quinta-feira, agosto 16, 2012

40 anos de criacionismo

SCB comemora aniversário e celebra conquistas de quatro décadas

No fim do ano de 1971, uma família foi especialmente tocada por Deus para abraçar uma missão. O engenheiro Ruy Carlos de Camargo Vieira (na foto acima, no Centro Cultural da Sociedade Criacionista Brasileira), sua esposa Jandyra Corrêa Vieira, seus filhos, Rui Corrêa Vieira e Pedro Henrique Corrêa Vieira, e a mãe de Ruy, Berta de Camargo Vieira, com o apoio de vários membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia de São Carlos, SP, dentre os quais Francisco Batista de Mello, Nahor Neves de Souza Júnior e Humberto Ricci, dariam os primeiros passos para a criação da entidade que seria conhecida como Sociedade Criacionista Brasileira (SCB). E a história da SCB se confunde e se mistura com a de seu presidente-fundador. Conheça um pouco mais dessa epopeia na entrevista abaixo, concedida pelo Dr. Ruy ao jornalista Michelson Borges:

Fale um pouco sobre sua conversão ao criacionismo e sobre e criação da SCB.

Não tive educação religiosa no lar, e dada a minha educação escolar até o nível universitário ter sido centrada nos parâmetros agnósticos, e mesmo ateístas, vigentes em nosso país, não tive educação religiosa também nos bancos escolares. Dessa forma, só vim a conhecer o cristianismo como experiência pessoal, pela providência de Deus, já no fim de meu curso de Engenharia Mecânica-Eletricista, na Universidade de São Paulo, em 1953. Evidentemente, então, ocorreram em minha mente conflitos entre o conhecimento adquirido até então e a nova perspectiva que se abria diante de mim, de um mundo criado, mantido e dirigido por um Deus que manifesta propósito, desígnio e planejamento em todas as Suas obras.

Dou graças a Deus por ter conseguido superar todas as barreiras que se interpuseram no caminho de minha conversão. Hoje posso associar de forma bastante coerente a imagem de um mundo perfeito criado por Deus, e a degradação decorrente da entrada do pecado neste planeta, com princípios básicos da ciência que aprendi na minha carreira de estudante, e que posteriormente integraram o conteúdo de disciplinas que vim a ministrar como docente universitário, como, por exemplo, a Primeira e a Segunda Lei da Termodinâmica, envolvendo considerações filosóficas sobre o conceito de entropia, ordem e desordem, direcionalidade, decaimento e degradação.

Vislumbro, hoje, em todos os campos do conhecimento humano com os quais tive de me relacionar, a perfeita coerência da visão criacionista com os fatos e as evidências neles encontrados.

Entendo que se tornar criacionista é uma consequência lógica de se tornar cristão. Ser cristão é aceitar a Cristo como Salvador e, portanto, aceitar a revelação exposta na Bíblia, especialmente no que diz respeito ao relato da criação de um mundo perfeito, da provação e da queda subsequentes, com todas as suas consequências deletérias.

Na minha carreira de docente universitário, como também no acompanhamento dos estudos de meus filhos no curso secundário e no preparo para o concurso vestibular, bem como na observação dos acontecimentos sociais, políticos, econômicos, científicos e tecnológicos, pude perceber como as doutrinas evolucionistas foram sendo introduzidas nos livros-textos e assimiladas e divulgadas gradativamente pelos meios de comunicação, passando mesmo a pautar o comportamento social em vários setores da atividade humana.

Com respeito à fundação da SCB, isso decorreu de uma iniciativa tomada na cidade de São Carlos, em fins de 1971, a partir da realização de uma “Semana da Cultura” organizada pelo pastor Leondenis Vendramin, então distrital da Igreja Adventista do Sétimo Dia naquela cidade. Nesse evento, vários palestrantes, na maioria professores do então Instituto Adventista de Ensino (hoje Unasp, campus São Paulo), foram convidados a expor tópicos diversos, de interesse cultural e científico, tendo cabido então ao atual presidente da SCB falar sobre o dilúvio bíblico. A recuperação dessa palestra está sendo inserida na edição da Revista Criacionista número 85, comemorativa do quadragésimo ano da fundação da SCB.

A partir de então, tendo obtido de um dos palestrantes, o professor Orlando R. Ritter (foto abaixo), o endereço da Creation Research Society, sociedade criacionista norte-americana fundada em 1964, entrei em contato com essa Sociedade, inscrevi-me como membro, adquiri as revistas por ela publicadas desde sua fundação e obtive permissão para a tradução e publicação de seus artigos. Com o apoio de vários entusiastas da ideia de se fundar uma Sociedade Criacionista no Brasil, então residentes em São Carlos, foi organizada informalmente a Sociedade, visando inicialmente à publicação de periódico que pudesse divulgar artigos esclarecedores dos pontos mais controvertidos abrangidos no confronto entre as estruturas conceituais criacionista e evolucionista.


Como foi o início das atividades da SCB e como o trabalho se desenvolveu?

O início das atividades da Sociedade ocorreu em abril de 1972, com o lançamento dos 500 exemplares do primeiro número de sua publicação periódica então intitulada Folha Criacionista. A impressão foi feita como serviço externo prestado pelo Serviço de Publicações da Escola de Engenharia de São Carlos, da Universidade de São Paulo, na qual eu então lecionava. Essa publicação, durante muitos anos, foi a viga mestra das atividades da Sociedade, dadas as limitações de tempo e as dificuldades para expandir seu âmbito de atuação para abranger, por exemplo, a edição de livros e de recursos audiovisuais, bem como a realização de palestras atendendo a convites de pessoas e instituições interessadas em se aprofundar mais na controvérsia entre criação e evolução.

Aos poucos, a Sociedade foi granjeando a simpatia e o apoio de numerosas pessoas, que passaram a prestar sua colaboração voluntária para o desenvolvimento das suas atividades, de forma que também aos poucos foi possível abrir novas frentes de atuação, até se chegar à atual configuração de abrangência da Sociedade.

Atualmente, além da continuidade da publicação periódica da Folha Criacionista (que, em sua “evolução”, teve sua denominação alterada para Revista Criacionista e tem tiragem de dois mil exemplares), a Sociedade publica a série de revistas De Olho nas Origens, destinada a crianças de duas faixas etárias distintas, no nível do Ensino Fundamental; a série de revistas Ciências das Origens, destinada a estudantes de nível médio e superior; e séries de vídeos destinadas ao público em geral, com níveis diversos de escolaridade.

A Revista Criacionista, que, no início, como Folha Criacionista trazia apenas traduções de artigos de autores estrangeiros, orgulha-se hoje por contar com expressivo número de artigos de autores nacionais, altamente qualificados, tratando de temas bastante atuais. Encontra-se no site da SCB (www.scb.org.br) o Índice Temático dos artigos publicados nos números desse periódico, que atualmente cobrem de maneira ampla praticamente todas as áreas do conhecimento envolvidas, de uma ou outra forma, na controvérsia entre criação e evolução. A própria formatação desse periódico foi sofrendo aprimoramentos sucessivos no decorrer do tempo.

No início da década de 1990, a sede da SCB mudou-se para Brasília, e a partir de então começou um novo período na vida da Sociedade, no qual sucessivamente foram sendo feitos aprimoramentos na publicação da Folha Criacionista, foi dado início à publicação de vários livros, passou-se a publicar a revista De Olho nas Origens e a produção de vídeos com a mesma denominação, começaram a ser elaborados vários kits e cartazes didáticos, bem como teve início uma série de palestras de divulgação do criacionismo em vários locais do País, hoje totalizando onze seminários intitulados “A Filosofia das Origens”.

Deve ser destacada a colaboração cada vez maior recebida pela Sociedade para a realização de seus Seminários, provinda de órgãos superiores da administração da Igreja Adventista do Sétimo Dia no Brasil (Divisão Sul-Americana, Uniões Norte, Centro-Oeste, Leste e Sul, Associações do Rio de Janeiro e do Planalto Central) e no exterior (Geoscience Research Institute), e também de entidades outras como o GRI-Brasil e o Núcleo de Estudos das Origens (NEO), do Centro Universitário Adventista.

Fale um pouco mais sobre a sede da SCB em Brasília.


A transferência da sede da SCB para Brasília ocorreu ainda na informalidade, no ano de 1990. Então, a partir de novos incentivadores e apoios, foram sendo ampliadas as atividades da Sociedade e no ano 2000 foi efetivada sua formalização como entidade jurídica sem fins lucrativos, com 59 associados fundadores. Alguns anos depois, foi inaugurada a sua sede administrativa em sala própria no edifício do Deck Norte, em Brasília, e em 2004 foi inaugurado o seu Centro Cultural. Atualmente a Sociedade conta com aproximadamente 500 associados regulares e estudantes.

