quinta-feira, agosto 17, 2017

Epigenética, saúde, evolução e a Bíblia

Flavio Ahmed Soliz nasceu na Bolívia, em 1954, originário de uma família católica. A mãe faleceu quando ele era pequeno, acometida de cisticercose. Expulso da escola católica, foi matriculado pela irmã em uma escola adventista, o que representou uma guinada na vida dele. Na universidade, estudou dois anos de Física, mas uma missionária lhe disse que ele tinha mais que ver com Medicina e deveria mudar de curso. Ele aceitou o conselho e se formou pela Faculdade de Medicina de Montemorelos, no México. Lecionou bioquímica por quatro anos e foi trabalhar no setor de pediatria da Universidade de Colúmbia, em Nova York. Trabalhou também no setor de neonatologia da Universidade de Miami, como chefe de neonatologia do Miami Children Hospital, e foi professor de Pediatria na Universidade Internacional da Flórida. Pertence à Sociedade de Pesquisa Pediátrica dos Estados Unidos e é fundador da Sociedade Ibero-Americana de Neonatologia e do Bebê Sem Fronteiras, instituição cujo objetivo é reduzir a mortalidade infantil em regiões sem recursos. Casado com a pediatra Elza Vasconcellos, tem quatro filhos. Seus hobbies são nadar, trabalhar com carpintaria e ficar com os filhos. Confira a íntegra da entrevista concedida por ele ao jornalista Michelson Borges e que foi publicada originalmente na Revista Adventista.

Dr. Amed, como o meio ambiente muda o DNA sem causar mutações?

O DNA é uma espécie de computador; é como ter uma enciclopédia em cada célula. Temos seis bilhões de nucleotídeos no DNA, mas precisamos somente de 2% deles. Então, no DNA há lugares em que um estímulo pode “dizer”: você vai fazer parte dos olhos, e outro estímulo “diz”: você vai fazer parte do nariz.

Isso é o que se chama de “expressão”?

Sim. Por exemplo, se tirarmos uma célula da pele, ela será de pele; se tirarmos uma célula do olho, será do olho; e assim por diante. As células são diferentes em sua forma e função. Mas, se analisamos o DNA, ele é sempre o mesmo. O que acontece é que certas partes do DNA “dizem” o que vai ser coração, pele, osso, etc. Isso acontece porque há microambientes que controlam ou interferem no processo. Ambientes podem ser nutrição, químicos, estresse, e podem acionar interruptores para a saúde ou para a doença.

Como essas alterações se transferem para as gerações seguintes?

É interessante que a Bíblia mencionou isso há três mil anos. O terceiro mandamento diz: “Não terás outros deuses diante de mim”, e depois adverte: “Eu visito a maldade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.” Por muito tempo não sabíamos como explicar isso de maneira científica. Por exemplo, uma mulher submetida a forte estresse ou que seja fumante ocasionará danos à sua saúde. Essa é a primeira geração. Mas, se ela estiver esperando um bebê, os produtos químicos do cigarro também trarão consequências sobre o feto. E se já houver células germinativas nos testículos ou nos ovários, a nicotina ou qualquer outro tóxico afeta a mãe, a filha e o bebê, ou seja, três gerações.

A obesidade também pode estar relacionada com epigenética?

Nos Estados Unidos, estima-se que mais de 60% ou são obesos ou têm sobrepeso. E neste momento um terço da população do mundo tem sobrepeso ou é obesa. Há evidências de que, quando o pai ou a mãe ou os dois são obesos ou têm sobrepeso, vão passar esse risco aos filhos. Foi demonstrado que seus marcadores podem ser encontrados tanto nos óvulos quanto nos espermatozoides. E o mais surpreendente é que, em 1884, Ellen White mencionou isto: que se o apetite dos pais é exagerado ou eles são intemperantes, isso vai afetar seus descendentes. Por muito tempo esse texto não foi compreendido. Desde 1977 há estudos que comprovam o que ela disse. Em minha opinião, a Sra. White, há um século e meio, já conhecia os princípios de epigenética que estamos descobrindo nos últimos 15, 20 anos.

Como a obesidade causa mudanças em nível epigenético?

Vamos falar de alguns fatores pré-natais e pós-natais. Por exemplo, se a mãe fuma, isso causa constrição nos vasos sanguíneos que vão alimentar o bebê. À medida que cresce dentro do útero, o bebê não recebe toda a nutrição que deveria ter. O corpo dele está sendo programado para viver em um ambiente de privação. Quando essa criança nasce, os genes do seu corpo estão marcados para aproveitar toda a comida que lhe é dada. Esse é um evento pré-natal que predispõe à obesidade.

Quanto aos pós-natais, podemos mencionar, por exemplo, os plásticos nos quais há um produto químico chamado bisfenol A. Frascos de plástico, quando expostos ao sol, começam a soltar esse produto, que se parece com um hormônio que envia a mensagem de que a pessoa tem que comer, aumentando o depósito de gordura.

