórias antes de ir dormir, que faziam rir e chorar, eu era tocado pelo “ide” de Jesus e, com voz embargada, dizia aos meus pais que um dia seria missionário.

Meu pai era pastor, gostava de viajar e moramos em algumas regiões da rica e diversificada cultura brasileira. Essas experiências alimentavam meu sonho. Na adolescência, li de David Livinsgtone a Leo Halliwell e outros missionários que me inspiraram. Ao ler essas histórias, meu coração ardia de vontade de servir a Deus em algum lugar não alcançado, aprender novas línguas e desvendar a diversidade cultural de cada região. Assim, com sacrifício e perseverança, decidi estudar Teologia e Sociologia em diferentes lugares, descobrindo com empolgação como Deus conduz Seu povo em diferentes contextos culturais.

Como é o seu dia-a-dia?

Não é simples, especialmente na Guiné Conakry, onde vivemos há dois anos. Não temos eletricidade, nem água corrente, e é preciso encontrar soluções práticas. O gás de cozinha é caro e algumas vezes tivemos que usar o fogãozinho a brasa. A insegurança é constante, o governo é instável e sempre há greves violentas nas quais muitas pessoas morrem. Numa crise grave em 2007, recebemos autorização para ser evacuados, mas já não havia aviões. Sair por terra seria muito arriscado e tivemos que ficar um mês prisioneiros em nossa própria casa. Foi declarado estado de sítio e ninguém podia sair às ruas.

Diariamente enfrentamos muitos problemas práticos e é importante conhecer um pouco de enfermagem, nutrição, mecânica, informática, marcenaria, eletricidade, construção, etc. Em outras palavras, é preciso saber dar um “jeitinho”.

Além desse problema na Guiné Conakry, que outras situações difíceis você já enfrentou como missionário?

Quando chegamos ao Níger, há nove anos, ao sair do avião tínhamos a impressão de estar entrando em uma sauna seca. Deu vontade de dar meia-volta e ficar dentro do avião. Ao chegarmos à casa pastoral, parecia que tudo estava pegando fogo. O termômetro marcava 48 graus Celsius à sombra. O ar que respirávamos queimava e quando faltava eletricidade e não podíamos usar o ventilador ou o ar condicionado, tínhamos que dormir sobre uma toalha molhada tendo outra para nos cobrir, para refrescar um pouco.

Aprendemos a comer de maneira simples, tentando sempre balancear a alimentação com o que estava disponível. Muitas vezes, não podíamos encontrar uma única banana em Niamey, a capital, e tínhamos que esperar chegar da Costa do Marfim. Internet ainda era uma comodidade rara e nos sentíamos muito sozinhos. Apesar disso, o Senhor sempre nos confortou por meio de novos amigos, de irmãs e irmãos africanos que não mediram esforços para nos entender e nos aceitar.

No começo da Guerra no Iraque, o governo nos convidou para participar em uma comissão de entendimento entre as religiões reveladas, o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo. Várias autoridades do governo estavam presentes e a reunião foi realizada na Grande Mesquita em Niamey, onde estávamos todos sentados no chão, sem sapatos, segundo o costume. O líder da Associação Muçulmana Nacional começou a falar em Árabe e após quase duas horas de introdução, começamos a nos apresentar. O pastor local estava comigo e após as apresentações, todos nos olhavam de maneira diferente, até que alguém se levantou dizendo que não éramos dignos de estar ali porque éramos uma seita perigosa e que havíamos blasfemado no passado contra o Islamismo.

Olhei para meu colega Nigeriano e lhe perguntei cochichando se deveríamos nos defender de tamanha acusação. Ele me respondeu discretamente que não deveríamos falar nada, mas permanecer sentados e estáticos. Percebi que a situação era muito séria. Nossa única chance era que alguém se levantasse para nos defender. Depois de alguns minutos de silêncio, um líder muçulmano se levantou, nos defendeu e elogiou o trabalho que fazemos por meio das três escolas da Adra, dos programas de saúde e da distribuição de alimentos. A representante de uma associação de mulheres muçulmanas também elogiou o trabalho que a Igreja Adventista faz e a educação que seus próprios filhos receberam. Vários outros se levantaram e nos defenderam, entre eles um pastor batista que afirmou que não éramos uma seita e que seguimos os princípios bíblicos. Confesso que tive medo de ser lapidado e até morto, como sempre aconteceu nos conflitos entre cristãos e muçulmanos no país ao lado, a Nigéria. Ao sair, deixei com cada pessoa um livro da Associação Internacional de Liberdade Religiosa (Irla) e nunca mais tivemos problemas de preconceito com ninguém. Além disso, o governo nos concedeu uma autorização de atividades para períodos renováveis de cinco anos, em vez um ano.

Fale sobre a história do “vento do Espírito Santo”.

Por meio do ministério de apoio Gospel Outreach, decidimos implantar uma igreja em Maradi, a segunda maior cidade do Níger que não tinha nenhuma presença adventista. Fizemos uma reunião de planejamento e escolhemos os métodos que seriam usados. Começaríamos com o futebol, o Clube de Desbravadores e um curso de fabricação de sabão.

Assim, antes de cada aula de fabricação de sabão, o obreiro bíblico lia alguns textos do Alcorão e da Bíblia e dava algumas explicações antes de orar a Al-fatiah, uma linda oração muçulmana. Certo dia, vários homens barbudos, conhecidos por serem extremistas, vieram com o presidente de uma associação temida. Nosso obreiro evitou tocar em assunto religioso e quis começar a aula rapidamente porque temia ser agredido.

Um deles disse: “Queremos ouvir a pregação!” O obreiro, em oração e com mãos trêmulas, tomou o Alcorão com todo respeito para ler um texto, quando de repente um vento começou do nada e jogou todos os folhetos de lições bíblicas sobre as pessoas. Quando o obreiro já estava tentando sair discretamente pelas portas do fundo, as pessoas começaram a pedir insistentemente explicações do conteúdo dos folhetos. Temeroso, ele começou a explicar e se surpreendeu ao perceber que eles não tinham má intenção. Nos dois meses seguintes, aqueles barbudos assistiram todas as aulas de fabricação de sabão e aos estudos bíblicos. Formaram uma cooperativa de sabão e estavam muito felizes com tudo o que aprenderam sobre os cristãos adventistas.

Quando fui à cerimônia de entrega dos certificados de conclusão, percebi que a placa que havíamos feito para identificar o grupo adventista havia sido alterada. Não estava mais escrito “Eglise Adventiste du Septième Jour”. Alguém havia alterado para “Les Adventistes du Septième Jour”. O obreiro bíblico explicou-me que havia sido uma sugestão do presidente da associação extremista e que com essa mudança na placa todos estavam vindo às reuniões da Escola Sabatina e cultos sem preconceito algum. Quando perguntei ao presidente da associação por que estavam freqüentando o grupo adventista, ele respondeu: “Vocês são bons cristãos e pela primeira vez ouvi alguém nos falar de Issa (Jesus Cristo) como Messias usando o nosso próprio livro.”

Esse “vento do Espírito Santo” deu início a um lindo grupo de adventistas naquela cidade.

Você encontrou uma vila que tinha o sábado como dia de descanso. Fale sobre isso.

Uma história recente e emocionante foi a conversão em massa da população de uma aldeia dos Kissis chamada Powa, que fica na floresta próxima da fronteira com Serra Leoa, onde morreram muitas pessoas em guerrilhas violentas. Kissi quer dizer “salvador” ou “protetor”, porque no passado os melhores guerreiros eram Kissi. Um jovem Kissi chamado Michel saiu de sua aldeia para estudar em Gueckedou, a cidade mais próxima, onde através de um folheto bíblico conheceu a mensagem adventista e foi batizado. Voltou à Aldeia e depois de muita insistência convenceu os pais a irem à Escola Adventista de Gueckedou assistir aos cultos. Eles gostaram e persuadiram o chefe da aldeia que também decidiu estudar a Bíblia. Nessa região, tradicionalmente as pessoas não plantam nem colhem no sábado porque é o “dia do descanso da terra”. Apesar de serem todos animistas e feiticeiros, o chefe gostou muito do que aprendeu sobre o sábado e disse que ele seria batizado, mas que todo o povo da aldeia deveria também ser batizado. Quando estive lá, falei do amor de Jesus e do Seu poder para nos libertar das forças do maligno e de todas as feitiçarias.

Despedimo-nos ao som do coral das crianças cantando musicas feitas na hora sobre a pregação que haviam escutado. Marcamos o grande batismo para o mês de maio deste ano e foi uma festa! Graças a doações de irmãos da igreja no Brasil, a capela estava pronta para ser inaugurada. Considerando que os braços de nossa pregação são o Ministério da Saúde e da Educação, construímos um poço e iniciamos uma escola de alfabetização. Hoje, três aldeias próximas a Powa decidiram também aceitar Jesus Cristo como seu protetor e se preparam para um grande batismo de mais de 150 pessoas, quando será inaugurada a sua capela, o poço e a escola de alfabetização.

Como construir pontes e aproveitar aspectos culturais de cada povo a fim de levá-lo a Jesus?

Precisamos entender os princípios bíblicos mostrados na vida dos grandes missionários de Deus como Abraão, Paulo, João, Pedro e muitos outros. Todos esses homens e mulheres de Deus, devido às circunstâncias naturais ou segundo o plano de Deus, aprenderam a não ser rígidos e monoculturais. Eles foram eficientes em sua missão porque souberam honrar e amar as pessoas respeitando sua cultura, tradições, costumes e língua. Decidiram ser flexíveis, tolerantes e amáveis sem, contudo, desprezar as regras, normas e princípios eternos de Deus. O Espírito Santo outorga esses dons principalmente às pessoas que têm paixão pelo bem-estar do próximo e por sua salvação.

É possível alcançar esse equilíbrio quando imergimos na cultura onde atuamos e olhamos para as pessoas com os olhos de Jesus. Por isso, no maravilhoso plano da redenção, Cristo Se encarnou em nossa cultura pecadora, porém, sem cometer pecado, para que o Divino pudesse Se comunicar com o humano.

Até que ponto podemos ir nessa “abertura cultural” sem comprometer princípios?

Alguns argumentam que o pecado é relativo e que não existem absolutos morais porque as definições culturais do pecado mudam. Se não distinguirmos as normas bíblicas das normas de nossa cultura, não poderemos afirmar a natureza absoluta das definições dos princípios bíblicos. Como cristãos, pregamos que existem padrões de justiça dados por Deus sob os quais serão julgados os seres humanos de todas as culturas.

É necessário que façamos distinção entre as “coisas celestiais” e as “coisas terrenas”, e entre “graça salvadora” e “graça comum”. Em todo o Seu ministério, Cristo tentou nos mostrar a posição correta dessa linha divisória rompendo com algumas tradições e lembrando-nos dos princípios. Alguns cristãos confusos pretendem ser salvos pela “graça comum” e ignoram a “graça salvadora” ou transformadora de Cristo.

A linha divisória entre as tradições ou costumes temporais e os princípios eternos de Deus é, às vezes, erroneamente definida segundo a cultura em que vivemos e a nossa experiência pessoal com Deus. Nossos valores e costumes influenciam o entendimento da justiça e da misericórdia de Deus e a percepção do que Ele espera de nós e do que esperamos dEle. Existem cristãos que de maneira rígida “santificam” tradições e costumes e existem cristãos que de maneira profana depreciam as normas, regras e princípios eternos de Deus. Precisamos dar coerência a nossa fé seguindo nosso exemplo máximo, Jesus Cristo.

Pode dar algum exemplo prático disso?