A ideia de se ter um Centro Cultural que operasse em conexão com o desenvolvimento das demais atividades da Sociedade esteve latente durante mais de dez anos, desde que a SCB transferiu sua sede para Brasília. Essa ideia surgiu inicialmente devido à necessidade de existirem espaços adequados não só para abrigar o volumoso acervo bibliográfico (livros, periódicos, publicações avulsas, cartazes e painéis) que foi sendo constituído ao longo de mais de três décadas de vida da Sociedade, como também para abrigar as coleções de rochas, minerais, gemas, fósseis, objetos e artefatos de interesse arqueológico, etnológico e antropológico, modelos ilustrativos de fundamentos básicos das ciências físicas e naturais, e espécimes de interesse para destacar o planejamento, o desígnio e o propósito na natureza.

Inicialmente, portanto, olhando para o passado, pensava-se na necessidade da existência de uma mistura entre Museu e Biblioteca, porém, aos poucos, foi sendo desenvolvida a ideia de também olhar para o futuro, agregando àqueles espaços uma estrutura que possibilitasse divulgação mais ampla e abrangente tanto dos acervos bibliográfico e museológico, quanto das atividades da Sociedade em seu processo de dinamização do conhecimento criacionista.

Optou-se, assim, pela implantação de um Centro Cultural que abrangesse os setores de Museu e Biblioteca e que incluísse uma infraestrutura de multimídia que possibilitasse a realização de palestras e cursos em um auditório, e também teleconferências e educação à distância.

Nesse Centro, têm sido realizadas palestras e exibidos vídeos de interesse para esclarecer pontos controversos sobre as origens, nas duas perspectivas antagônicas, criacionista e evolucionista. Também nele se realizaram vários cursos de capacitação em criacionismo, destinados a professores, pais e alunos que mostraram desejo de se aprofundar na questão.


Que eventos a SCB tem promovido atualmente?

A SCB tem promovido, desde o ano de 2002, seminários intitulados “A Filosofia das Origens” em várias partes do País, como Rio de Janeiro, Fortaleza, Campina Grande, Belém, Brasília, Cachoeira (Bahia), Curitiba, e no período de 4 a 6 de maio deste ano (2012) promoveu outro Seminário em Cochabamba, na Universidade Adventista da Bolívia, sendo esse o primeiro evento internacional da SCB. Está prevista para o próximo ano a realização de outros seminários em Porto Alegre, Belo Horizonte, Goiânia e também na Universidade Adventista do Peru.

[Nas fotos abaixo, os palestrantes do seminário de 2004, realizado no Rio de Janeiro.]


Esses Seminários têm tido como palestrantes membros associados e outros convidados pela SCB, altamente qualificados academicamente, e têm atingido um público diferenciado, que demonstra muito interesse para conhecer os fundamentos do criacionismo bíblico.

[Nas fotos abaixo, palestrantes e público do seminário de 2002.]


Desde a inauguração do Centro Cultural, têm sido realizadas palestras no seu auditório e exibidos vídeos de interesse para esclarecer pontos controversos sobre as origens, nas duas perspectivas antagônicas, criacionista e evolucionista. Também nele se realizaram vários cursos de capacitação em criacionismo, destinados a professores, pais e alunos que mostraram desejo de se aprofundar na questão.

A partir de mês de abril de 2012, está sendo atendida uma demanda específica vinda da Igreja da Asa Norte, em Brasília. Após uma visita pessoal ao Centro Cultural, o pastor Laércio Cardoso manifestou interesse em preparar oficiais e membros de sua congregação para enfrentar o desafio de evangelizar uma classe cujo perfil, especialmente na sociedade secular brasiliense, exige do evangelizador conhecimentos mais aprofundados sobre a questão das origens de todas as coisas e da controvérsia existente entre as teses da criação e da evolução. Iniciou-se, assim, mais um curso de capacitação com a inscrição de 31 oficiais e membros da Igreja. Foi adotado como livro-texto para o curso a publicação Em Busca das Origens – Evolução ou Criação?, tradução em português feita pela SCB do original impresso na Espanha pela Editorial Safeliz (casa publicadora adventista).

Cada inscrito, como nos cursos de capacitação anteriores, recebeu também previamente um roteiro de estudos preparado pela SCB, ressaltando e dando informações adicionais sobre aspectos de maior importância abordados nos trinta capítulos do livro. O curso exigirá quinze semanas, com a presença dos inscritos em todas as reuniões, com duração total de 30 horas (duas horas por semana). Em cada reunião, cada inscrito, tendo previamente seguido o roteiro de estudos para dois capítulos do livro, terá a oportunidade de esclarecer suas dúvidas, compulsar a bibliografia pertinente, discutir aspectos outros relacionados com o conteúdo dos capítulos, assistir a filmes ilustrativos sobre os temas abordados, trocar ideias e experiências entre si e gradativamente ir se preparando para o evangelismo pessoal com amigos em seu trabalho, colegas de estudos na universidade, familiares e demais possíveis interessados. Foi ressaltado, na primeira reunião, que esse aprofundamento de estudos criacionistas está intimamente conectado com a pregação da primeira mensagem angélica de Apocalipse 14: “Adorai Aquele que fez...” Foi deixado claro que a aceitação do Criador revelado na Bíblia é a pedra fundamental para a aceitação do relato dos primeiros capítulos de Gênesis, incluindo a instituição do sábado, a queda e o plano da redenção, que inclui o sacrifício de Cristo e Sua volta para a restauração de todas as coisas.


Promover o criacionismo ainda é importante? Por quê?

Sem dúvida nenhuma, a promoção do criacionismo é importantíssima, se desejarmos atingir especialmente as classes de maior nível acadêmico com a proclamação do Evangelho Eterno, conforme ressaltado na resposta anterior.

Quais os planos e desafios da SCB?

Principais planos:

1. Continuar a realização dos seminários “A Filosofia das Origens” e expandir sua cobertura para atingir todas as capitais e maiores cidades do País. Gradualmente, atingir também as capitais dos países da América Latina em que ainda não existam Sociedades Criacionistas.

2. Relativamente à produção de vídeos: completar a dublagem dos sete vídeos da série “Maravilhas da Criação”, que ainda faltam para inteirar 12 vídeos cuja autorização de direitos nos foi concedida. Reeditar os quatro vídeos da série “De Olho nas Origens”, aprimorando sua qualidade. Efetuar as dublagens de dois vídeos específicos, respectivamente, sobre “O Registro Fóssil” e sobre “Experimentos em Estratificação”. Completar os quatro vídeos da série “Do Ararate ao Araripe”, com a reedição da dublagem do vídeo “A Arca de Noé”, e o lançamento dos dois vídeos inéditos “O Geopark do Araripe” e “Geologia Diluvialista”, que, juntamente com o vídeo já produzido sobre a “Excursão ao Araripe” e o livro O Adventismo na Terra do Padre Cícero, comporão um kit para a colportagem.

3. Publicações: publicar nova edição do livro Estudos Sobre o Criacionismo, de Frank Lewis Marsh, em reconhecimento ao papel importante por ele desempenhado nos primórdios da SCB, e atualizando-o com notas de rodapé específicas. Publicar a “Apostila do Prof. Ritter” (Estudos de Ciência e Religião) em nova formatação, em reconhecimento ao seu valor histórico. Completar a publicação de mais quatro livros sobre a relação entre os caracteres chineses antigos e as revelações bíblicas (o primeiro já foi publicado em 2011 e o segundo já está em fase final de preparo para edição). Completar a série de livros sobre a “Origem Comum das Línguas e das Religiões”, com a publicação do terceiro livro, de autoria de Guilherme Stein Jr., monumental trabalho que se aprofunda na língua suméria. Reimpressão das Folhas Criacionistas de número 1 a 23, que estão esgotadas já há algum tempo, e reformatação de todos os números da Folha e da Revista que ainda não obedecem ao padrão atual.

Principais Desafios:

1. Olhando para o futuro, a Diretoria da Sociedade vislumbra a abertura cada vez maior que se apresenta para o desenvolvimento de suas atividades, não só pelo crescente entusiasmo de seus associados fundadores, como dos colaboradores que se têm manifestado mediante várias formas. E, ainda mais, pelo interesse demonstrado pelas suas publicações e atividades por um público diversificado e bastante qualificado, ao longo de todo o Brasil e até no exterior. Nesse sentido, tem sido observada a afluência de um número cada vez maior de inscrições de pessoas com boa formação acadêmica nos seminários “A Filosofia das Origens”, o que passa a exigir maiores esforços e dedicação da equipe de palestrantes e colaboradores para o atendimento às expectativas criadas. Realmente, os palestrantes e demais colaboradores que participam das atividades de publicações de livros, periódicos e vídeos não têm medido esforços para o sucesso de todas essas atividades, e um dos desafios da Sociedade é retribuir adequadamente essa colaboração de alguma forma mais efetiva.

2. Outro desafio é manter a continuidade de uma secretaria eficiente e expandir o atendimento a consultas de interessados de uma forma mais apropriada, organizando um banco de perguntas e respostas e também de cadastro de dados pessoais para o envio de um Boletim Informativo periódico para os interessados. E também dinamizar os sites da SCB, estabelecendo maior contato com os associados e interessados, bem como flexibilizando as aquisições de material pela Loja Virtual, possibilitando o uso de cartões de crédito em acoplamento com o sistema de emissão de Nota Fiscal Eletrônica.

A história do jovem Tarcísio Vieira é impressionante. Poderia mencionar outras?

Na realidade, pela correspondência que temos recebido, são muitas as pessoas que se têm manifestado a respeito de terem tido os olhos abertos para a importância de seu posicionamento pessoal quanto à controvérsia evolução versus criação, passando a entender que temos mesmo de lutar espiritualmente e diretamente contra as “hostes espirituais da maldade”, que tentam enredar os incautos nas malhas do agnosticismo e do ateísmo.

Há casos de pessoas que nos haviam escrito em situação de desespero pela confusão mental – ocasionada pela doutrina evolucionista tanto no ambiente escolar quanto na vida social, tão influenciada pelos modernos meios de comunicação – e que conseguiram se livrar dos paradigmas e estruturas conceituais evolucionistas, passando a entender de maneira mais profunda o conflito no qual estamos imersos.

Há casos, também, de verdadeiras “reconversões” ou reavivamento de pessoas cristãs que passaram a entender a conexão entre a pregação criacionista moderna e as últimas mensagens de Deus a um mundo que perece, conforme explicitado especialmente em Apocalipse 14:6-8.

Nestes quarenta anos de atividades de divulgação do criacionismo, têm sido gratificantes as experiências de pessoas que, graças à literatura que temos publicado, verdadeiramente se converteram e se tornaram grandes instrumentos nas mãos de Deus na pregação da mensagem adventista para o tempo presente. E, por tempo presente, entendemos esta época em que se proclama a mensagem de temor a Deus, dar-Lhe glória e adorá-Lo como Criador.

Podemos citar como um exemplo emblemático a conversão do irmão Ângelo Henrique Homem de Carvalho da Fonseca, que num dos primeiros seminários “A Filosofia das Origens”, realizado no Rio de Janeiro, ao ser perguntado à plateia se havia ali alguém que fosse ateu, havia se identificado, com mais outras duas pessoas, levantando a mão. Na ocasião, ele foi presenteado com um exemplar do livro Evolução – Um Livro-Texto Crítico. Alguns anos mais tarde, em outro seminário no Rio de Janeiro, uma pessoa nos procurou e disse: “Vocês se lembram daquele evento em que foi perguntado se havia algum ateu presente? Pois é, eu fui um dos que recebeu a literatura de vocês, e após a leitura daquela publicação comecei a me interessar pelo assunto, e depois de alguns anos fui batizado. Atualmente, sou diácono e professor da Escola Sabatina na Igreja Adventista do Botafogo.”

Tem havido maior interesse da igreja pelo criacionismo?

Cremos que sim. Por parte da administração superior da Igreja, notamos maior interesse mediante a participação e apoio dados em nível de Divisão para a realização de seminários “A Filosofia das Origens”, para a publicação da tradução da publicação do Geoscience Research Institute (GRI), “Ciência das Origens”, em português, e para a divulgação de nossos vídeos da série “De Olho nas Origens”, pela TV Novo Tempo. Em nível de União, o apoio dado para a realização dos seminários “A Filosofia das Origens”, em várias capitais, e em nível de Associações, o apoio local dado pela Associação Planalto Central para a realização do seminário “A Filosofia das Origens” em Brasília.

Por parte das igrejas, tem sido manifestado interesse para a realização de palestras e exibição de filmes, especialmente para clubes de Desbravadores e Aventureiros, e turmas de alunos de escolas da rede educacional adventista.

Por parte do Unasp, campus São Paulo, mediante a colaboração efetiva recebida do Núcleo de Estudos das Origens (NEO), e do Unasp, campus Engenheiro Coelho, a participação constante da coordenação brasileira do GRI.

Além do mais, numerosas igrejas locais têm trazido oficiais e membros para visitar o Centro Cultural e tomar conhecimento da produção de livros, periódicos e vídeos da SCB sobre temas relacionados com a controvérsia entre criação e evolução, que possam ser de seu interesse específico.

Fale mais sobre o papel do professor Ritter na consolidação do criacionismo no Brasil.

No trigésimo ano de vida da Sociedade Criacionista Brasileira, e da publicação de sua revista periódica – a Folha Criacionista –, foi publicado um artigo de autoria do professor Orlando Ruben Ritter, denodado defensor do criacionismo, por cujas mãos passaram centenas (e talvez milhares) de alunos, que em suas aulas sobre “Ciência e Religião” tiveram a oportunidade ímpar de ouvir sobre a consistência científica do criacionismo fundamentado na revelação bíblica.

Como já dito anteriormente, na “Semana da Cultura”, realizada em 1970 na Igreja Adventista do Sétimo Dia em São Carlos, providencialmente o professor Ritter esteve participando, pronunciando uma interessante palestra sobre “Datação com o Carbono Radioativo”. No fim dessa palestra, ele indicou também bibliografia crítica sobre o assunto, fazendo menção à Creation Research Society, entidade criacionista norte-americana, fundada então havia cerca de dez anos, e que vinha publicando seu Quarterly, revista trimensal com artigos muito bem fundamentados esclarecendo de forma primorosa numerosas pontos envolvidos na controvérsia entre as duas “visões do mundo”, a evolucionista e a criacionista.

O impacto desse seu contato em São Carlos com os hoje editores da Revista Criacionista inspirou-os a publicar em português pelo menos traduções dos artigos da revista da Creation Research Society, para divulgar em nosso país as teses criacionistas, com o firme fundamento bíblico, e, portanto, sob a “visão de mundo” criacionista, mas tratadas com as atuais ferramentas que a verdadeira ciência moderna põe à disposição dos pesquisadores.

Dessa forma, com o influxo inicial proporcionado pelo professor Ritter, e com o subsequente apoio da Creation Research Society, que autorizou a tradução dos artigos publicados em seu periódico, foi possível ser estabelecida informalmente a Sociedade Criacionista Brasileira com o lançamento do primeiro número da Folha Criacionista.

O senhor poderia destacar/pontuar os principais eventos, publicações, fatos que marcaram os últimos 40 anos do criacionismo no Brasil.

Em 1972, foi fundada a Sociedade Criacionista Brasileira em São Carlos, tendo inicio a publicação do seu periódico, a Folha Criacionista.

De 1986 a 1990, foi implantado e funcionou na OSEC o Núcleo de Pesquisas Bíblicas Guilherme Stein Jr. e foram então publicados com o patrocínio da OSEC os números 34 a 48 da Folha Criacionista.

A partir de 1990, a Folha Criacionista (a partir de 2002 designada Revista Criacionista), continuou a ser publicada diretamente pela própria Sociedade em Brasília, desde o número 49 até o número 72 em versão impressa, e dos números 73 a 85 em versão eletrônica (CD-ROM).

Em julho de 1998, foi lançado o site da Sociedade (www.scb.org.br) na internet, criado e mantido também pelo nosso associado Marcus Vinícius de Paula Moreira que, de longa data, vinha já contribuindo para o aprimoramento e expansão de nossas atividades. Hoje, esse site se desdobra em vários outros, referentes aos seminários “A Filosofia das Origens” (www.filosofiadasorigens.org.br), às matérias constantes da Revista Criacionista (www.revistacriacionista.com.br), aos filmes e DVDs produzidos pela SCB (www.tvorigens.com.br) e de um site específico para as crianças (www.deolhonasorigens.com.br), e são constantemente atualizados divulgando assuntos de grande interesse para quem deseja conhecer mais sobre a controvérsia entre criação e evolução.

Em 12 de agosto de 2000, foi formalizada a existência da Sociedade como entidade jurídica sem fins lucrativos, com seus Estatutos registrados em cartório, iniciando-se também o funcionamento da Loja Virtual no site www.scb.org.br. Nesse mesmo site, encontra-se cópia resumida dos Estatutos da SCB.

Dentre as inúmeras publicações que foram editadas pela SCB, podemos citar especificamente as seguintes que marcaram época:

Evolução – Um Livro-Texto Crítico (traduzido do alemão), em janeiro de 2002.

Em Busca das Origens – Evolução ou Criação? (traduzido do espanhol), em março de 2002.

Criação – Criacionismo Bíblico (traduzido do alemão), em 2007.

Publicações efetuadas pela SCB nestes últimos anos, divididas pelos quatro temas principais, editadas a partir de 1995 até 2012:

Coleção Criacionismo e Origens

Evolução – Um Livro Texto Crítico

Criação – Criacionismo Bíblico

Em Busca das Origens – Evolução ou Criação?