Quando trabalhávamos no Níger, percebemos que a população não ocidentalizada não usa aliança de casamento. A mulher usa brincos que foram dados por seu marido como símbolo de fidelidade. Se uma mulher não usa brincos é porque é solteira, viúva ou divorciada. Que conselho dar às irmãs adventistas cujo marido ainda não é convertido e se sente ofendido se a esposa não usa os brincos do casamento? Com base no conselho bíblico, essas irmãs não deveriam abandonar os maridos não crentes, mas serem fieis e convertê-los (1Co 7:13). Sabendo que o uso de brincos nesse contexto não é um ato de vaidade, mas sim de fidelidade e respeito ao casamento, essas irmãs usaram brincos até que seus maridos se convertessem. E por respeito aos membros, essas irmãs retiravam os brincos ao irem à igreja.

O cristianismo “beatificou” muitos costumes pagãos como, por exemplo, o uso da aliança de casamento para ser um símbolo da fidelidade no casamento. Alguns desses costumes são aceitos pela maioria dos cristãos hoje. São tradições religiosas que devemos subjugar aos princípios bíblicos.

Sobre os cristãos que têm costumes não respaldados por princípios bíblicos, o missionário Paulo disse uma vez: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo e me regozijarei ainda” (Fp 1:18). Por que não anunciar Jesus sendo cristãos autênticos? Com certeza seríamos mais eficientes.

Como adventistas do sétimo dia, nossa posição se aproxima mais de Cristo como transformador da cultura, porque a nossa mensagem é peculiar para este momento histórico em que os valores na sociedade estão quase todos invertidos.

Como pregar especificamente para um muçulmano?

A melhor maneira de apresentar Jesus como Salvador a um muçulmano é por meio da maneira como vivemos. O maior desejo do muçulmano sincero é saber que Deus o ama e pode perdoá-lo, mas antes precisa ver isso em nossa vida. Ao observá-lo para ver se você é um crente fiel, ele vai primeiro analisar se os que estão mais próximos de você são também fiéis. Por isso, antes de começar a trabalhar com um muçulmano, é muito importante que sua família e amigos amem ao Senhor e vivam em harmonia com a vontade dEle. O estilo “faça o que Deus diz, mas não siga o meu exemplo” não funciona. Precisamos falar numa linguagem adaptada. Isso inclui histórias, tradições e poemas que apresentem a verdade dentro da cultura islâmica. É muito importante conhecer o Alcorão e as tradições muçulmanas.

O que envolve o preparo para ser missionário? Que aptidões são úteis?

Ter muito tato e nenhum olfato! Se você não gosta de ovelhas, não seja pastor. É preciso gostar de gente e não ser preconceituoso. Conseguir ver o valor infinito que cada pessoa tem para Deus. Estar disposto a sofrer. Ter hábitos saudáveis que promovam a saúde física e emocional. Respeitar as tradições locais. Gostar de aprender novas línguas e costumes. Muita oração. E, sobretudo, buscar inspiração na vida de Cristo e na dos grandes missionários apostólicos e contemporâneos.

O que deve fazer quem deseja ser missionário?

Deve colocar o projeto nas mãos de Deus, entregar o currículo ao secretário da Associação ou União e aguardar a oportunidade. Existem muitos lugares onde atuar como missionário. Para começar, é importante estar envolvido em todas as atividades da igreja local, ler sobre a vida dos grandes missionários, sonhar alto e aprender o inglês, se desejar servir fora do Brasil. O site https://interdivisionservices.gc.adventist.org oferece várias oportunidades, como também o programa de Missionários Voluntários http://www.adventistvolunteers.org, coordenado pela Marly Timm (marly.timm@dsa.org.br) da Divisão Sul-Americana.

Quais as vantagens dos missionários brasileiros?

Vivemos no país dos mamelucos, mulatos e cafuzos. Nossa cultura é rica, abrangente e qualquer estrangeiro se sente bem aqui. No Brasil, existe a maior comunidade japonesa fora do Japão, vivem mais libaneses aqui do que no Líbano. Em toda a África, apenas na Nigéria a população negra é maior do que a do Brasil. Existem outros países que são mais multiculturais e multilingüísticos que o Brasil, mas não se vê tanta miscigenação racial. Por mais marginalizado que seja, o estrangeiro é recebido com carinho pelos brasileiros.

Essa tolerância cultural nos ajuda a sofrer menos com o choque cultural ao ir para o exterior. E caso haja algum problema de desentendimento, é só falar do Pelé, dos Ronaldinhos, de Samba e Bossa Nova, que todas as barreiras desaparecem.


Batismo no rio Niger

quinta-feira, novembro 27, 2008

Aventura sobre duas rodas

Manoel de Carvalho tem 46 anos, é ex-professor e há 17 anos atua como técnico gráfico na Editora do Colégio Objetivo. Casado com a Nora e pai da Carol e do Artur, é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia de São Miguel Paulista, onde foi ancião e tesoureiro, entre outros cargos. Além disso, é líder de jovens e de desbravadores. Nesta entrevista, ele conta um pouco de suas aventuras motociclísticas que renderam a publicação de um livro intitulado A América do Sul Sobre Duas Rodas.

Em suas palestras você costuma dizer que é importante ter um sonho.

Certamente, uma das coisas mais importantes da vida é ter um sonho. Você e eu não devemos viver sem ter sonhos. Ou a gente vive o sonho ou vive um dia após o outro sem sair da zona de conforto. Acredito que o que você faz normalmente é resultado do que você na verdade crê.

E qual é o seu sonho para curto prazo?

Entrar para o Guinness Book [Livro dos Recordes], ao fazer a travessia pan-americana do Alasca à Patagônia, numa moto 125cc. Como se trata de uma aventura muito cara, resolvi fazer algumas aventuras pela América do Sul. Foram três viagens que perfizeram 51.000 km. Cada viagem foi feita em um período de férias. Assim, ganhei alguma experiência, o que, ao meu ver, facilitaria o aparecimento de um patrocinador. Na verdade, descobri que conseguir um patrocínio no Brasil é como ganhar na loteria. Mesmo depois de dar entrevistas nas rádios mais ouvidas de São Paulo, de ser entrevistado por revistas especializadas em motociclismo, pelo Jornal da Tarde e outros jornais regionais, o patrocínio ainda não chegou.

Fale sobre as dificuldades enfrentadas em suas viagens.

Foram muitas. Por isso costumo dizer que para se aventurar como fiz é preciso um preparo especial antes de cair na estrada. Estar preparado física e psicologicamente é primordial, sem contar o dinheiro no bolso, coisa que eu menos tinha. Justo pela falta de dinheiro, enfrentei muitas privações. A primeira dificuldade foi o frio na região de Entre Rios, Argentina, quando a temperatura chegou a 2 graus. Frio, né? Mas acrescente a isso a velocidade da moto, o vento e a garoa que caía no início daquela noite. Esse conjunto gerou uma sensação térmica de 14 graus negativos. No terceiro dia na Argentina, surgiu um problema sério: na cidade de Rio Cuarto, numa parada para trocar a corrente e o pneu traseiro, o meu cartão de crédito não funcionou. O dono da loja fez de tudo, mas não teve jeito: o pagamento foi feito em dólar. Saí de casa com 380 dólares e o cartão de crédito. Para complicar ainda mais, perdi todos os meus pesos argentinos. Mais uma vez usei dólares. No fim desse terceiro dia na Argentina, às 23h, ao chegar na pequena Uspallata, no meio da Cordilheira dos Andes, percebi que perdera pouco mais de 30 dólares. Que dia!

Depois de ir dormir quase uma hora da manhã, acordei às 7h30. Afinal de contas, a neve estava ali do lado. Agora era só andar pouco mais de uma hora e já estaria em terras chilenas. Demorei mais de três horas, pois a beleza dos picos nevados me fez parar várias vezes, sem contar a velocidade da moto que cai bastante devido à altitude. Antes de entrar no Túnel Cristo Redentor, que separa Chile e Argentina, tive que conversar bastante com um policial argentino que alegou que faltava um documento da moto.

A decida da cordilheira é uma coisa incrível: são 42 curvas simétricas. Às 16h daquela sexta-feira, cheguei a Santiago. Procurei a igreja adventista central de Santiago. Passei a noite na casa do pastor brasileiro Josias Machado. Ele passara a semana fora e seu bebê estava adoentado. Escola Sabatina e culto foram feitos na casa do pastor. O pastor Josias disse para eu não me preocupar porque o cartão iria funcionar. Assim que pudemos, fomos ao “cacheiro” (caixa eletrônico). E não é que o cartão funcionou! O pastor fez a operação e sacou quase 400 dólares. E me disse: “Agora você pode continuar sua viagem.”

Ficou combinado que eu passaria a noite na Escola Adventista de La Serena, uma bela cidade à beira-mar. Antes, passei em Viña del Mar e isso me atrasou. Ao anoitecer, La Serena ainda estava a mais de 100 km. Acabei entrando no deserto à noite. No Atacama, ninguém anda de moto à noite. Passei mais frio do que na Argentina. Quase morri de hipotermia.

Em Antofagasta, almocei na casa da família do pastor Osmar Scherch. Eles também são brasileiros. Foi bom comer uma comidinha caseira. Perto de Arica, na Costa Cinza, a gasolina entrou na reserva, em pleno deserto.

Você também quase sofreu um acidente nessa viagem. Como foi?

Pilotar uma moto em média 15 horas por dia não é brincadeira. Assim, faço alguns exercícios sobre a moto para aliviar as dores. Uso uma almofada presa ao banco para não ferir as nádegas. Naquele trecho, ao deitar-me sobre a moto, a almofada soltou-se e caiu do lado esquerdo entre a corrente e a roda, quebrando a corrente. Foi um tranco violento. A máquina fotográfica que estava sob minha jaqueta foi parar longe. Ao mesmo tempo em que comecei a arrumar a moto, um motorista parou e ofereceu ajuda. Uma hora depois, cheguei em Arica. Aquele homem foi como um anjo enviado por Deus.

Os problemas não acabaram ali, não é mesmo?

Não. Depois de La Joya, no Deserto de Shilca, Peru, estava a última saída para voltar ao Brasil via Arequipa, Puno e depois Bolívia. Pensei em voltar, pois achei que o dinheiro não daria para chegar à Venezuela. Na verdade, só pensei. Segui para Lima. Nessa hora, fiquei sem meus óculos. O parafuso da armação se soltou e as lentes caíram. Como pilotar sem óculos, visto que tenho só 50% da visão. Pedi para que Deus suprisse a falta dos meus óculos.

Ao entrar na pequena Guadalupe, norte do Peru, pisei no freio e ele não respondeu. Parei a moto e vi que o pino da roda traseira estava solto. A porca havia caído. Foi por um triz. O meu anjo segurou aquele pino e a estrada boa ajudou também (a moto vibra menos). Imagine se o pino tivesse saído? Teria acabado tudo ali mesmo, depois de ter rodado mais de 9.000 km. Arrumar uma porca em Guadalupe não foi fácil.

Subindo a Cordilheira Central, pouco antes de Bogotá, fui ultrapassar uma carreta bitrem. Nisso, desceu um caminhão na contramão. A moto não passava dos 30 km/h por causa da grande altitude. Vi que ele ia bater de frente. Num segundo, pensei: “Ai, meu Deus, agora que rodei 11.000 km, vou morrer aqui tão longe de casa. Não me deixe morrer aqui, por favor!” Foi quando o motorista do caminhão freou e o veículo derrapou na pista. Consegui passar entre a lateral do caminhão e a cabine da carreta. Mais uma vez meu anjo me ajudou.