Em Seis Dias

Como Ensinar a seus Filhos a Harmonia entre o Criacionismo e a Ciência

A Origem da Vida por Evolução – Um Obstáculo para o Desenvolvimento da Ciência

O Engano do Evolucionismo

Coleção de Separatas sobre o Primeiro e o Segundo Princípios da Termodinâmica

História do Criacionismo Moderno

Estudos Sobre Criacionismo

Estudo em Ciência e Religião

Coleção Planeta Terra

A Geometria do Sistema Sol-Terra-Lua

A Esfericidade da Terra

Inventando a Terra Plana

Uma Breve História da Terra

Origem e Destino do Campo Magnético Terrestre

O Mundo de Nossas Pequenas Amigas – As Formigas

As Abelhas – Construtoras de Favos Perfeitos

As Maravilhas da Criação de Deus

Coleção Advento

O Sábado ou o Repouso do Sétimo Dia

Sucessos Preditos da História Universal

Prenúncios do Segundo Advento de Cristo à Luz da Ciência Moderna

Os Primeiros Observadores do Sábado no Brasil

Vida e Obra de Guilherme Stein Júnior

Centenário da Educação Adventista no Brasil

Primórdios do Criacionismo na Educação Adventista no Brasil

A Mudança dos Tempos e da Lei

Sir Isaac Newton – Adventista?

Estudos Cronológicos Relacionados com Daniel 8:14 e 9:24-27

Coleção Idiomas

Depois do Dilúvio

Um Tronco Comum para os Idiomas?

A Torre de Babel e Seus Mistérios

A Origem Comum das Línguas e das Religiões – O Tupi Tomo I

A Origem Comum das Línguas e das Religiões – O Tupi Tomo II

Dicionário de Raízes Primitivas

Estudo Comparativo do Japonês com as Línguas Ameríndias

A Descoberta do Gênesis na Língua Chinesa

O Relato da Criação nas Edições Católicas da Bíblia

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Na direção de Jesus

A história da corredora e modelo que abandonou a carreira para servir a Deus

Fábia Siqueira da Silva nasceu em fevereiro de 1985, em Campo Grande, MS. Cursou Publicidade e Propaganda no Unasp, campus Engenheiro Coelho, gosta de ler e praticar esportes. Atualmente, é secretária do Departamento de Publicações da Associação Catarinense da Igreja Adventista do Sétimo Dia, em São José, SC. Membro da Igreja Adventista do Estreito, em Florianópolis, Fábia trabalhou na agência Zoom, no Unasp, e como colportora por dois anos. Mas o que muitos hoje não sabem é que a moça foi campeã de corridas automobilísticas, sendo a única mulher na categoria, modelo e apresentadora de TV. Juntamente com o pai, Gernival, a mãe, Ione, e os irmãos, Phillip e Flávia, Fábia viveu uma experiência amarga que somente neste ano teve seu desfecho. Leia a entrevista abaixo, concedida ao jornalista Michelson Borges, para saber mais detalhes dessa história de fé, sofrimento, vitória e superação.

Fale um pouco sobre sua infância.

Quando eu tinha quatro anos de idade, meus pais abandonaram a Igreja Adventista, porém, continuei estudando no colégio adventista, o que me fazia frequentar ocasionalmente a igreja, isso até os meus 11 anos. Meu pai tinha uma das maiores revendas de veículos usados do Mato Grosso do Sul. Ele idealizou o primeiro “feirão de veículos” com transmissão em programas de rádio e televisão, o que fez a família ficar ainda mais conhecida no Estado. Sempre fui muito apegada a ele e cresci nesse universo.

Como foi seu ingresso nas corridas de automóvel e que títulos conquistou?

Entrei no automobilismo aos 16 anos. Em minha primeira corrida, conquistei o segundo lugar no pódio. A partir daí, comecei a disputar provas e campeonatos na categoria Hot Fusca (corrida na terra). Em 2003, disputei provas na categoria Fórmula Fusca, em Campo Grande, e Pick-up Racing (categoria nacional). Disputei provas no Paraná e no Rio Grande do Sul. Em 2004, Montei um fusca cor-de-rosa e deixei o cockpit do outro fusca para meu irmão. Disputamos o campeonato de 2004, juntamente com outros 15 pilotos. Na penúltima etapa, recebi o título de campeã, e na última corrida, Phillip (meu irmão) foi vice-campeão do campeonato.

Com o nome bem evidente na mídia e a experiência de vida já adquirida, recebi uma proposta para me candidatar a vereadora. Aceitei, porém, depois de uma semana de campanha nas ruas, descobri que o partido ao qual eu estava filiada estava “jogando sujo” comigo e decidi parar com a campanha.

Em 2005, encerraram-se as disputas de fusca em Campo Grande. Por conta disso, deixei o automobilismo e dividi meu trabalho entre a empresa do meu pai, a carreira de apresentadora de TV (com quadros sobre automobilismo) e apresentadora de shows de artistas famosos.

Qual foi a corrida mais marcante da sua carreira?

Em 2004, no ano em que fui campeã, participei de uma corrida muito emocionante. Larguei na frente e meu irmão largou em último, porque estava com um problema no carro. Um piloto quis me tirar da corrida logo na largada e bateu no meu carro. Na primeira curva, rodei na pista. Fiquei ali parada e todos os carros começaram a vir em minha direção. Tive a sensação de que iam bater em cheio na minha porta. Logo atrás, vinha meu irmão e temi que ele batesse em mim. Seria o fim da corrida para os dois. Assim que me viu parada, ele freou e jogou o carro de lado, parando bem do meu lado, na contramão. Olhamos bem no fundo do olho um do outro e fizemos o sinal de positivo: “Vamos acelerar.” Pisamos fundo e fomos conquistando posições. Naquela corrida, meu irmão terminou em primeiro lugar e eu, em segundo. Foi espetacular!

Como foi a experiência de correr num meio dominado por homens?

Quando entrei no automobilismo, passei a ouvir piadas como “mulher no volante, perigo constante”, que todo mundo já está com os ouvidos calejados de tanto ouvir. Mas, a partir do momento em que comecei a demonstrar meu lado profissional no automobilismo, as coisas mudaram e conquistei o respeito das pessoas. Sempre levei numa boa os gracejos. Nunca desrespeitei nenhum piloto por causa disso, pois todos ali são profissionais.

Você também atuou como modelo. Como foi isso?

Aos 13 anos, entrei em uma agência de modelos; fazia books, desfilava para algumas grifes e participava de alguns comerciais em Campo Grande. O meio artístico me chamava a atenção. Meu pai tinha um programa de rádio e de televisão voltado para a empresa, e eu atuava como repórter-mirim. Com a fama e as corridas, os convites foram mais frequentes.

Depois disso, você ainda voltou às pistas?

Em 2007, recebi uma proposta de assessoramento de uma empresa de marketing esportivo do Paraná para voltar a correr em uma categoria nacional. Pensava em ingressar na Stockcar Light, Pick-up Racing ou a Copa Clio. E, para conseguir finalizar esse projeto, fui até São Paulo, para uma reunião com o editor da revista Playboy, a fim de conseguir uma possível matéria. Essa reportagem me renderia grandes patrocinadores para o projeto. Porém, o diretor de redação disse que eu precisava voltar a correr para conseguir “soltar” a matéria. E quando eu voltasse a correr era necessário que fossem veiculadas reportagens em mídias nacionais.

Aceitei a proposta, voltei para o hotel e liguei o computador para passar o tempo. Como meu irmão e minha mãe tinham acabado de ser batizados, ele havia apagado do computador todas as músicas “mundanas” e gravou só hinos. Então, comecei a escutar os hinos da igreja mesmo. E me lembrei dos meus 10, 11 anos, de quando eu ia à igreja. As músicas e aquelas lembranças mexeram comigo e comecei a chorar. Chorei desesperadamente ali no quarto do hotel sem saber o que estava se passando. Perguntei para Deus o que Ele queria de mim e se o que eu estava fazendo era correto.

Cheguei em Campo Grande e continuei meu projeto. Consegui patrocinadores locais para comprar o kart e logo saíram as matérias nacionais que o diretor de redação pediu; inclusive uma delas foi capa do portal Terra. Até ali minha carreira estava como eu queria: decolando.

Fale sobre a crise que sua família enfrentou e sobre a decisão difícil que você teve que tomar.

A crise financeira mundial de 2008 fez com que a empresa do meu pai entrasse em dificuldades. Eu acreditava que minha carreira no automobilismo decolando seria uma das soluções para a crise na empresa. Pedi uma resposta para Deus. Estava na minha sala, ajoelhada e chorando, e clamei a Ele. A loja do meu pai estava indo à falência e eu precisava de uma resposta. E ela veio. É como se eu tivesse escutado uma voz dizendo: “Venda o kart.” Ai eu disse para Deus: “Vou anunciar meu kart; se vender, eu paro com as corridas; se não vender, eu continuo com o projeto.” Liguei para o meu preparador e disse que eu queria vender o kart. Ele usou de várias objeções para impedir. Fiquei em minha sala orando, quando, depois de 30 minutos, ele me retornou a ligação: “Está vendido. Passe à noite no kartódromo para pegar o dinheiro.”