Perto de El Tigre, Venezuela, a moto apresentou desgaste na corrente. Eu tinha pela frente a Serra do Lema. Como subir os 32 quilômetros dessa serra com a corrente ruim? Seria impossível. Eu precisava subir antes de escurecer. Cheguei ao pé da serra junto com o pôr-do-sol. Entrei na serra. Subi 6 km e a corrente soltou. Arrumei, andei uns 5 metros, soltou pela segunda vez. Parei, arrumei, andei mais 2 km e ela soltou pela terceira vez, e desta vez soltou no pinhão e coroa. Eu já estava todo sujo de graxa. Coloquei a corrente no lugar, andei mais 1,5 km e soltou pela quarta vez. Atente para uma coisa: quando se esgotam nossos recursos, temos apenas um, nosso Deus. Ajoelhei-me ao lado da moto, no meio daquela floresta, e disse ao meu Deus: “Senhor Deus, não há ninguém aqui além de mim. Apenas eu, a moto, a escuridão da noite e o Senhor. Ttira-me daqui, em nome de Jesus. Amém.” Subi na moto e ela andou mais 530 km sem dar sinal de desgaste na corrente. Deus atendeu minha “discagem direta a Deus (DDD)”.

E no Brasil, como foi a aventura?

Depois de chegar a Manaus, peguei um barco para Santarém. De lá, encarei a Cuiabá-Santarém. Foram 890 km de todo tipo de terreno. Perto de Rurópolis, há um trecho de asfalto, onde entrei às 19h. Quando menos esperava, a estrada acabou. Estava muito escuro! Quando me dei conta, a moto já estava suspensa no ar. Voei 5,5 m e cai num lugar meio fofo. Lá estava eu na beira de um igarapé. Nesse segundo em que a moto voou, passou um “filme” de toda minha vida. Achei que tudo ia acabar ali mesmo. Entretanto, mais uma vez, meu anjo me segurou pela mão, ou melhor, pelo guidão da moto. Agradeci mais uma vez a proteção divina.

Agora, ao fazer a Expedição os Quatro Extremos do Brasil, eu sabia que ia ser mais difícil do que o Contorno da América do Sul, pois as estradas são terríveis na região Norte – isso quando existe alguma estrada.

Minha primeira grande dificuldade foi uma chuva torrencial antes de chegar a Rio Branco, capital do Acre. Foram momentos tenebrosos, sem ter um lugar para me abrigar naquela noite. No outro dia, enfrentei uma estrada enlameada que mais parecia sabão. Pensei que não conseguiria chegar a Feijó. As estradas nessa região ficam fechadas na época da chuva. Foi um verdadeiro rali.

Ao andar de Porto Velho a Manaus, fui obrigado a encarar a BR 319, estrada abandonada há muitos anos. Foram mais de 500 km sem gasolina, sem telefone, sem civilização. Imagine se a moto quebra num lugar desse ou se acontece um acidente? Depois, fiquei dois dias com os índios na Reserva Raposa Serra do Sol, onde está o Monte Caburaí, o ponto mais ao norte do Brasil.

Ao partir para o terceiro extremo, Ponta do Seixas, resolvi ir pelo Sertão do Cariri. Desisti de um compromisso com o pastor Wiliam (“Chumbinho”) em Fortaleza. Foi a pior viagem, pois em Patos, na Paraíba, tive todos os documentos e dinheiro roubados. Imagine você a 3.000 km de casa, sem nada no bolso. Não dá para contar todos os detalhes, mas foi um dia traumático.

Mas a situação piorou, né?

E como! No dia seguinte, apareceram os primeiros sintomas da malária. Quase morri. Levei quatro dias e meio para chegar a São Paulo. Perto de Vitória da Conquista, ao perceber que a morte me rondava, resolvi pegar carona com um caminhão. Foram quatro dias e meio até chegar à minha casa. Só não morri porque Deus não permitiu e porque eu carregava na bagagem vários remédios. A malária faz a febre chegar aos 42 graus, o que pode causar convulsão e levar o paciente à morte.

E o aspecto missionário da viagem?

Levei muitos daquele livreto Ele é a Saída, da Casa Publicadora Brasileira. Onde eu passava, deixava um exemplar. Nos outros países, deixei um panfleto que peguei na igreja adventista central de Santiago. Até hoje mantenho contato com pessoas de outros países e do Brasil, e, sempre que posso, mando algum material evangelístico para eles.

A vida pode ser uma aventura, em todos os aspectos.

(Para adquirir o livro A América do Sul Sobre Duas Rodas ligue para [11] 3289-7522, 7102-2141 ou envie um e-mail para nora.manoel@terra.com.br)

segunda-feira, outubro 27, 2008

Experiência missionária em Ruanda

Simone Carvalho de Azevedo nasceu no dia 5 de janeiro de 1983, no Rio de Janeiro. Formada em Relações Internacionais, trabalha como analista de projetos de cooperação internacional do British Council (BC), organização internacional do Reino Unido para oportunidades educacionais e relações culturais. O BC está ligado à Embaixada Britânica, responsável por programas de cooperação entre o Reino Unido e o Brasil e busca estabelecer troca de experiências e fortalecer laços que resultem em benefícios mútuos entre o Reino Unido e os países onde está presente, atuando em educação, língua inglesa, ciências, arte, governança e direitos humanos. O BC está presente em 222 cidades e 109 países. Seus principais parceiros incluem governos, organizações não-governamentais e instituições privadas.

Simone trabalhou na equipe de planejamento, implementação, monitoramento e avaliação de projetos de educação, governança/direitos humanos e mudanças climáticas. Relaciona-se principalmente com o MEC, MCT, Unesco, Consed, União Européia e embaixadas européias em Brasília.

Simone fala fluentemente inglês, francês, espanhol, italiano, além do português; e entende “um pouco” de romeno, swahili e kinyaruanda. Ela teve algumas experiências missionárias marcantes, sobre as quais fala um pouco nesta entrevista concedida a Michelson Borges:

Como surgiu a idéia de ser missionária?

Desde pequena, tive vontade de ser missionária. As histórias que ouvia de missionários brasileiros e estrangeiros me encantavam e emocionavam. Enquanto cursava Relações Internacionais, o desejo se intensificou e decidi que iria para a África de qualquer maneira, logo após minha formatura.

Algum tempo antes tinha conversado sobre meu desejo com o Pr. Daniel dos Santos, então diretor da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra) do Estado de São Paulo (União Central Brasileira). Ele estava prestes a se mudar para Ruanda, África, onde seria diretor da Adra. Assim, no fim do último ano da faculdade entrei em contato com ele novamente e com outros diretores da Adra em países africanos. Orei bastante a Deus e decidi que eu iria para o primeiro país que me desse uma resposta positiva. Foram três meses de ansiedade, espera e oração. Por fim, a Adra Ruanda formalizou o convite para eu trabalhar como voluntária/missionária em Relações Públicas, e eu prontamente aceitei.

Em que países você já estudou ou trabalhou e o que fez lá?

Logo que ingressei no curso superior de Relações Internacionais, tomei a decisão de que aprenderia quatro idiomas (um em cada ano) e seria poliglota. Foi um sonho que brotou em 2001 e se concretizou em 2004, com o apoio da minha família e de Deus. Eu sabia um pouco de inglês e nada mais. Assim, fiz uma espécie de plano/roteiro com meu pai e fui à luta! Cada período de férias estudava um idioma ou o reforçava, sempre em países diferentes. Durante o ano, fazia aulas particulares com professores nativos da língua, para mantê-la e aperfeiçoá-la. Foram muitas horas de estudo e muitas pesquisas de passagens aéreas, lugares para estudar, cursos, etc. Sempre priorizei estar com famílias ou instituições adventistas.
Em quatro anos pude estudar espanhol na Universidade Adventista de Cochabamba (Bolívia); francês na casa de uma família adventista da Guiana Francesa e no Colégio Adventista de Collonges (França); inglês nos Estados Unidos e no Helderberg College (Africa do Sul) e italiano no Instituto Adventista de Villa Aurora (Itália).

Em 2005 trabalhei em Ruanda como coordenadora de Relações Públicas da Adra. No ano seguinte, tive a oportunidade de trabalhar na Bélgica como trainee da Comissão Européia, no Departamento de Cooperação Internacional. Foi um grande privilégio para mim, pois cada semestre a União Européia seleciona em média 700 trainees, dos quais a grande maioria é européia, e convocam somente, no máximo, dois brasileiros. O ano de 2006 foi muito interessante, pois vivi e trabalhei justamente no país que colonizou Ruanda, ou seja, a Bélgica. Como meus colegas de trabalho e amigos não eram cristãos, pude testemunhar sobre minha fé.

Além de Ruanda e Bélgica, tive a oportunidade de ser missionária em Taiwan, Ásia, no fim de 2007. Participei ali da 2ª Conferência Mundial de Jovens e Serviço Comunitário, representando os jovens da América do Sul. Na primeira semana participamos de projetos comunitários ao redor do país. Estive no Colégio Adventista de Taiwan, com um grupo de norte-americanos, ensinando Inglês. Apesar de ser uma escola adventista, a maioria dos alunos era budista. Por isso, muitas sementes foram plantadas naqueles dias. Na semana seguinte, 2.500 jovens se reuniram na capital, Taipei, onde participamos da conferência. Auxiliei os pastores jovens de nossa Divisão Sul-Americana com interpretação do inglês para o português, colhi depoimentos, fotografei os melhores momentos e me envolvi na programação.

Fale um pouco sobre Ruanda e o genocídio.

Ruanda é um país localizado no interior da África. Faz fronteira ao norte com Uganda, ao sul e a leste com Tanzânia e a oeste com a República Democrática do Congo. A fronteira com a República Democrática do Congo está estabelecida em grande parte pelo lago Kivu. A elevada altitude de Ruanda torna o clima temperado. É um país muito acidentado, com muitas montanhas e vales, pelos quais é conhecido como o “país das mil colinas”. Abriga parte dos “gorilas de montanha”, que estão em extinção.

Ruanda tem aproximadamente 8 milhões de habitantes. Sua capital é Kigali e a principal religião é o catolicismo. Menos de 10% da população é adventista e atualmente há pouco menos de 2 mil igrejas adventistas no país.

As exportações de Ruanda se resumem em café e chá. Trata-se é um país rural com aproximadamente 90% da população trabalhando na agricultura. É o país mais densamente povoado da África, tem poucos recursos naturais e um setor industrial extremamente pequeno. Existem três idiomas oficiais: inglês, francês e kinyaruanda (idioma nacional e também o mais falado).

Em 1994 as tropas hutus, chamadas Interahamwe, acentuaram seus treinamentos e foram mais equipadas pelo exército ruandês com o objetivo de confrontar os tutsis. Em 6 de abril de 1994, Juvénal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, o presidente do Burundi, foram assassinados quando o avião em que estavam foi atingido enquanto aterrissava em Kigali. Durante os três meses seguintes, os militares e as tropas hutus mataram cerca de um milhão de tutsis e hutus oposicionistas, naquilo que ficou conhecido como o Genocídio de Ruanda.

Um dos grandes motivadores do massacre que houve em Ruanda foi a Radio Télévision Libre de Mille Collines (RTLM), dirigida pelas facções hutus mais extremas. As mensagens da rádio focavam nas diferenças que separavam ambos os grupos étnicos e, à medida que o conflito avançava, os apelos à confrontação e à “caça dos tutsi” tornaram-se mais explícitos.

Quase cada uma das mulheres que sobreviveram ao genocídio foi estuprada. Muitas contraíram HIV/aids e ainda engravidaram. Hoje o país tem um grande número de órfãos e pessoas com aids. Apesar do ódio e rancor que existe ainda entre as tribos e famílias, o país, a Igreja e a Adra têm somado esforços para promover a união e reconciliação do povo ruandês. Por isso, viver e trabalhar em Ruanda foi um grande desafio, por ser um país que ainda está completamente mergulhado em tristezas e traumas.

Descreva brevemente os projetos da Adra lá.

Como coordenadora de Relações Públicas da Adra, eu era responsável por fazer o contato com a mídia impressa e eletrônica e apresentar os projetos de desenvolvimento da Adra a instituições governamentais, ONGs, agências da ONU e embaixadas. Pude também desenvolver newsletters, criar conteúdo para o novo website e auxiliar na elaboração de dois projetos de desenvolvimento social.

Como parte do meu trabalho consistia em colher depoimentos, fazer entrevistas e tirar fotografias, tive a oportunidade de ouvir muitas histórias interessantes e emocionantes e estar em contato com todos os projetos da Adra.

Em 2005 a Adra trabalhava com programas de Educação e Formação, Saúde Sexual Reprodutiva, Desenvolvimento Econômico, Direitos Humanos e Segurança Alimentar. Tínhamos um projeto de alfabetização e educação de adultos; apadrinhamento de crianças; produção agrícola (arroz); distribuição de alimentos para pessoas carentes que tinham HIV/aids; treinamento e capacitação nas áreas de saúde, segurança alimentar e microcréditos; treinamento para jovens sobre saúde sexual e o programa integrado de terapia da aventura.

De qual desses projetos você mais gostou de participar e por quê?

O que mais me chamou a atenção foi o projeto de alfabetização de adultos, pois combinava teoria e prática de uma forma muito interessante. A maioria das aulas era ministrada ao ar livre, ou seja, embaixo de árvores. Por meio desse projeto, a Adra treinava instrutores, que eram pessoas que tinham terminado seus estudos (uma raridade), e esses ensinavam outros a ler e escrever. Os livros-texto traziam ilustrações do cotidiano ruandês e lições práticas relacionadas a sua cultura. Além disso, os alunos tinham a oportunidade de aprender atividades úteis, como fazer vaselina, sabão, cultivar horta, cuidar da água, entre outras.

Nos fins de semana, me envolvia bastante com atividades nas igrejas francófonas, anglófonas ou as que falavam somente kinyaruanda. Gostava de interagir com as pessoas, fazer novos amigos e ajudar principalmente na área musical. Tocava flauta transversal e piano nos cultos, cantava e auxiliava na Escola Sabatina das crianças (elas ficavam praticamente todas juntas em uma mesma sala). A Dra. Claudia Araújo, médica missionária brasileira, e eu cantávamos juntas e formamos um coral infanto-juvenil. Gostava também de cantar, tocar e contar histórias em orfanatos, prisões e em eventos da igreja.

Que tipos de privações você sofreu como missionária?

Minha maior privação foi a saudade da família e dos amigos. Apesar de fazer novos amigos lá, sentia falta das pessoas queridas que estavam longe. Muitas vezes me senti compadecida, tocada e emocionada ao ouvir as histórias e experiências tristes pelas quais os ruandeses passaram durante e após a guerra.

Lembro também de uma viagem de ônibus que fiz nas férias pelo Quênia, Uganda e Tanzânia. Foram longas horas de viagem sem ver nenhum banheiro. Não havia postos de gasolina ou “paradas” na estrada, então a único jeito era achar num lugarzinho no meio do mato!

Conte a história que mais a marcou.

Em uma de minhas visitas ao projeto de alfabetização de adultos no norte de Ruanda, tive a oportunidade de conhecer o Sr. Epinaque. Ele tinha 51 anos na época, era cheio de energia e simpatia. Apesar de ter poucos dentes, esbanjava um sorriso contagiante. Logo que entrei em sua casinha de barro, o Sr. Epinaque me chamou para mostrar o seu certificado de conclusão do curso da Adra de instrutor do programa de alfabetização de adultos. Com muito orgulho, ele me contou de sua alegria em ter aprendido um pouco de inglês naquele período e de como sua vida havia mudado.

Antes do curso, ele bebia muito. A esposa o deixou e levou consigo seus filhos. Após o envolvimento com o projeto da Adra, ele decidiu parar de beber, ganhou uma ocupação, melhorou a auto-estima e até se casou novamente. A Sra. Patrícia, sua nova esposa, estava ao lado dele naquele dia e não conseguia parar de sorrir, de tanta felicidade. Para mim, essa história foi mais um exemplo de como a Adra faz a diferença na vida das pessoas, uma de cada vez.

O que motiva alguém a ser missionário em outro país?

Senso de missão, vontade de servir, conhecer outras culturas, ajudar o próximo. No meu caso, além de tudo isso, crescimento espiritual e profissional também foram fatores marcantes.

Que lições você aprendeu e como passou a ver a vida depois dessa experiência?

Aprendi a ser mais paciente, simples, bondosa, humilde e respeitar e amar o outro. Como já mencionei, logo após Ruanda, fui trabalhar justamente na Bélgica, o país que colonizou Ruanda. Para mim, foram dois extremos – o colonizador e o colonizado, terceiro e primeiro mundos –, porém, cada um me ensinou uma lição de vida.

Que tipo de preparo se deve ter para ser missionário em outro país?

Muita oração, comunhão com Deus, empatia e desapego dos bens materiais. É muito importante também estar pronto para aprender coisas novas, interagir com pessoas diferentes sem preconceito e fazer leituras prévias sobre o país e a cultura.

O brasileiro leva alguma vantagem como missionário?

Sim, nosso “jeitinho brasileiro” abre muitas portas e encanta as pessoas. A facilidade de comunicação e a alegria que nós temos considero também pontos muito fortes.

Caso algum leitor sinta o desejo de ser missionário, o que ele/ela deve fazer e a quem deve contatar?

Em primeiro lugar, é importante sentir o chamado de Deus e o verdadeiro desejo de servir. Se você deseja trabalhar em um país que não seja de fala portuguesa, é imprescindível o domínio de um idioma estrangeiro (inglês ou francês, dependendo do lugar). Sempre indico escolas e universidades adventistas para o aprendizado de línguas, pois além de ter uma filosofia cristã, o ambiente de estudos e convívio é bastante agradável.

Quanto a escolas na Europa, indico o seguinte website: www.linguadvent.org. Há outras opções interessantes na América do Norte ou Oceania, que podem também ser encontradas na internet. Com relação a oportunidades missionárias, aconselho a busca nos seguintes websites: www.adventistvolunteers.org e www.adra.org

terça-feira, outubro 21, 2008

Novo fôlego criacionista

Geólogo adventista fala sobre a importância da criação da “filial” brasileira do Geoscience Research Institute

Aos 27 anos de idade, Nahor Neves de Souza Junior iniciou sua carreira profissional que já dura outros 27 anos. Essas quase três décadas, por sua vez, dividem-se em dois períodos iguais de 13,5 anos. Como geólogo criacionista, Nahor optou por uma carreira em Geologia Aplicada, tanto no âmbito acadêmico (mestrado e doutorado em Geotecnia, pela USP), como na esfera profissional (Petrobras, professor e pesquisador da Unesp e USP). Os 13,5 anos seguintes foram dedicados exclusivamente à obra de Deus, no Unasp, na coordenação de cursos de graduação e pós-graduação; como professor de Ciência e Religião; na publicação do livro Uma Breve História da Terra (em fase de conclusão da 3ª edição), preparação de artigos, CD-ROM e participação na produção de DVDs; apresentação de mais de trezentas palestras criacionistas em aproximadamente 120 eventos, entre outras atividades. “Estou entrando no meu 27º ano de feliz vida conjugal com Noemi [cirurgiã dentista, em São Carlos, SP], que me presenteou com quatro filhos, dos quais muito me orgulho: Israel, Tiago, Ana Claudia e Sarah”, diz Nahor.

No fim de junho, ele recebeu aquele que talvez seja o convite mais desafiador de sua carreira como militante criacionista: dirigir a “filial” brasileira do Geoscience Research Institute.

Para falar sobre isso, o Dr. Nahor conversou com Michelson Borges, no Unasp, campus Engenheiro Coelho.

Fale um pouco sobre o Geoscience Research Institute (GRI).

O GRI é uma instituição diretamente ligada à Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Foi fundado em 1958 com o propósito de utilizar tanto o conhecimento bíblico como o conhecimento científico, na busca de explicações para questões relativas às origens. Na verdade, a tentativa de harmonizar ambas as modalidades de conhecimento constitui a essência do próprio criacionismo.

Quem são os cientistas que trabalham ali e quais projetos de pesquisa eles desenvolvem?

A sede do GRI, localizada no campus da Universidade Adventista de Loma Linda (Califórnia), tem laboratórios próprios para pesquisa e uma biblioteca com 18 mil volumes, incluindo assinaturas de cem revistas técnicas. O instituto é responsável também pela publicação de dois periódicos: Origins e Ciencia de los Origenes. Sete cientistas, vinculados à instituição e que trabalham em período integral nos campos da Biologia, Geologia, Física e áreas afins, devotam seu tempo à pesquisa e divulgação do criacionismo em várias partes do mundo.

Essas pesquisas causam algum impacto na comunidade científica?

Além da atuação dos sete pesquisadores de tempo integral, o instituto mantém um modesto programa de apoio financeiro que favorece outros pesquisadores qualificados. O investimento em pesquisas, nos últimos 20 anos, resultou no desenvolvimento de aproximadamente cem novos projetos sobre temas relacionados com a origem e história da Terra. Vários desses projetos contribuíram para a produção de excelentes artigos científicos, publicados em anais de eventos técnico-científicos e em importantes revistas especializadas na área de ciências naturais.

Para o Brasil, o que significa ter uma filial do GRI?

Nosso País vem se destacando, no cenário da igreja mundial, não somente pelo expressivo número de membros, mas também nos setores da educação e do criacionismo. Nesse sentido, ressaltamos o trabalho pioneiro, extremamente abrangente e eficaz, desenvolvido (por quase quatro décadas) pela Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), com sede em Brasília, DF; as atividades realizadas pelo NEO (tradução e produção de artigos e livros criacionistas, divulgação mediante palestras em congressos e simpósios, entre outras iniciativas); e a oportuna e importante contribuição da CPB, na produção de abundante e excelente material criacionista (livros, materiais didáticos, CDs, etc.). Com efeito, podemos, então, destacar o principal objetivo dessa nova filial do GRI: otimizar os esforços e iniciativas individuais e das referidas instituições, em prol da conscientização e divulgação do criacionismo, para alcançar tanto a comunidade adventista como o meio acadêmico secular.

Como encarou sua nomeação para a função de diretor da sub-sede do GRI/Brasil?

Com surpresa e certa apreensão.

De que forma a criação dessa filial vai contribuir para a ampliação das atividades criacionistas no País?

Tendo em vista as oportunidades já disponíveis e os serviços atualmente oferecidos pelas três instituições (NEO, SCB e CPB), o criacionismo poderia já estar bem mais difundido ou ampliado no Brasil. Ou seja, os projetos (em andamento e outros em vista) somente poderão ser desenvolvidos, com sucesso, mediante a efetiva colaboração dos líderes da Igreja (da Divisão Sul-Americana à igreja local) e do real engajamento dos cientistas e professores adventistas.

Fale sobre os projetos que serão levados avante pelo GRI.

Dentre os novos projetos a ser implementados, destaco: intensificar e diversificar a produção de material criacionista (livros, revistas, CDs, DVDs e outros produtos); estimular e facilitar a aquisição desse material, de tal forma que os pré-universitários, universitários, professores e demais interessados adquiram adequada cultura criacionista; incentivar a criação de “pequenos grupos criacionistas” para atuarem no próprio ambiente universitário secular; encorajar pesquisadores universitários para que direcionem seus projetos em áreas promissoras (descobertas favoráveis à cosmovisão criacionista). Evidentemente, os eventos e cursos que visam à divulgação do criacionismo e à capacitação de estudantes e professores serão oferecidos com maior freqüência e abrangerão todo o território brasileiro.

Como o senhor avalia a controvérsia entre o criacionismo e o darwinismo?