Vendi o Kart, parei com o projeto e fui batizada em setembro de 2008. Meu pai foi rebatizado em seguida. Enfrentamos juntos toda a dificuldade financeira da loja, até novembro daquele ano, quando tivemos que encerrar as atividades.

Por que as corridas e alguns outros esportes não são compatíveis com o estilo de vida adventista?

A forma como eu estava me envolvendo nas corridas não estava certa. Como eu não tinha muitos recursos, usei outras estratégias de marketing. No automobilismo, ou você tem dinheiro para entrar, ou um bom padrinho, ou vai “na raça”; eu fui “na raça”. Os treinos também eram aos sábados. Além disso, por ser mulher e bem-sucedida nas corridas, a mídia passou a me dar muito destaque; fiquei famosa, e isso me “subiu à cabeça”. Dinheiro e fama constituem um caminho perigoso; tem que saber administrar bem isso.

Que rumo você deu à sua vida depois de abandonar a carreira no automobilismo?

O pastor da minha igreja me indicou a colportagem [venda livros religiosos, de saúde e de educação familiar] e me falou do Unasp. Em dezembro de 2008, fui colportar e, em 2009, fui para o Unasp, em Engenheiro Coelho, SP, juntamente com meu irmão. Esta foi minha boa rotina a partir dali: estudar e colportar para pagar os estudos.

Mas a vida da sua família sofreu uma reviravolta em 2010.

E que reviravolta! Com a quebra da empresa do meu pai, alguns clientes mal intencionados quiseram nos prejudicar. Em março daquele ano, o delegado de Campo Grande foi até o Unasp com um mandato de prisão para mim, alegando que eu seria uma “isca” para eles encontrarem meu pai. Já pensou nisso? Fui de Engenheiro Coelho até Campo Grande em uma viatura com o delegado, uma investigadora e um policial! Pelo menos, dentro da viatura eu falei do amor de Jesus, li O Grande Conflito, a Bíblia e pedi para o policial ouvir os hinos que eu colocava no meu iPod.

Chegando em Campo Grande, o delegado disse que estava me levando porque eu era o “xodó” do meu pai, e me informou que no mesmo instante em que fui presa, minha família também foi presa em Campo Grande. Fiquei cinco dias na cadeia. Minha irmã ficou 11 dias; meu pai12 e minha mãe 18.

Depois desse episódio constrangedor, fui colportar em Santa Catarina, em julho de 2010. Minha família foi com meu pai para uma fazenda, no interior do Estado, onde ele começou a trabalhar para nosso ex-contator.

Colportei três férias seguidas, e quando estava trabalhando, as coisas pioraram para meu pai. No mês de novembro, ele soube que a prisão dele havia sido revogada pelo Ministério Público, apesar de ele ter informado que a nova residência da família era na fazenda onde ele estava trabalhando como empregado. Quando o oficial de justiça esteve lá, o capataz ficou com medo e informou que meu pai não morava lá e que não sabia onde ele estava, o que resultou na revogação da liberdade provisória dele. Ele ficou refugiado na fazenda até que minha irmã desse à luz seu bebê. No mês de janeiro de 2011, meu pai, minha mãe e minha irmã mudaram novamente para Campo Grande. Ela deu à luz no dia 7 de janeiro. No dia 25, meu pai se apresentou para ser preso e foi encaminhado para o Centro de Triagem Anísio Lima, na Capital, onde permaneceu até o dia 19 de novembro.

Qual foi a acusação contra seu pai e contra você?

Respondemos processos por estelionato e formação de quadrilha.

Em que condições seu pai ficou preso?

No início da minha prisão, ele ficou em uma cela que media 3m x 3m, com 21 detentos, pessoas tremendamente revoltadas e dependentes de drogas. Meu pai aproveitava o banho de sol de uma hora para correr e respirar ar puro. Muitos debochavam dele, porque aproveitava todo o tempo para ler a Bíblia. Após 21 dias nessa situação, ele foi transferido para outra cela. Ali ele tinha tempo livre das 8h às 14h e começou a dar estudos bíblicos para um detento que havia tentado o suicídio. Depois, meu pai continuou o trabalho com mais 16 homens. Após realizar vários estudos bíblicos no pátio, diariamente, a direção do Centro de Triagem lhe cedeu uma sala para ele continuar ministrando os estudos bíblicos. De forma direta, meu pai levou a mensagem do evangelho para quase 40 pessoas, e de forma indireta, para toda a comunidade carcerária, já que acabou recebendo a responsabilidade de ser o capelão da cadeia.

Aquele trabalho de evangelismo resultou em algo que meu pai julgava impossível: converter para Jesus o chefão dos presos e o maior usuário de drogas dali, Valdeir Rezende. Resumindo a história: esse homem hoje ministra as aulas bíblicas em lugar do meu pai! Hoje Valdeir se prepara para ser batizado juntamente com a esposa, que o visita todos os domingos.

O que aconteceu depois, com você e sua família?

Em junho de 2011, fui chamada para trabalhar como secretária do Departamento de Publicações da Associação Catarinense da Igreja Adventista, onde estou até hoje. E para minha felicidade e da minha família, no dia 19 de novembro de 2011, tivemos a alegre notícia de que minha família e eu fomos absolvidas de todos dos 25 processos que estávamos respondendo por estelionato e formação de quadrilha.

Você experimentou a fama e a humilhação. Depois de passar por tudo isso, qual é a sua avaliação?

O mundo lá fora é muito atrativo e mascarado: festa, glamour, gente famosa, pessoas bonitas. A mídia prega isso. Hoje em dia, tem gente que paga para estar em evidência. Depois, essas pessoas vão se tornando avarentas, arrogantes e gananciosas, sem saber que fama e dinheiro não duram para sempre. É por isso que existem vários casos de famosos que, quando saem da mídia, se suicidam; é porque ficam no esquecimento. São pessoas vazias por dentro e sem esperança; não sabem de onde vieram, para onde vão, nem mesmo sabem por que vivem.

Quando perdemos tudo, ficam as experiências e as lembranças, mas temos que cuidar para não olhar muito para trás e cair. Minha mãe sofria de depressão. Depois que a loja quebrou, meu pai também começou a enfrentar esse mal. Os dois estiveram à beira da morte.

Eu estava acostumada a chegar nas melhores festas de Campo Grande, encostar meu Audi A3 e ficar na roda dos “bacanas”, bebendo meu champanhe ou uísque. Se não fosse a falência da empresa, acho que jamais meu pai e eu teríamos nos aproximado de Deus. Nossa vida era muito boa e cômoda. Mas a partir das dificuldades nos colocamos nas mãos de Cristo e procuramos aceitar toda provação, entendendo que seria importante para o nosso crescimento e transformação. Foi aí que, nas dificuldades e adversidades, criamos oportunidades para pregar esperança.

Depois de passar por tudo isso, aprendi que o mais importante é Deus e minha família. Abro mão de tudo para tê-los por perto.

Quais são seus projetos de vida atualmente?

Coloco-me todos os dias nas mãos de Deus e deixo que Ele pilote para mim. Minha família e eu nos preparamos diariamente para a volta de Jesus; queremos pregar o evangelho. A comunicação faz parte de nós, e agora vamos usá-la para Jesus. Além disso, não queremos pagar com mal o mal que nos fizeram; queremos, em nome de Jesus, poder pagar todo o prejuízo sofrido por nossos antigos clientes.

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Comprometido com Cristo

Juiz fala de sua conversão e de como utiliza sua influência para falar da verdadeira liberdade

Vanderlei de Oliveira Silva, 40 anos, é juiz de Direito do Juizado Especial de Belém, PA. Casado com Wanderly de Oliveira Alencar, tem dois filhos, Mayara e Matheus. Depois de convertido, ele estabeleceu o firme propósito de usar sua influência para evangelizar e levar a mensagem de salvação aos detentos, ajudando-os a ser reintegrados ao convívio social. O Dr. Vanderley começou atuando no município de Chaves, na Ilha de Marajó. Depois foi transferido para Itaituba, no extremo sul do Pará. Em seguida, foi para Itupiranga, de onde foi chamado para Viseu, a 350 km de Belém, permanecendo lá por nove anos. Agora ele reside e atua na capital do Pará, onde foi promovido a juiz de terceira entrância, cargo final na magistratura. Nesta entrevista, concedida ao jornalista Michelson Borges, durante um congresso de jovens em Belém, o Dr. Vanderley partilha um pouco de sua experiência e suas lutas.