Nos últimos treze anos, diretamente envolvido com essa controvérsia, tenho presenciado acontecimentos marcantes. O recente movimento do Design Inteligente ou TDI (que não deve ser, necessariamente, confundido com o criacionismo) tem confrontado o evolucionismo, revelando suas reais inconsistências e fragilidades. A o dedicar mais espaço à controvérsia, a mídia destaca a posição defensiva (muitas vezes, incoerente, agressiva e desrespeitosa) dos adeptos do paradigma evolucionista das origens. Na realidade, os problemas enfrentados por esse paradigma envolvem questões fundamentais e não periféricas. Particularmente, ao participar de eventos em várias universidades públicas, tenho a grata satisfação de sentir, além da boa recepção, o grande interesse de alunos e professores em conhecer a visão criacionista das origens. Essas oportunidades devem ser buscadas com maior freqüência. A cosmovisão criacionista, muito mais abrangente e consistente que a TDI, poderia promover a construção de modelos científicos (sobre temas relacionados com as origens) muito mais elucidativos e coerentes com a realidade dos fatos. Mas, onde estão e o que estão fazendo os cientistas criacionistas?

Por que os adventistas têm especial interesse na defesa do criacionismo, a ponto de manter um instituto de pesquisas científicas?

Para responder sua pergunta, preciso citar um pequeno texto de Ellen White: “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. A eles foi confiada a última mensagem de advertência a um mundo a perecer. Sobre eles incide maravilhosa luz da Palavra de Deus. Foi-lhes confiada uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção” (Testemunhos Seletos, v. 3, p. 288). É também do nosso conhecimento que a primeira mensagem angélica nos conclama a adorar o Criador (o Autor do livro da natureza e do Livro dos livros, a Bíblia). Consideremos, ainda, que o criacionismo (em harmonia com Romanos 1:20) pode ser definido como uma associação coerente e sustentável entre o conhecimento bíblico e o conhecimento científico. Desse modo, podemos afirmar que o criacionismo é parte integrante do evangelho eterno (Apocalipse 14:6, 7). Portanto, a manutenção de um instituto de pesquisas em geociências não é apenas importante, mas imprescindível.

Assim, com coragem e determinação, mas com o devido preparo, estratégias adequadas e o amor de Jesus Cristo no coração, devemos atender ao “Ide” (Mc 16:15), como autênticos criacionistas adventistas.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Big bang e universos paralelos

Eduardo Lütz é físico e tem atuado também em outras áreas como, por exemplo, Matemática, Informática, Filosofia, Linguagens e Educação. Foi, além de tradutor, professor de Ensino Médio, de escola técnica e de nível superior. Também é programador, analista de sistemas, arquiteto e engenheiro de software. Na Física, tem feito pesquisas em Astrofísica Nuclear, Física Hipernuclear, Buracos Negros e aplicações da Geometria Diferencial a estudos de Cosmologia. Atualmente, ocupa a maior parte de seu tempo em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de software para a Hewlett-Packard.

Nesta entrevista, concedida a Michelson Borges, ele fala sobre big bang, universos e paralelos e outros temas afins.

Você acha que o big bang é uma teoria plausível?

Antes de responder, me parece importante mencionar um aspecto importante da divulgação de informações sobre ciência.

É importante ter em mente que a intuição humana (incluindo a Filosofia) é extremamente inadequada para lidar propriamente com as leis físicas. Felizmente, isso não se aplica a métodos matemáticos, cuja origem não é humana, embora os símbolos sejam inventados. Assim, várias coisas que eu digo sobre ciência podem parecer inconsistentes ou até absurdas, à primeira vista, (incluindo o que acabei de falar sobnre Matemática) pois procuro ajustar a visão filosófica às evidências físicas e suas conseqüências matemáticas, e não ao que parece “razoável” à intuição humana.

Muitas pessoas, ao saber que a probabilidade de determinada hipótese é de “apenas” 99%, optam por uma hipótese concorrente que lhes parece mais razoável. Muito freqüentemente, porém, essa tal “hipótese mais razoável” possui uma probabilidade muito baixa (digamos, 1%), só que sua medida não é amplamente conhecida.

Quando utilizamos o método científico genuíno (não aquela versão descaracterizada que vemos nos livros didáticos), podemos descobrir e corrigir esses equívocos. Um dos aspectos mais fundamentais e menos reconhecidos do método científico é sua base matemática. Teorias científicas são estruturas matemáticas que satisfazem a certos critérios. Muitos, ao ouvirem explicações, motivações ou resultados de uma teoria, confundem essas coisas com a teoria em si.

Estritamente falando, o big bang não chega a ser uma teoria científica. Trata-se de uma família de soluções da equação fundamental de uma teoria científica chamada de Relatividade Geral. Essa teoria, por sua vez, tem-se demonstrado uma excelente aproximação em literalmente bilhões de experimentos e observações.

Vou tentar dar uma idéia do que se trata. Existe um teorema da geometria conhecido pelo nome de “identidades de Bianchi”. Esse teorema, quando combinado com a lei da conservação de energia (primeira lei da Termodinâmica) gera uma equação que constitui a pedra angular da Relatividade Geral.

Como qualquer equação que representa leis físicas, essa descreve uma infinidade de comportamentos possíveis (um para cada situação possível), chamados de soluções da equação. Basicamente, podemos “perguntar” à equação o que acontece em uma dada situação, e ela “responde” com uma de suas soluções. Ao aplicarmos essa equação ao Universo como um todo, podemos ver quais tipos de cosmologias são viáveis e quais tipos são inviáveis, em termos de compatibilidade com a equação.

Observando o Universo, e comparando os dados coletados com as diferentes famílias de soluções da equação da Relatividade Geral, há uma família que se destaca: uma em que o Universo está em expansão. O “problema” é que os membros dessa família têm outra coisa em comum: se o Universo for finito, ele foi extremamente pequeno no passado. Se for infinito, pelo menos a matéria esteve muito concentrada no passado, mesmo ocupando todo o espaço existente. Pode não parecer óbvio à primeira vista, mas matematicamente isso indica que o Universo teve uma origem.

A própria equação que gera essas soluções só é válida até muito próxima ao instante inicial, mas não pode tocar nele e dizer exatamente como o Universo foi criado.

Então, a resposta à sua pergunta, do ponto de vista físico, é: “Sim, o big bang é razoável, mas com uma ressalva quanto ao uso da palavra ‘teoria’, que é questionável nesse caso.”

Como relacionar tudo isso com a doutrina da Criação como exposta na Bíblia?

Primeiramente, é interessante notar que a Relatividade Geral é bem aceita entre criacionistas que têm algum conhecimento dessa área.

De acordo com a Bíblia, o Universo foi criado por Deus antes da semana de Gênesis 1. Uma das evidências encontra-se em Jó 38. Não é razoável, do ponto de vista bíblico, especular-se que o Universo teria sido criado na mesma semana de Gênesis 1. Quão mais velho é o Universo do que a Terra? Um ano? Mil anos? Um trilhão de anos? Pela Bíblia, somente, não sabemos e não podemos opinar.

Como Deus criou o Universo? A Bíblia não diz. Apenas comenta que foi pela Sua Palavra (por meio do Logos) que Ele ordenou e logo tudo apareceu. Isso significa que houve apenas uma fase da criação, que absolutamente tudo foi criado instantaneamente? Obviamente não. Isso seria incompatível até mesmo com Gênesis 1 sozinho, mesmo sem o auxílio de outras passagens. Significa que Deus criou o Universo já grande, plenamente expandido? De forma nenhuma.

Por outro lado, Cristo é chamado de Pai da Eternidade ou Pai Eterno (Isaías 9:6) . Comparando com outras afirmações bíblicas associadas, vemos indicações de Deus existindo além do espaço-tempo. Quando falamos em início do Universo, no contexto físico, estamos falando em início do espaço e do tempo, não só da matéria (até porque matéria e espaço-tempo são interdependentes). A passagem da não-existência do espaço-tempo para a existência dessa estrutura parece ter sua forma mais simples se essa origem ocorrer em algo parecido com uma singularidade (concentração que parece “infinita”), com posterior expansão. As leis físicas mostram que o Universo funciona de maneira otimizada (princípio de Hamilton). Teologicamente, isso significa que Deus sempre age da forma mais eficiente possível, adotando a solução mais simples para cada objetivo.

Então, do ponto de vista teológico, levando em conta Bíblia e as evidências físicas, o cenário do big bang é uma possibilidade mais do que razoável.

E quanto a galáxias “velhas” detectadas a mais de 11 bilhões de anos-luz?

Respondo com outra pergunta: O que isso tem a ver com o big bang? Intrinsecamente, nada. Indiretamente, isso afeta hipóteses sobre mecanismos de formação de galáxias que pretendem estar em harmonia com o cenário do big bang, porém, não lhe servem de fundamento.

Mas existem confusões ainda maiores: há quem chegue a misturar idéias sobre a origem da vida com a do big bang. Lamentável!

Outro detalhe: as estimativas sobre a idade do Universo são muito mais frágeis do que muitos pensam. Existem modelos com altíssima probabilidade de serem adequados, mas também existem modelos frágeis ou até bastante limitados em termos de consistência. Infelizmente, o público leigo dificilmente recebe informações para poder perceber a diferença.

O que você acha da teoria dos multiversos ou universos paralelos? Não seria uma tentativa de escapar à conclusão aparentemente lógica de que o Universo teve um começo?

Realmente, existem muitas tentativas de fugir de cenários nos quais o Universo teve uma origem. Quanto a idéias de multiversos, existem vários indícios no mundo físico que apontam para a existência de “universos paralelos”. Eles aparecem em vários contextos, na verdade. Alguns desses contextos são bastante atraentes para o estudioso da Bíblia.

Existem também os casos de mera especulação, sem qualquer apoio de evidências, aparentemente motivados somente pela aversão à idéia de o Universo ter tido um início, como é o caso do ponto de origem no big bang.

De que forma os universos paralelos podem ser atraentes para o estudioso da Bíblia?

Primeiramente, a Bíblia não se preocupa em explicar fenômenos físicos, embora ela ensine que devemos estudar o mundo físico até para entender melhor temas teológicos. A título de exemplo, notemos a discussão de Jó e seus amigos sobre a justiça de Deus e a forma como Deus aparece no capítulo 38, comentando que eles falavam sem conhecimento de causa, e que deveriam observar o mundo físico para aprender mais sobre o Criador. Voltando ao foco: a Bíblia concentra-se em informações de mais alto nível, do tipo, “Por que Deus permite o sofrimento, em que contexto maior isso se encaixa e qual a solução?”. Ela fornece detalhes históricos passados, presentes e futuros, indicando sua relevância no contexto geral e qual deve ser nosso papel nesses eventos. Isso, por si só, já deveria despertar a curiosidade para que se fizessem pesquisas científicas a respeito.

Apesar de o foco não ser esse, a Bíblia faz afirmações ousadas que possuem implicações físicas. Ela também menciona de passagem algumas coisas que as pessoas tendem a ignorar. Entre os conceitos bíblicos interessantes estão os “buracos de verme”, “wormholes”, “aberturas” no espaço-tempo permitindo, por exemplo, transpor rapidamente distâncias astronômicas sem violar o limite da velocidade da luz.

Outro conceito interessante é o de “regiões celestes”. Muitas pessoas, que crêem na Bíblia e acreditam em anjos e demônios, pensam nessas entidades como seres etéreos, feitos de “energia pura” (isso não existe, diga-se de passagem). Essas entidades seriam invisíveis e intangíveis, podendo atravessar paredes, por exemplo. Porém, observando com mais atenção os textos bíblicos, não bem é isso o que encontramos.

Para encurtar a história, o contexto geral sugere que este universo teria diferentes camadas capazes de comunicar-se entre si em condições adequadas. Essas camadas funcionariam como se fossem universos paralelos, mas na verdade seriam parte deste universo. Objetos e pessoas poderiam, em princípio, passar de uma camada para outra, mas não espontaneamente. Alguém com acesso a uma tecnologia para mover-se de uma camada para outra poderia entrar e sair de lugares “fechados” (pareceria ter atravessado paredes) e ficar invisível.