Na juventude, o senhor acabou se afastando de Deus. O que o trouxe de volta?

Tive o privilégio de ter tido uma educação cristã muito saudável, embora vivendo numa situação de pobreza e humildade. Mas com o tempo acabei me afastando de Deus. Quando nasceu minha primeira filha, fiquei preocupado com a formação dela, já que eu estava fora da Igreja. Que futuro e base moral eu poderia dar a ela? Tive então que me afastar dos amigos com os quais bebia e ia a festas. Alguns debocharam da minha decisão, dizendo ser ilógica para um jovem juiz que deveria “aproveitar a vida”. Graças a Deus, hoje os colegas me chamam mais de “pastor” do que de juiz, e os deboches cessaram. Muitos me procuram para pedir orientação e até mesmo literatura cristã. Isso porque minha postura no trabalho é a mesma que tenho na igreja: sou um missionário.

Que conselho o senhor dá ao profissional que quer testemunhar em seu ambiente de trabalho e conquistar credibilidade?

Tudo se resume nas palavras compromisso e perseverança. Num primeiro momento, os “torpedos” vêm de todos os lados. Passei por situações não somente de escárnio, mas até mesmo de ameaça de morte. Implantamos igrejas em algumas comunidades, com a ajuda de presos que já haviam sido batizados. Isso contrariou outras religiões, já que o juiz da Comarca era agora um “pastor” que estava evangelizando, usando inclusive o fórum como “palco” de evangelismo. Eu tinha menos de um ano de batizado quando fiz esse evangelismo em Vizeu. O principal jornal da cidade denunciou meu trabalho, alegando que eu estava utilizando os detentos para construir igrejas para mim, com objetivo mercenário. Isso foi parar no Tribunal e gerou processos e representação na Procuradoria da República.

Satanás utilizou vários instrumentos para me fazer desistir. Certa ocasião, uma multidão chegou a cercar o fórum; quebraram vidros e gritaram que eu devia morrer. Era ano eleitoral no município e alguns conseguiram dar conotação política à situação. Chamaram-me de “juiz corrupto”, “pastor ladrão”. Meu nome foi ridicularizado na TV e nos jornais. Movi alguns processos criminais e de indenização por danos morais, mas não chegaram a lugar algum. Prescreveram pelo tempo que se passou. Contratei três advogados, mas entendi que Deus tinha uma vitória muito maior para mim. Uma das pessoas que me atacaram, uma advogada, anos depois se retratou publicamente e, durante um seminário de que participávamos, entregou-me uma carta escrita a mão, pedindo-me perdão, dizendo que a carga que carregava era muito grande. Eu disse a ela que já a havia perdoado antes de ela me pedir. Os olhos dela se encheram de lágrimas.

As vitórias que o Senhor me concedeu foram concretizadas com centenas de pessoas tomando a decisão pelo evangelho. Dois municípios puderam ser alcançados e muitas autoridades do Executivo e do Legislativo tiveram oportunidade de conhecer a mensagem cristã de forma direta e clara.

Minha promoção teve que ver com esse meu comprometimento social e com a justiça. O presidente do Tribunal disse que eu era um “referencial de exemplo na magistratura paraense” e que “a magistratura se sente honrada pela minha presença entre eles”. Quando fui transferido para a capital, houve uma comoção diferente em Viseu. As pessoas não queriam mais que eu saísse. Deus foi honrado e tenho profunda gratidão a Ele. E essa gratidão se expressa num compromisso cada vez maior com a obra de Deus.

Como o senhor aplica os princípios do evangelho em sua profissão?

Por exemplo, como falar de sugurança pública – grande problema atual – sem falar da segurança maior que encontramos em Jesus? Certa vez, apresentei palestra para um grupo de 300 delegados de polícia e falei sobre a conexão entre o Poder Judiciário e a Polícia. Disse que Deus é a única pessoa que encarna estas duas figuras: a figura do delegado, como agente de investigação do fato, do crime; e a figura do juiz, enquanto consumador da justiça. Nessas duas visões, Deus nos transmite algo sublime, extraordinário, que delegados e juízes precisam compreender: a visão de que a investigação e a aplicação da justiça têm como finalidade principal a redenção, a restauração do indivíduo. Para Deus não existe o que na linguagem policial é conhecido como “pirão perdido”. Para o Criador, nenhum caso é perdido. Se juízes, promotores e policiais encararem as coisas dessa maneira, essa visão vai impregnar de tal forma os discursos, a abordagem nas audiências ou nas investigações, até mesmo no momento de lavrar a sentença, que isso vai fazer toda a diferença no trato com as graves questões sociais que vivenciamos.

Além de manter minha postura cristã aberta, tenho tido oportunidade de distribuir Bíblias e livros como o Vida de Jesus para muitos magistrados. Deixo claro para eles que o Código Penal é importante, mas que acredito que a Bíblia deveria ser o livro de cabeceira de todo juiz. Graças a Deus, tem havido muitas conversões devido a essa minha postura de comprometimento.

Voltando à questão da sua conversão, compare sua vida antes e depois de retornar para Jesus.

Embora tivesse consquistado posição social, estabilidade financeira, uma boa família, a casa dos meus sonhos e privilégios e vantagens da profissão, nada disso me satisfazia, já que o problema estava dentro de mim. Eu sentia angústia, sofrimento de alma, e o que havia conquistado não trazia sentido à minha vida. Houve sufocamento do meu ser, miséria em meu lar e estrangulamento da vida conjugal. Quando me converti e voltei para a igreja, meu casamento melhorou significativamente. O comprometimento com Cristo afeta todas as áreas da vida, inclusive a profissional. Deus me levou a galgar novos horizontes e me sinto um profissional plenamente realizado agora. Posso ajudar as partes conflituosas num processo levando o enfoque espiritual e tenho conseguido inúmeras reconciliações e acordos, pois toco na “ferida”, mostrando a origem dos problemas, fazendo a pessoa repensar sua existência. No caso de separação e divórcio, tem sido possível conseguir algumas reconciliações com esse enfoque. Uso as audiências para mostrar que o evangelho é a solução definitiva para os problemas humanos.

No que diz respeito à minha vida financeira, assumi um pacto com Deus de fidelidade nos dízimos e ofertas. É impressionante que o dinheiro que eu utilizava integralmente para as minhas necessidades pessoais absolutamente não daria para o que faço hoje. Certa vez, um promotor amigo meu esteve em minha casa e perguntou qual era a fonte da minha prosperidade (ele pensava em uma fonte clandestina desonesta). Disse para ele que a fonte era Deus e contei meu testemunho. Ele ficou ainda mais impressionado quando lhe disse que faço a declaração de Imposto de Renda corretamente, sem usar de subterfúgios para receber maior restituição. E completei dizendo que aparentemente a desonestidade pode nos trazer vantagens, mas no fim das contas é uma maldição terrível que coloca abaixo os principais valores da vida.

Fale sobre seu trabalho de evangelização de detentos.

Tudo teve início a partir da vontade de fazer algo verdadeiramente eficaz quanto ao resgate da cidadania dos marginalizados. Sobretudo, diante da falência do sistema penitenciário, que não consegue reeducar e muito menos ressocializar homens e mulheres encarcerados. Inicialmente, promovemos uma classe de estudos bíblicos na Delegacia de Polícia de Viseu, envolvendo jovens desbravadores. Na ocasião, mais de vinte detentos foram evangelizados e muitos deles foram batizados.

Ao longo de seis anos de trabalho missionário, somente naquela cadeia pública, mais de 50 presos tomaram a decisão de seguir a Jesus e foram batizados. Os primeiros detentos convertidos empenharam-se voluntariamente na construção do primeiro templo da Igreja Adventista na cidade de Viseu. Ao cabo de quatro meses de intenso trabalho, concluímos a construção da igreja com capacidade para 300 pessoas. A influência desse trabalho tem motivado outros irmãos a se empenharem na evangelização de presidiários em outras penitenciárias, presídios, cadeias e centros de recuperação.

Conte duas histórias marcantes desse trabalho.

A primeira se refere a G. F. S., que se envolveu em um crime hediondo, tendo assassinado o próprio cunhado com mais de trinta golpes de facão. Quando estava preso, ele conheceu o evangelho e ali na cadeia foi batizado, tendo tomado a decisão de que quando fosse libertado se dedicaria a levar pessoas a Jesus. Em seu julgamento no Tribunal do Júri da Comarca, a igreja permaneceu 18 horas (tempo que durou a sessão) em oração intercessória. Um milagre aconteceu: os jurados consideraram G. F. S. culpado apenas por crime de homicídio culposo (não intencional), e por força dessa decisão ele recebeu pena de três anos de prisão. Pouco tempo depois, foi beneficiado com livramento condicional, tendo reconquistado a família através do evangelho, levando todos a Jesus. Atualmente, ele exerce atividades missionárias na igreja e trabalha na comunidade em que vive, procurando resgatar outras pessoas escravizadas pelo pecado.