Podemos aplicar a primeira e a segunda leis da Termodinâmica para afirmar que o Universo teve que ter tido um início?

Podemos usar essas leis ao estudar as evidências. Conforme mencionei, um dos dois princípios que geram a equação que aponta para o início e expansão do Universo (big bang) é justamente a primeira lei da Termodinâmica. Esse cenário de Universo em expansão é extremamente favorável a que a segunda lei da Termodinâmica permita a existência de um Universo habitável.

É bastante estranho ver criacionistas combatendo essas idéias e às vezes até tentando propor modelos alternativos que acabariam implicando em um universo eterno.

Algumas reportagens sobre experimentos com o acelerador de partículas LHC afirmaram que se a tal “partícula de Deus” (bóson de Higgs) não for descoberta terão que reformular a física. Isso é verdade?

A imprensa tem feito um péssimo trabalho ao divulgar informações sobre esses assuntos. Suspeito que isso possa até ter sido estimulado por alguns físicos que queriam fazer propaganda de seu trabalho, mas as distorções que se observam são impressionantes: nenhum físico, por mais sensacionalista que seja, deve ter dito a maioria do que se alardeia por aí. Há muitos erros grosseiros. Falta revisão. Você já alertou seus leitores para as aberrações que aparecem em reportagens sobre a Bíblia, Cristo e assuntos correlatos em certos meios de comunicação, como a revista Veja, Superinteressante, IstoÉ, etc. O mesmo tipo de coisa que eles fazem com a Bíblia, fazem também com a ciência. Distorção total.

A própria expressão “partícula Deus” é totalmente descabida e desconectada de qualquer sentido.

Vamos contextualizar um pouco esse assunto: nós e tudo o que nos cerca, incluindo a própria luz, tudo isso é feito de partículas. Essas partículas são classificadas de acordo com suas propriedades. No primeiro nível de classificação, temos os bósons e os férmions. Fótons (partículas de luz) são exemplos de bósons. Existem vários outros exemplos conhecidos e estudados em laboratório. Bósons são partículas tais que várias podem ocupar o mesmo estado ao mesmo tempo (a idéia de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo não se aplica a bósons). Ou seja, bósons não obedecem ao princípio da exclusão de Pauli. Os férmions são as partículas que obedecem a este princípio. Exemplos: elétrons, prótons, nêutrons, quarks.

A partícula que muitos estão esperando encontrar no LHC é um bóson em particular chamado de bóson de Higgs. De acordo com um os modelos mas aceitos para classificar partículas e prever seu comportamento (especialmente no contexto do chamado Modelo Padrão da Física de Partículas), esse tipo de partícula seria responsável pelo fato de que as demais partículas têm massa.

Além disso, segundo algumas estimativas, essa partícula tem uma boa chance de ser detectada em experimentos envolvendo energias em uma faixa acessível ao LHC. E essa partícula, prevista teoricamente, é uma espécie de última peça do quebra-cabeça de uma área bastante importante. Por isso os físicos estão excitados.

Infelizmente, para justificar os investimentos, vários físicos adotam a postura de anunciar que essa ou aquela descoberta vai revolucionar completamente tudo o que se sabe sobre X ou Y. Isso é conversa para os órgãos financiadores, para a imprensa e para os pobres filósofos da ciência seguidores de Kuhn. As coisas nunca funcionaram assim e não vão começar a funcionar assim agora. Os modelos em questão já funcionam bem para seus propósitos e nada pode tirar isso deles.

Teoremas e teorias testados e funcionais não perdem validade. A teoria da Mecânica de Newton sempre permanecerá válida, pois foi devidamente testada. Isso não significa que os postulados newtonianos sejam verdades absolutas, mas significa que o modelo matemático correspondentes fornece resultados adequados em seu domínio de validade.

Novas teorias apenas ampliam as fronteiras, não podem invalidar as anteriores. Se você tem lido algo diferente disso, precisa reavaliar suas fontes sobre o funcionamento da ciência. Provavelmente essas fontes estão misturando ciência verdadeira com falsa e muito provavelmente confundindo filosofia da ciência com ciência. A última é confiável. Já a filosofia da ciência tem sido um poderoso instrumento de desinformação e, ainda assim, é a principal fonte de informação sobre ciência para não-cientistas.

Por outro lado, uma das coisas que mais entusiasma aos físicos em experimentos como os que serão feitos no LHC é justamente a possibilidade de encontrar coisas estranhas, além ou diferentemente do que foi previsto teoricamente. Por exemplo, o Universo pode ter mais do que três dimensões de espaço (não confundir com universos paralelos). Por que não vemos essas dimensões? Porque estariam compactificadas, como se nessas direções o universo estivesse enrolado com um diâmetro muito pequeno, não afetando nosso cotidiano. Existe isso? Quantas dimensões são? Que efeitos isso tem sobre as possibilidades de explorar o mundo físico? Essas dimensões extras podem afetar drasticamente os resultados de experimentos no LHC.

Por uma questão de romantismo ou propaganda, muitos físicos parecem gostar de pensar nesses eventos como surpresas que jogam por terra o que se pensava saber sobre Física, mas o fato é que essas “surpresas” geralmente são esperadas. Por exemplo, o caso das dimensões extras fazendo “desaparecer” alguns fenômenos esperados e fazendo “aparecer” outros foi previsto teoricamente (ex.: http://arxiv.org/abs/hep-ph/0605062v3). O que acontece é que esses experimentos servem para tirar dúvidas (ex.: quantas dimensões extras existem?), testar os limites das teorias atuais e obter informações para a elaboração de teorias com domínio de validade ainda maior.

terça-feira, setembro 09, 2008

Ele harmonizou a fé com a razão

Tarcísio da Silva Vieira nasceu em Santa Helena de Goiás, em abril de 1981. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de Rio Verde, é mestre em Química Orgânica pela Universidade de Brasília. Foi professor de Química e monitor de Bioquímica na faculdade em que se graduou, e professor de Química, Biologia, Física e Matemática em diversos cursinhos e colégios conveniados com as redes Objetivo e COC. Atualmente, desenvolve atividades no Centro Cultural da Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), em Brasília, e leciona Biologia em colégios da Rede Adventista de Ensino, na mesma cidade. Na SCB, Tarcísio desenvolve atividades gerais como elaboração e revisão de material (livros, artigos, CDs, DVDs), traduções, palestras e preparo de material para as reuniões quinzenais no Centro Cultural da Sociedade.

Durante um congresso universitário em Goiânia, do qual participou como palestrante, concedeu esta entrevista a Michelson Borges:

Como foi a sua formação religiosa?

Nasci em um lar que poderia ser designado como católico não-praticante. Havia influência de correntes como espiritismo, de um lado, e protestantismo, de outro. Minha mãe sempre mencionava Deus e até me ensinou a falar com Ele. Foi ela quem me incentivou a procurar uma igreja quando criança, período em que tive os primeiros contatos com o cristianismo.

Por que você se tornou ateu?

Ao alcançar certa maturidade, entre 14 e 15 anos, muita coisa se tornou confusa em minha mente. Questões acerca de minha existência, vários problemas que assolavam minha família, "paixões da mocidade" que eram mais atraentes do que o conceito abstrato que eu tinha sobre Deus, explicações dadas em minha escola para muitos acontecimentos históricos e fenômenos naturais que se opunham completamente àquilo que eu aprendia na Igreja, tudo isso adicionado ao conhecimento superficial que eu tinha da Bíblia, acabaram me levando a questionar a veracidade da existência de um Criador. Isso foi conseqüência natural de minha superficialidade em assuntos referentes a Deus, O qual, graças ao contexto materialista em que eu estava inserido, foi completamente ofuscado pelo ateísmo.

O que o fez mudar de idéia e aceitar o criacionismo?

Após aquele período de ateísmo, que durou aproximadamente até meus 18 anos, muitas coisas aconteceram em minha vida pessoal que me levaram a crer novamente em um Criador e aceitar a idéia de um Deus. Decidi então empenhar tempo e energia em buscar firmar meus pensamentos de forma que não tivesse aquele tipo de experiência novamente, em que o que eu acreditasse fosse refutado por supostas evidências de um mundo materialista.

Como sempre gostei muito de ciências (minha mãe que o diga, quando eu inventava de ir para a cozinha fazer "experimentos"), entre 15 e 18 anos, estudei muito biologia, matemática, física e química. Nesse período, já estava bem familiarizado com todos os aspectos discutidos no Ensino Médio nessas disciplinas. Ao aceitar novamente o conceito de um Criador e a idéia de um Deus pessoal, dediquei-me a estudar (com a ajuda de um grande amigo) a Bíblia com intensidade e profundidade, pois sabia que meu caminho para o ateísmo era fruto de minha superficialidade em assuntos bíblicos, como mencionei anteriormente.

Ao prosseguir em meus estudos, o conhecimento que eu tinha de ciências incrivelmente ia se harmonizando com aquilo que estava descobrindo na Palavra de Deus. O grande ápice ocorreu quando passei a estudar a biografia de cientistas como Galileu, Kepler, Robert Boyle, Newton, Maxwell e outros, que harmonizavam o conhecimento científico com a fé em um Deus pessoal. Nessa época, passei a procurar desesperadamente material nessa área, até que num belo dia, chegou às minhas mãos um livro intitulado E Disse Deus – A Ciência Confirma a Autoridade da Bíblia, escrito por um químico. Fiquei encantado e desde então o criacionismo é uma responsabilidade que o Senhor Deus me permitiu conhecer, estudar e trabalhar.

Como você via o criacionismo antes de estudá-lo mais a fundo?

Não cheguei a conhecer absolutamente nada sobre criacionismo antes de ler aquele livro que mencionei. Hoje entendo o motivo disso: os meios de comunicação, principalemente as revistas que eu gostava muito de ler (Superinteressante e Galileu), não davam nem dão espaço para discussão de idéias, de forma que o evolucionismo é propagado como verdade absoluta e inquestionável. Meu primeiro contato com o criacionismo foi bastante empolgante, pois eu já vinha trabalhando nesse sentido de harmonizar o conhecimento científico e a fé e um Deus pessoal - só não sabia o nome que se dava a isso (risos).

Você teve uma experiência frustrante numa denominação evangélica. Fale um pouco sobre isso.

Quando passei a crer em um Deus pessoal eu não era protestante. Após um episódio, que hoje vejo como engraçado mas que na época me apavorou muito, decidi procurar uma denominação protestante, à qual pertenci por algum tempo. Na escola dominical, passamos a estudar os dez mandamentos, quando o professor, ao ler o quarto mandamento, disse que "não era preciso discutir aquele ponto pois ninguém mais tinha dúvidas quanto à guarda do domingo". Foi então que perguntei o motivo pelo qual poderíamos violar aquele quarto mandamento mas não poderíamos violar nenhum dos demais. Como já disse, quando decidi estudar a Bíblia, busquei me aprofundar. Isso havia me dado muitos argumentos que se opunham aos aspectos apontados pelo professor na defesa da guarda do domingo como dia de repouso.

Como o horário já estava avançado naquele dia, o professor propôs um sábado à noite para discutirmos o assunto. Pensei: "Que legal! Vou poder compartilhar com todos os jovens aquilo que eu e alguns amigos temos estudado." Então me dediquei ainda mais ao assunto. Busquei fatos históricos em que figuravam o imperador Constantino, profecias de Daniel e até argumentação de um grupo de judeus messiânicos que conheci.