A segunda história é a do jovem A. S. P., praticante de bruxaria, magia negra e macumba, que tinha um terreiro onde se empenhava no “tratamento” de pessoas enfermas, por meio de rituais satânicos. Ele foi preso em razão de ter se envolvido em crime contra o respeito aos mortos, já que mandou desenterrar um bebê recém-nascido do cemitério público da cidade de Viseu e, em seguida, o colocou em um buraco aberto no centro do terreiro onde já havia cobra e urubu envoltos em sangue de boi e mel, pois pretendia obter mais “poder” em suas atividades espirituais.

Na prisão, o jovem, que também mantinha relações homossexuais no terreiro, era rejeitado por todos, inclusive por algumas pessoas que se diziam evangélicas e que visitavam frequentemente a delegacia, as quais se referiam a ele como sendo um “verme humano; alguém tão vil que nem mesmo Deus poderia perdoar”. Quando A. S. P. conheceu Jesus graças ao trabalho missionário desenvolvido pelos jovens da Igreja Adventista, ele se convenceu de que Deus o amava e ainda havia solução para o seu caso. Tomou a decisão, foi batizado e quando recebeu liberdade, constituiu família. Hoje ele vive para testemunhar do grande amor de Deus manifestado na transformação de sua vida.

Como deve ser feito esse trabalho com encarcerados e que cuidados se deve tomar?

Deve ser feito com muito zelo e seriedade, consciente de que aquelas pessoas são, sobretudo, vítimas da saga assassina do diabo contra os seres humanos. Como primeiro passo, procure cadastrar na Superintendência do Sistema Penal uma equipe de, no máximo, cinco pessoas comprometidas com o evangelho, para cada presídio ou penitenciária, cuidando para que as mulheres tenham contato tão somente com as presidiárias, exatamente para evitar assédios que são frequentes nesse tipo de ambiente poluído por toda sorte de promiscuidade. Sejam assíduos nas reuniões. É preciso adotar alguns cuidados, tais como: (1) procure não se envolver sentimentalmente com o detento; (2) se você não for advogado, não se envolva com a questão processual do preso; (3) seja criterioso com relação a servir como “pombo-correio”. E tenha plena certeza de que ao se dispor a trabalhar nessa grandiosa missão, o Espírito Santo o capacitará e lhe concederá grandes vitórias em sua vida pessoal, em sua família e também na experiência da libertação espiritual de homens e mulheres escravizados pelo pecado e pelo crime.

terça-feira, outubro 11, 2011

Perdido dentro da Igreja

Pastor e conselheiro familiar fala sobre o que o levou a se afastar de Deus na juventude, a influência do rock e da televisão, e como ocorreu sua conversão

Marcos Faiock Bomfim nasceu em Taquara, RS, em 1963, como o mais velho de uma família de três irmãos. Viveu praticamente toda a infância e juventude em São Paulo, onde se formou em Teologia, em 1985, no então IAE, hoje Unasp. Concluiu o mestrado em Teologia em 1998, no Unasp, campus Engenheiro Coelho, e fez pós graduação em Terapia Familiar, em Porto Alegre. Ainda durante o bacharelado em Teologia, foi professor de Musicalização Infantil e maestro de corais em escolas adventistas de São Paulo. Enquanto estudava Trompa, na Escola Municipal de Música de São Paulo, participou em orquestras, bandas sinfônicas e conjuntos de câmara. Com o Coral Acasp e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, participou de cantatas, oratórios e outras peças.

Depois de formado em Teologia, trabalhou como pastor distrital durante nove anos, na Grande São Paulo. Por vários anos liderou os departamentos de Mordomia Cristã e Ministérios da Família em Associações da União Sul-Brasileira e na própria União, de onde, em 2011, foi chamado para liderar o mesmo departamento em nível sul-americano. Bomfim também é o apresentador do programa diário “Novo Tempo em Família”, da Rede Novo Tempo de Rádio.

É casado com a pedagoga Mariluz da Silva Bomfim e tem duas filhas, Luana e Alana.

Nesta entrevista, concedida a Michelson Borges, ele fala das lutas pelas quais passou na juventude e de como se converteu, após um período de afastamento de Deus.

Mesmo tendo nascido em lar adventista, o senhor esteve um tempo afastado de Deus. Como isso aconteceu?

Às vezes acontece que filhos criados em lares ativamente empenhados na nutrição espiritual dos seus membros se afastem de Deus. Mas não são felizes longe dEle. O Espírito Santo fica trabalhando na consciência e o prazer do pecado acaba deixando certo “amargo na boca”. No meu caso, havia uma inconstância muito grande em minha vida espiritual. Ora deixava me influenciar pelo lar, pelo colégio (IAE) e pela igreja; ora pelos amigos ou companheiros. Tentando me tornar aceito pelo grupo de amigos, acabei fazendo concessões e comprometendo princípios.

O que o atraía no “mundo”?

Tendo nascido na igreja, nunca estive, por assim dizer, “no mundo”. Nunca saí ostensivamente da igreja, nem bebi ou fumei, ou coisas do gênero. Para falar a verdade, o “mundo” nem me atraía tanto assim. No fundo, queria estar em paz com Deus, e por isso também não queria me afastar da igreja. E nem se quisesse poderia, porque meus pais faziam “marcação cerrada”!

Como era essa “marcação cerrada”?

Vou dar um exemplo. Na adolescência, comecei a imaginar que a exigência de levantar me cedo todos os dias para o culto familiar não passava de um capricho da parte dos meus pais. Também queria frequentar uma igreja vizinha, em lugar de ir à igreja com meus pais. Na verdade, eu queria mesmo era ficar do lado de fora, encostado nos carros dos amigos conversando e paquerando, longe de qualquer vigilância. Sabedor disso, meu pai certa vez me procurou, em um sábado pela manhã, e disse: “Você nos foi dado por Deus, como um empréstimo, pelo tempo em que ficar nesta casa. Gostamos muito que você fique aqui, e gostaríamos de poder sustentá-lo enquanto precisar. Mas como esta casa é regida pelos princípios de Deus, enquanto estiver aqui (e queremos que fique) você precisa se submeter a esses princípios. Esta também é sua casa, mas os princípios que a regem foram escolhidos por mim e sua mãe, quando nos casamos. Hoje você já está definindo os seus princípios, que um dia poderão ser diferentes dos nossos. Mas, por causa da responsabilidade que temos diante de Deus em relação a você, estou lhe pedindo para ir à igreja conosco e levantar se para os cultos da manhã. Peço que faça isso por nossa causa, porque, como pais, temos que responder diante de Deus por nossas atitudes em relação a você. Agora, se você vai à igreja para adorar a Deus ou não, isso já é com você. É você quem presta contas disso diante dEle.” E, estendendo a mão, com voz pacificadora, meu pai prometeu: “Depois que você sair de casa e se sustentar a si mesmo, prometo que nunca mais lhe falo de Deus, da Bíblia, de cultos ou da igreja.”

Forçado por esse “abuso do poder econômico”, senti me obrigado a estender a mão. Sei que Deus utilizou essa experiência para me manter perto dEle e um pouco mais longe das distrações dos meus companheiros.

Como você acabou se interessando pelo estilo de música rock?

Certa vez, contra a vontade de meu pai, fui acampar por cerca de quatro dias com um grupo de jovens. Todos cantávamos em um dos corais da igreja, mas como o acampamento era independente (sem a supervisão de líderes da igreja), praticamente não havia adultos com coragem para se posicionar e que se responsabilizassem pela manutenção dos princípios espirituais. Meu pai me havia deixado ir, depois de muita insistência de minha parte, porque não sabia de toda a verdade acerca do acampamento.

Durante todo o tempo, dia e noite, música rock era tocada em volume muito alto. Não tenho lembranças de serviços espirituais ou de culto. No primeiro dia, quase não pude suportar a experiência de ouvir aquela música, já que em casa estava habituado apenas à música cristã ou clássica. No fim do segundo dia, minha mente já estava mais acostumada com a batida, e ao terceiro dia já encontrava verdadeiro prazer naquilo que antes me causava repulsa. Desse modo, o rock foi para mim a porta de entrada para a música popular.

Qual o problema com esse tipo de música?

O rock, bem como outros tipos de música muito ritmada, tende a levar o indivíduo a estados pré hipnóticos, por causa da batida cadenciada. Se isso ocorrer, dependendo do volume do som e do grau de envolvimento, o indivíduo acaba sendo prejudicado em sua capacidade decisória, no juízo crítico e no raciocínio lógico. É nessa hora que os impulsos mais baixos tomam as rédeas e isso é a senha para que espíritos satânicos assumam completamente a direção. Já o Espírito de Deus trabalha de modo diferente. Sua atuação ocorre de modo mais eficaz quando a mente está na sua melhor sensibilidade perceptiva, livre de influências que diminuam a capacidade de raciocínio lógico do indivíduo. É por isso que, além de não escutar esse tipo de música, o cristão também não deveria utilizar drogas, álcool, nicotina ou cafeinados, porque tudo isso prejudica a clareza mental.