Na data marcada, meus três amigos e eu fomos à igreja. Naquele sábado a noite, não se faziam presentes apenas os jovens, mas boa parte da congregação. Sentimos um pouco de hostilidade por parte das pessoas ali presentes, mas pensamos que era devido ao nosso nervosismo. Quando o debate começou, expusemos nossas idéias com base naquele material que mencionei, além de texto em grego e hebraico que aprendemos um pouquinho. Abruptamente, um dos dois pastores presentes pegou um microfone, interrompeu nossa argumentação e começou a nos repreender. Uma das frases que mais me impressionaram foi: "Você não pode estudar a Bíblia com a mesma mente que você usa para estudar coisas referentes ao seu mestrado!" Nessa época eu esta cursando mestrado na UNB. Aquilo me entristeceu muito, não porque eu não deveria estudar a Bíblia com a mente racional que eu utilizava no mestrado, pois é isso mesmo que Deus quer que façamos: que O busquemos de forma racional - me entristeci com a maneira como o pastor falou, com a voz alta e agressiva. Vi profunda ignorância na recusa ao diálogo; a mesma hostilidade com a qual estava acostumado nos freqüentes debates que tive com evolucionistas.

A certa altura, nos perguntaram se alguém que não guardasse o sábado seria castigado no inferno. Respondemos com outra pergunta: Desonrar pai e mãe seria pecado, uma vez que está no mesmo conjunto de mandamentos que o sábado? Não quero entrar em detalhes do que aconteceu naquela noite, mas o balanço final é que fomos convidados a nos retirar daquela denominação (para não dizer expulsos), caso pretendêssemos guardar o sábado. Esse episódio me marcou muito.

Como conheceu a SCB e o Dr. Ruy Vieira, seu presidente?

Eu havia começado meus estudos de pós-graduação na Unicamp. Estando em São Paulo, viajava algumas vezes à Brasília. Numa dessas viagens, uma pessoa que conhecia meu interesse pelo criacionismo mencionou a existência de uma Sociedade Criacionista em Brasília, cujo presidente é o Dr. Ruy. O nome me pareceu familiar. Como muitos projetos de pesquisa na Unicamp são financiados pela Fapesp, lembrei-me de que um de seus presidentes havia sido Dr. Ruy Vieira. Fiquei mais entusiasmado ainda e pensei: "Será que um dos presidentes da Fapesp é criacionista?" Para minha felicidade, aquela pergunta foi respondida com um "sim"! Deus me deu, então, a oportunidade de conhecer, aprender e conviver com uma das mentes mais brilhantes do mundo e um caráter cuja humildade tem a mesma proporção.

Você costuma dizer que há equívocos em ambos os lados – criacionismo e evolucionismo. Como assim?

Uma das maiores virtudes da boa pesquisa ou de um bom estudo é o maior grau possível de objetividade quanto ao assunto em questão. A outra virtude de igual valor é o reconhecimento da necessidade de aperfeiçoamento de um dado modelo, e isso é conseqüência natural do reconhecimento de que nenhum modelo é perfeito, livre de falhas e questionamento. Muitos criacionistas e muitos evolucionistas cometem o mesmo erro quando não aplicam essas virtudes, e, como conseqüência, temos muitos equívocos que aparecem de ambos os lados, como nos ensina o professor Dr. Eduardo Lütz. A humildade e cautela na interpretação de fatos que ocorrem na natureza é muito importante em qualquer cosmovisão de mundo que venhamos a ter.

Quais os pontos mais frágeis do darwinismo, do ponto de vista da biologia e da química?

Durante meu curso de graduação em Ciências Biológicas, percebi muitas coisas incoerentes no modelo darwiniano. Penso que muito disso se deu por conhecer um pouco de áreas com as quais a maioria dos biólogos não é muito familiarizada, como a matemática, a física e a química. Há pelo menos dois pontos que gosto de destacar: (1) muitas idéias como a seleção natural têm uma grande aplicabilidade dentro daquilo que denominamos de microevolução. Ao se extrapolar aquelas idéias para o campo da macroevolução, verificamos que não há uma aplicabilidade que sustente o modelo em questão. Isso está vindo à tona em muitas conferências realizadas por evolucionistas. (2) os defensores do darwinismo e do neodarwinismo concentram sua atenção no desenvolvimento da vida em nosso planeta. Mas não há como a vida se desenvolver se ela não tiver um início. A origem da vida é um campo completamente sem respostas, mas cheio de especulações, que os defensores da macroevolução evitam defrontar exatamente pela complexidade bioquímica das formas de vida que conhecemos. Todos os experimentos em química que tentam simular a passagem da matéria inorgânica para compostos orgânicos, a formação de compartimentos que seriam os precursores das membranas celulares, a produção de biomoléculas em supostas condições de uma "terra primitiva", envolvem planejamento sintético e reagentes com altíssimo grau de pureza, o que é completamente oposto ao acaso e aos "caldos primordiais" ensinados nas escolas e universidades como verdade absoluta. Esses experimentos nos mostram que qualquer que seja o mecanismo que Deus tenha usado para produzir seres vivos exigiu planejamento e inteligência.

Como biólogo com mestrado em química, de que forma você avalia a teoria da abiogênese?

A abiogênese postula que a matéria inanimada (sem vida) pode tornar-se matéria animada (portadora de características atribuídas aos seres vivos). O primeiro aspecto a ser considerado quando se avaliam modelos que propõem o surgimento da vida ao acaso, é uma definição apropriada de vida. Isso se faz necessário para que tenhamos uma noção de onde, em que momento e com quais constituintes aquilo que era inanimado supostamente veio a manifestar características de organismos vivos. Isso raramente é discutido em trabalhos que buscam demonstrar a origem abiogênica da vida. As explicações para a origem dos seres vivos presentes em nossos livros-textos de Ensino Médio e de curso universitário, relatando a origem dos seres vivos a partir de compostos orgânicos provenientes de reações químicas entre substâncias inorgânicas em uma atmosfera primitiva (e isso é abiogênese, pois aquilo que é vivo teria surgido daquilo que não é vivo), misturam fato com fértil imaginação.

O que se faz em laboratório é demonstrar que a matéria inorgânica pode ser convertida em matéria orgânica, e o experimento de Urey-Miller é considerado um dos pioneiros nesse campo. Embora constituam os seres vivos, compostos orgânicos não manifestam características dos seres vivos. A teoria da abiogênese carece de comprovação experimental e não é validada por nenhum dos vastos campos da química, principalmente a química orgânica, além de se tratar de uma grande desonestidade com aqueles que se interessam pelo assunto. Qualquer pessoa que se dedicar ao estudo da biologia logo aprenderá que a vida é uma manifestação muito, mas muito complexa em termos bioquímicos, biofísicos e fisiológicos, em que muitas partes pontuais precisam trabalhar juntas para o funcionamento do todo. Se essa mesma pessoa se interessar por química, entenderá muito rápido que todo e qualquer experimento exige, além de planejamento e controle das condições reacionais, a separação dos produtos obtidos para se dar seqüência a um novo experimento, dentro da rota sintética planejada, uma vez que as sínteses orgânicas em laboratório sempre levam à formação de misturas racêmicas (e produtos "indesejados"), desde que haja a possibilidades da formação de centros assimétricos na molécula. E os organismos vivos são repletos dessas moléculas ditas quirais. Logo ficará bem claro que a teoria da abiogênese não faz sentido algum.

As universidades são mesmo centros de discussão de idéias?

Percebo que em alguns cursos existe mais discussão e debates sobre certos fatos e opiniões, já outros cursos são mais fechados quanto a discussões. Essas diferenças são facilmente entendidas analisando-se o contexto em que cada curso universitário está inserido. Mas uma coisa me intriga: no meio acadêmico, em geral, idéias que sejam fortemente opostas aos modelos aceitos como verdade são recriminadas ou ridicularizadas. Tente discutir em um curso de História a possibilidade de grandes navegações em períodos anteriores a Colombo, mesmo existindo trabalhos publicados em importantes periódicos que relatam a existência de cocaína em múmias datadas do período do Egito antigo. Ou tente em um curso de geologia argumentar que os derrames basálticos que formam a região Sul de nosso país se deram em períodos de semanas, e não de milhares de anos, conforme é aceito pela maioria dos geólogos, mesmo que se tenha dissertações de doutorado mostrando isso. Esses são alguns exemplos que podem ilustrar o quanto as universidades deixam a desejar no quesito discutir idéias.

Você teve aula com o Dr. Marcos Eberlin. O que acha da pesquisa dele e do fato de ele considerar a homoquiralidade a "assinatura química de Deus"?

O professor Dr. Marcos Eberlin é um exemplo e um referencial para todo aquele que goste de química. Seriedade, responsabilidade, dedicação e espírito crítico estão entre muitas de suas características como profissional que o levaram a ser um respeitado pesquisador no mundo todo. Essas mesmas características devem ser também exemplo e referencial para um cristão que enxergue na natureza os "atributos invisíveis de Deus", conforme nos ensina Paulo, escrevendo aos romanos.

O Dr. Eberlin sempre deixava bem claro suas idéias a respeito de Deus, inclusive em entrevistas ao Jornal da Unicamp. Suas idéias eram levadas a sério ou pelo menos respeitadas devido à qualidade de suas pesquisas e seriedade de seu trabalho. Aí está um excelente exemplo ao cristão: defende suas idéias de forma inteligente, coerente (palavras e ações), sábia e prudente.

Muitos evolucionistas que escrevem e realizam palestras em que o principal objetivo não é discutir a validade das teorias evolucionistas, mas atacar criacionistas, argumentam que diante do desconhecido a resposta "porque Deus quis" é suficiente para os criacionistas, nos taxando de ignorantes e pseudopesquisadores, entre muitos outros adjetivos. As pesquisas do Dr. Eberlin têm uma importância peculiar dentro da química, uma vez que o motivo pelo qual os seres vivos são constituídos por grupos de moléculas enantiomericamente puras é desconhecido desde a época de Pasteur e suas pesquisas com ácido tartárico. Dentro da estrutura criacionista, ter um pesquisador como o Dr. Eberlin harmonizando seu conhecimento científico e suas pesquisas de ponta com sua fé em Deus, é mais um nobre exemplo de o quanto a medíocre resposta "porque Deus quis" não faz parte do repertório daquele que sabe que "os atributos invisíveis de Deus, assim como Seu eterno poder, como também a Sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas" (Rm 1:10).

O que você acha da teoria do design inteligente?

Embora se oponha ao evolucionismo, o desing inteligente não é criacionismo disfarçado, como a mídia tenta impregnar na mente das pessoas. Por isso, é importante saber diferenciar as duas correntes de pensamento. Sem dúvida alguma, vejo a teoria do design inteligente com bons olhos, não apenas por se opor ao evolucionismo, mas por ser mais consistente com os fatos observáveis. Os passos metabólicos, o sistema imunológico e todo o alto grau de interdependência das reações químicas necessárias à manutenção da vida, são melhor explicados em termos de complexidades irredutível (modelo proposto pelo desing inteligente) do que pelas teorias evolucionistas encontradas nos livros-textos escolares ou universitários.

Quais os seus planos para o futuro próximo?

Essa é a pergunta mais difícil (risos). Perdi meu irmão em 2005 e meu pai recentemente, em 2008. Então, muita coisa em relação à minha mãe precisa de minha atenção. Uma grande prioridade é o trabalho que tenho a oportunidade de desenvolver com o Dr. Ruy Vieira, na Sociedade Criacionista Brasileira. Espero ser mais útil a cada dia e continuar a atuar na divulgação do criacionismo em nosso país, ao lado de pessoas que admiro e nas quais me espelho (tanto em minha formação intelectual quanto na formação de meu caráter). Também aguardo algum concurso universitário no qual minha formação se enquadre para posteriormente ingressar no doutorado, pois o "homem da casa" agora sou eu e preciso estar atento às questões financeiras. Também pretendo montar um centro de estudos em minha cidade, para atender alunos com dificuldade em Cálculo Diferencial, Estatística, Química, Bioquímica, Biofísica e outras disciplinas com as quais tenho familiaridade e que fazem parte do currículo universitário.

Peço a Deus que me dê sabedoria para que eu possa fazer feliz minha namorada (Jucila Katrinne) a cada dia, para que, quando o Senhor nos mostrar o momento, possamos nos casar.

E para finalizar, algo que tenho orado e considerado muito em meu coração. Como mencionei antes, saí de uma dada denominação religiosa e não me encontro em nenhuma oficialmente como membro, embora freqüente o templo adventista de minha cidade desde aquele episódio da discussão sobre o sábado. Há algum tempo, tenho estudado muito as doutrinas da Igreja Adventista do Sétimo Dia, as profecias bíblicas e muitos outros pontos que considero importantes para uma decisão racional. O legal é que tenho encontrado muita coerência em todo o material que tenho estudado. E um de meus planos para o futuro próximo é ser batizado na Igreja Adventista, assim que concluir esses estudos que tenho feito.

terça-feira, junho 10, 2008

Uma fonte confiável

O Dr. Siegfried Julio Schwantes nasceu em Poços de Caldas, Minas Gerais, em 24 de julho de 1915. Aos 11 anos foi para o Colégio Alemão, em Rio Claro, SP. Algum tempo depois, seus pais resolveram mudar-se para São Paulo, para favorecer a educação dos filhos. Schwantes prestou então o exame de admissão para o Ginásio do Estado, que era o estabelecimento padrão para todo o Estado de São Paulo, na época.

Os demais estudos foram feitos nos Estados Unidos: bacharelado em Física e Química no Pacific Union College, em 1938; mestrado em Teologia na antiga Potomac University (hoje Andrews University), em 1949; doutorado em Estudos Vétero-Testamentários na Johns Hopkins University, em 1963. Este doutorado incluía estudos das línguas semíticas, o que fez com que no segundo ano Schwantes tivesse que estudar cinco línguas simultaneamente: hebraico, aramaico, árabe, egípcio antigo (inclusive a leitura de hieróglifos) e acádio (a língua mãe do assírio e do babilônico).

Desde o tempo em que foi professor de Ciências no antigo Colégio Adventista Brasileiro (hoje Centro Universitário Adventista, campus 1), durante cinco anos, sua vida foi dedicada ao ensino e à pesquisa. Foi diretor do Instituto Teológico Adventista (hoje IPAE) durante três anos e meio; professor no Spanish-American Seminary, durante um ano; oito anos como professor de Teologia, no Instituto Adventista de Ensino (hoje UNASP); quatro anos lecionando Teologia, na Andrews University; cinco anos como diretor do Departamento de Teologia do Middle East College, Líbano; diretor do Departamento de Teologia no Collonges sous Salève (Seminário Adventista da França), durante seis anos e meio; professor de Teologia na Universidade de Montemorelos, México, durante um ano e meio, de onde saiu aposentado, em 1980. A seguir lecionou em várias faculdades incluindo o Avondale College, na Austrália e o Adventist International Institute of Advanced Studies, nas Filipinas, até sua “aposentadoria definitiva”, em 1995.

Suas principais obras publicadas são: Colunas do Caráter (publicado em 1957 pela Casa); A Short History of The Ancient Near East, publicado pela Baker Book House, em 1965; The Biblical Meaning of History, Pacific Press, 1970; O Despontar de Uma Nova Era (Casa), Mais Perto de Deus (livro de meditações do ano de 1991); Estudos em Arqueologia (IAE, 1983); além de numerosos artigos publicados nas seguintes revistas: Andrews Univesity Semminary Studies, Vetus Testamentum, Zeitschrift fur Alttestamentliche Wissenschaft e Revista Adventista.

Em 2005, concedeu esta entrevista ao jornalista Michelson Borges.

O Dr. Schwantes residia em Silver Spring, Maryland, EUA, antes de falecer, em junho de 2008.

Ao longo de tantos anos como pesquisador da arqueologia bíblica e das línguas semíticas, o que mais lhe chamou a atenção quanto à confiabilidade das Escrituras?

A Arqueologia não prova a Bíblia, mas demonstra que o quadro cultural e histórico da Bíblia corresponde à realidade. Se este quadro é fidedigno, segue se que a mensagem religiosa que ela comunica ao leitor é também digna de fé. A Arqueologia, projetando luz sobre a língua, história e religião de povos contemporâneos de Israel, permite-nos compreender muitos termos técnicos e alusões históricas, que de outro modo nos escapariam. Como por exemplo, podemos citar o termo Miqweh, de I Reis 10:28, que permaneceu obscuro até que o Dr. William F. Albright reconheceu nele uma referência a Qweh, nome antigo da Cilícia, de onde Salomão importava cavalos.

Há quem acredite que o texto bíblico, ao ser traduzido, pode ter sido alterado de tal forma que já não se pode confiar integralmente em sua mensagem. Isso é assim?

Não há perigo de que o texto bíblico tenha sofrido seriamente ao ser traduzido de uma língua para outra. O Antigo Testamento, por exemplo, foi traduzido do hebraico para o grego entre 250 e 150 antes de Cristo, para o benefício de congregações judaicas no Egito que não mais estavam familiarizadas com a língua materna. O Antigo Testamento resultante é conhecido como a Septuaginta. Há várias cópias da Septuaginta, e ela é citada por muitos estudiosos, conhecidos como “pais da igreja”, inclusive por escritores do Novo Testamento. Pois bem, essas citações podem ser comparadas com o texto hebraico, e verifica se que as pequenas divergências não afetam nenhuma doutrina fundamental. Jerônimo traduziu o Antigo Testamento do hebraico para o latim, e o texto resultante, conhecido como a Vulgata, foi a única Bíblia que a Europa conheceu durante a Idade Média. Longe de as traduções corromperem o texto bíblico, elas permitem comparar as várias traduções e constatar um elevado grau de respeito pelo texto original.

Fale sobre os Manuscritos do Mar Morto.

Os Manuscritos do Mar Morto, que começaram a vir à luz em 1947, contêm além de livros próprios da seita dos essênios, dois manuscritos de Isaías e um comentário do livro de Habacuque, além de muitos fragmentos que resistiram à passagem do tempo. Os estudiosos têm aí a oportunidade de comparar os textos bíblicos tais quais eram no tempo de Cristo com os melhores textos do Antigo Testamento em hebraico, que chegaram até nós. De novo as diferenças são mínimas, geralmente diferenças de ortografia, uso de sinônimos, e outras pequenas variantes, que não afetam nenhuma doutrina bíblica.

A datação do material foi facilitada pelo fato de que muitas moedas foram ali achadas. Como de Vaux observou, “as datas são confirmadas [também] pela cerâmica em diferentes partes do edifício”.

Note que mil anos separam os textos bíblicos achados nas cavernas de Qumran dos melhores manuscritos do Antigo Testamento. Havia grande oportunidade para que erros fossem introduzidos no texto bíblico. A concordância dos textos atesta o esmero com que os copistas fizeram seu trabalho para preservar a pureza do texto do Antigo Testamento que chegou até nós.

Tomando como exemplo o Rolo A de Isaías, de todos o mais completo, pode-se afirmar que seu texto consonantal é praticamente idêntico ao texto de Isaías contido na Bíblia Hebraica, editada por Jacob Bem Chayyim, em 1527.

Podemos aceitar que os dias da Criação foram realmente dias de 24 horas? O que a língua original de Gênesis nos diz a respeito?

A língua original de Gênesis só conhece um valor para o termo yom, que significa “dia”. Nenhum texto bíblico apóia a idéia de que yom possa significar “época”.

Algumas pessoas, numa tentativa de evitar maiores problemas com o evolucionismo, aplicam a teoria dos dias-eras ao relato de Gênesis 1. Para elas, os seis dias da criação são, na verdade, longos períodos de tempo. Será que isso é possível? Antes de mais nada, é preciso deixar claro que o termo yom em Gênesis 1 não se liga a qualquer preposição; não é usado em uma relação construtiva; e não tem nenhum indicador sintático que seria de esperar para um uso extensivo não literal. Nas Escrituras, a palavra yom invariavelmente significa um período literal de 24 horas, quando precedida por um numeral, o que ocorre 150 vezes no Antigo Testamento. Obviamente, no relato da Criação existe sempre um numeral precedendo aquela palavra – primeiro, segundo, terceiro... sétimo dia; e essa regra para a tradução de yom como um dia literal aplica-se neste caso. O que parece ser significativo, também, é a ênfase dada à seqüência dos numerais 1 a 7, sem qualquer hiato ou interrupção temporal. Esse esquema de sete dias (seis dias de trabalho seguidos por um sétimo dia de repouso) interliga os dias da Criação como dias normais em uma seqüência consecutiva e ininterrupta. O relato da Criação em Gênesis 1 não somente liga cada dia a um numeral seqüencial, como também estabelece as fronteiras do tempo mediante a expressão “tarde e manhã” (versos 5, 8, 13, 19, 31). A frase rítmica “e houve tarde e manhã” provê uma definição para o “dia” da Criação; e se o “dia” da Criação constitui-se de tarde e manhã, é, portanto, literal. O termo hebraico para “tarde” – ‘ereb – abrange toda a parte escura do dia (ver dia/noite em Gên. 1:14). O termo correspondente, “manhã” (em hebraico bqer) representa a parte clara do dia. “Tarde e manhã” é, portanto, uma expressão temporal que define cada dia da Criação como literal. Não pode significar nada mais.

Outra espécie de evidência interna no Antigo Testamento para o significado dos dias resulta de duas passagens sobre o sábado no Pentateuco, que se referem aos dias da Criação. Elas informam ao leitor quanto a como os dias da Criação foram compreendidos por Deus. A primeira passagem faz parte do quarto mandamento do Decálogo, e está registrada em Êxodo 20:9-11: “Seis dias trabalharás ... mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus ... porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra ... e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.” Estas palavras foram proferidas por Deus (verso 1). A ligação com a Criação transparece no vocabulário (“sétimo dia”, “céus e terra”, “descansou”, “abençoou”, “santificou”) e no esquema “seis mais um”. Evidentemente as palavras usadas nos Dez Mandamentos deixam claro que o “dia” da Criação é literal, composto por 24 horas, e demonstram que o ciclo semanal é uma ordenança temporal da Criação. Argumentar em contrário, é forçar o texto bíblico a dizer o que não diz.

Por que o senhor considera o criacionismo uma filosofia mais aceitável que o evolucionismo?

Porque não posso conceber que o Universo maravilhoso em que vivemos pudesse ter vindo à existência a partir do nada. Não posso conceber, tampouco, que o caos pudesse se transformar num cosmos sem a intervenção de um Deus infinitamente sábio e poderoso. “Os céus declaram a glória de Deus” (Salmo 19:1). A entropia, um princípio básico da Física, sugere degradação e desordem crescentes, e não organização e harmonia. Nem o criacionismo, nem o evolucionismo podem ser verificados no laboratório, como exige a ciência. Ambos não passam de filosofias, e como filosofias só são aceitos pela fé. Se é questão de fé, prefiro aquela que requer menos credulidade. É para mim mais crível que um Deus infinitamente sábio e onipotente trouxesse este Universo à existência, do que crer que o Universo surgisse do caos espontaneamente.

Para o senhor, quais são as maiores evidências da existência do Criador?

A maior evidência da existência do Criador é justamente este Universo com toda a sua beleza e harmonia. O Big Bang pressupõe energia inicial que explode e se expande, para produzir o Universo tal qual existe hoje. De onde veio essa energia, se do nada, nada pode surgir? A complexidade irredutível observada mesmo em uma célula viva não poderia ter vindo à existência por um processo evolucionário, de incremento em incremento. A razão é que os mecanismos biológicos não funcionariam antes de todos os componentes estarem presentes e funcionando. Uma célula viva mais se parece a uma fábrica sofisticada do que a um glóbulo de proteína, como Darwin imaginava. O desígnio evidente em toda natureza só pode ser produto de um Planejador infinitamente sábio e onipotente. E é a esse Planejador que eu adoro como meu Deus.

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