Mas, voltando à música, além da pré hipnose, a letra da maioria dessas músicas, o estilo de vida dos artistas e suas crenças são uma mal disfarçada tentativa de impor os valores do império das trevas. Alguns desses músicos inclusive já confessaram que compunham diretamente sob inspiração satânica, e este fato é fartamente comprovado em literatura sobre o assunto. Outros, infelizmente, ignoram o poder que os move, mas quem estuda a Bíblia não precisa ficar ignorante: “Pelos seus frutos os conhecereis”, disse Jesus.

E as demais músicas populares? Também são assim tão nocivas?

Eu estenderia o mesmo raciocínio para boa parte da música popular. Existem pessoas que recuariam horrorizadas diante de um rock pesado, mas passam horas e horas escutando inocentemente música popular. Ouvem sem prestar atenção, imaginando que não há perigo algum nisso. Mas se esquecem de que Satanás é um ser real, muito inteligente, e que nunca perde tempo. Ele sabe que música é algo que mexe profundamente com os sentimentos do ser humano; sabe que tipos diferentes de acordes, dispostos em sequências e ritmos diferentes, podem produzir sentimentos que influenciam a mente para aceitar o pecado ou para se afastar de Deus; sabe que esses sentimentos, se repetidos, fixam padrões de conduta ou resposta. Assim, é importante saber que o que entra no cérebro humano pelos sentidos influenciará de algum modo, para o bem ou para o mal. O conceito teológico do Grande Conflito nos revela que neste mundo simplesmente não existe coisa alguma absolutamente neutra.

Além disso, existe o fato de que essas músicas são compostas e apresentadas por pessoas que não têm o menor compromisso com Cristo. Por isso, a grande maioria das letras não apenas desconhece a Deus, mas de maneira sutil (utilizando às vezes processos subliminares) ou mesmo aberta, introduzem na mente dos ouvintes o sistema de vida do inimigo de Deus.

Quando comecei a me voltar para Deus, todas essas ideias me levaram a abandonar o rock, mas continuei apreciando a música popular (brasileira e internacional). Ouvia na casa dos meus amigos ou em lojas especializadas, porque, como disse anteriormente, meus pais não permitiam que as escutasse em casa. Eu achava isso uma exigência exagerada da parte deles. Mas, com o passar do tempo, percebi claramente que esse tipo de música, apesar de não ser aparentemente tão agressivo quanto o rock, tirava me quase que completamente o gosto pelas coisas de Deus, e diminuía muito minha resistência contra o pecado.

E o que dizer das músicas sacras com estilo pop?

Abandonar a música popular representou para mim uma luta muito grande. Talvez seja por esse motivo que tenho hoje sérias dificuldades para adorar a Deus quando ouço na igreja música tipicamente popular, com letra sagrada. A música popular, por suas próprias características musicais, tende a privilegiar mais o movimento corporal, o prazer sensorial e os instintos mais baixos em detrimento da introspecção, da razão e do raciocínio lógico, essenciais para a comunhão com Deus. Não podemos nos esquecer de que, depois da queda, nossos instintos passaram a estar sob influência da natureza pecaminosa.

Já a verdadeira música sacra apela aos instintos mais nobres, como o da busca do espiritual, por exemplo, e isto requer introspecção, paz. Esse tipo de música, talvez por estar em oposição à nossa tendência pecaminosa, acaba sendo naturalmente muito menos atrativo à pessoa que não possui discernimento espiritual. A confusão acontece quando existe a mistura dos dois elementos – música popular com letra sagrada. Acontece então uma falta de integridade, uma inconsistência entre a letra e a música. A música “fala” uma coisa e a letra, outra. O cérebro percebe essa incoerência, que pode ser transferida também para a vida espiritual. O próprio Espírito Santo não pode trabalhar e, então, como diz Ellen White, as mesmas verdades que deveriam converter, podem acabar endurecendo (cf. Testemunhos Seletos, v. 2, p. 291).

Por experiência descobri que não pode haver harmonia entre a luz e as trevas. “Não toqueis em coisas impuras; e Eu vos receberei, serei vosso Pai, e vós sereis para Mim filhos e filhas, diz o Senhor todo poderoso” (2 Coríntios 6:17, 18).

Você também gostava muito de televisão. Como a televisão prejudica a espiritualidade do cristão?

Existe um princípio básico que rege o funcionamento da mente humana, que afirma que ela simplesmente não consegue resistir à repetição. Tente, por exemplo, não pensar no resto da frase que eu vou começar: “Água mole em pedra dura...” O simples fato de você provavelmente ter completado mentalmente esse provérbio popular é uma demonstração de que a repetição da frase já marcou seu cérebro, e você não pode mais tirar essa informação de lá.

Esse é um princípio que pode ser utilizado tanto por Deus quanto pelo inimigo. Sobre esse princípio apoiam se todos os sistemas de lavagem cerebral, como as mensagens subliminares, por exemplo. Você pode escolher conscientemente o que vai influenciar sua mente, mas depois de estar exposto a essa influência, sua capacidade de resistir a ela fica muito reduzida. Satanás, que é um profundo estudioso da mente humana, serve se da TV e outras mídias para criar emoções e prender a atenção, prejudicando a capacidade de escolha. É por isso que muita gente acaba se sujeitando a ver coisas com as quais não concorda. Parece que não conseguem desligar a TV ou sair de um site. Tudo que emociona ou choca, sejam novelas, filmes, seriados, jornais ou até programas esportivos, acabará, por assim dizer, fortalecendo as sinapses (ligações entre os neurônios) correspondentes, que finalmente se tornarão no caminho mais fácil e natural para um dado impulso nervoso.

É assim que o pecado se torna mais automático e natural que a santidade. Dessa maneira, martelando sua ideologia na mente dos incautos, Satanás consegue vendê la ao preço que quiser. E acaba custando muito caro. Às vezes a família; outras vezes a honra, a saúde ou mesmo a salvação.

Conte como foi a sua conversão.

Certo dia, quando, de namoro a estudos, nada estava dando certo em minha vida, entre brincadeiras e conversas dentro da igreja, ouvi um pregador que tentava provar à congregação que a Bíblia era mesmo um livro de origem divina. Já que intimamente também punha em dúvida a origem da Bíblia, a ousadia do pregador despertou me a atenção, e escutei, talvez para que depois pudesse ridicularizar seu raciocínio. Depois de falar do cumprimento das profecias que envolvem o fator tempo, desafiou: “Se sua vida vai mal (era o meu caso) e você quer descobrir se a Bíblia é mesmo o livro de Deus, faça um teste: comece a lê-la todos os dias e procure obedecer a tudo o que Deus lhe mandar. Se sua vida continuar a mesma ou piorar, então desista da Bíblia e de Deus. Mas se a vida começar a melhorar depois disso, não será uma evidência da existência do poder que lhe deu origem?” Eu pensei: “Por mais que, com minhas próprias forças, eu queira fazer minha vida melhorar, ela piora cada vez mais.” Naquele momento, percebi que minha vida só poderia melhorar com auxílio sobrenatural. O pastor também desafiou todos a orarem secretamente e a esperar por respostas.

Tudo aquilo me fez refletir, e resolvi começar a ler a Bíblia por mim mesmo. Comecei por Gênesis e encontrei profundo prazer na leitura, tentando descobrir toda e qualquer ordem de Deus para que então pudesse obedecer. Comecei também a orar e a fazer pedidos a Deus. Fazia tudo secretamente, porque não queria despertar expectativas ou possíveis cobranças por parte das outras pessoas. Mas muito rapidamente constatei minha fraqueza e incapacidade para cumprir aquilo que descobria ser a vontade de Deus, e fiquei muito desanimado. Minha vontade não estava em harmonia com a do Céu. Sabia o que Deus queria que eu fizesse, mas não encontrava prazer em obedecer. Imaginei que, como era muito fraco, as coisas espirituais não eram mesmo para mim.

Foi então que ouvi também um sermão do pastor Alejandro Bullón, dizendo que ninguém precisa esconder de Deus suas fraquezas, e que a gente pode até dizer para Deus que está gostando do pecado, porque Ele sabe de tudo e nos ama mesmo assim. É Ele, pelo Seu poder, “quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Filipenses 2:13). O pastor falou também que o ramo, em lugar de se esforçar para produzir o fruto, concentra esforços em permanecer ligado à videira. Assim, descobri o grande segredo, e parei de ficar olhando apenas para os meus pecados e fraquezas, tentando me tornar santo pela minha própria obediência, e comecei a olhar para o Senhor, para a santidade dEle, diariamente, pela manhã, e “em primeiro lugar” (Mateus 6:33).

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