Outro exemplo é o da microbiota. Se o bebê nasce por cesárea, tem mais risco de obesidade do que o que nasce pelo parto vaginal. Por quê? Porque quando o bebê está saindo pelo canal vaginal ele tem contato com bacilos bons. Isso é algo que não sabíamos havia pouco tempo. E se esse bebê se alimenta com leite materno, ele recebe certa flora que vai favorecer essas bactérias positivas. Há estudos que mostram que quando o bebê não é alimentado com leite materno isso também pode predispô-lo à obesidade.

A microbiota pode ser modificada?

Pode, mas é muito difícil, às vezes. E mais: quando se dá antibiótico para crianças muito pequenas, isso ataca a flora. Há evidências de que antibióticos dados por muitos dias, durante o período de recém-nascido, podem levar à obesidade no futuro. As pesquisas também mostram algo interessante. A população dos anos 1950, nos Estados Unidos, é geralmente magra. A geração seguinte é um pouco mais gorda. Já a geração atual é mais obesa. Pesquisas feitas com ratas mostrou os efeitos de pesticidas como o DDT, muito utilizado nos anos 1950. É possível que estejamos sofrendo os efeitos agora. Ou seja, a obesidade é um problema geralmente multifatorial que agora estamos começando a entender melhor. Não estou seguro em dizer por que há indivíduos que durante toda sua vida sofrem com cinco, dez quilos a mais, enquanto há indivíduos que comem de tudo e nunca ganham peso. Dizemos que é questão de genética, mas não nos esqueçamos de que a genética é modulada pela epigenética.

Podemos reverter os efeitos da epigenética?

Graças a Deus, muitas marcações no genoma são reversíveis, ainda que não totalmente. Conheço um médico cirurgião vascular que tinha uma vida muito estressada, muito desregrada, que, quando soube que a dieta vegetariana é mais saudável, resolveu mudar e chegou aos cem anos. Ele operou até os 94 anos. Nosso destino não está definitivamente escrito nos genes. Se fosse assim não teríamos esperança.

Qual seria o fator mais importante atualmente, de acordo com as pesquisas: genética ou epigenética?

Os dois. Ou seja, o que estamos descobrindo agora é que os dois têm funções muito importantes. O que descobrimos é que nosso destino não está escrito em nossos genes. O ambiente e a epigenética têm um fator muito importante na saúde ou na enfermidade. Há alguns genes que têm predisposição ao câncer, mas há muitos cânceres que podem ser prevenidos ou modificados, e isso por fatores epigenéticos e estilo de vida.

Ellen White também fala em influências pré-natais...

E ela tinha toda a razão, mais uma vez. Experiências com ratas privadas de carinho materno demonstraram que os filhos e os netos dessas ratas eram agressivos. Os pesquisadores notaram diferenças nos receptores do cérebro. Os ratos estressados tinham menos receptores de glucocorticoides; estavam sempre em estado de alerta.

Outro exemplo: nos campos de concentração nazistas pessoas foram submetidas a estresse muito severo. Os filhos e netos dessas pessoas são mais nervosos, inquietos e têm mais problemas mentais, além de mais tendência à esquizofrenia.

Um último exemplo: os filhos de sobreviventes dos atentados de 11 de setembro de 2001 também sofreram os efeitos do estresse experimentado pelos pais.

Então, se algo negativo é transmitido aos descendentes, certamente também é transmitido algo positivo. Quando Ellen White fala que as tendências da mãe podem passar para os filhos, isso não é mais uma questão de fé, mas de evidência científica cada vez mais confirmada.

Como espécie, o que está acontecendo com a nossa genética.

Estamos piorando geneticamente. Cada geração tem passado para a seguinte pelo menos cem mutações que não existiam. Isso foi descoberto pelos evolucionistas. E eles pensavam que estávamos melhorando... Nas décadas de 40, 50, havia uma preocupação, um segredo guardado pelos geneticistas de população evolucionistas. Essas mutações que se transmitem de geração a geração são cumulativas. Por exemplo, eu passei cem mutações ao meu filho, meu pai também passou cem, então meu filho tem duzentas mutações que meu pai não tinha. As maiores autoridades de genética de populações dizem que os “homens das cavernas” eram geneticamente superiores ao homem atual. Claro que nós sabemos que a história é outra. Mas a ciência confirma o que a Bíblia diz: que os homens do passado eram superiores. Essa degeneração também é conhecida como entropia genética.

Se fizéssemos uma projeção para o futuro, quanto tempo a humanidade levaria para se degenerar completamente?

A atitude física e mental do homem está diminuindo de 1% a 3% por geração. A autoridade máxima de genética de população, quando deu sua palestra mais importante na Academia Nacional de Ciências, disse uma frase impressionante: em dez gerações em média a humanidade vai mudar de forma, de função e de neurobiologia. E o mais triste é que sabemos que não há medicina para parar isso.

Como Ellen White diz, se Adão não tivesse 20 vezes mais vitalidade que a humanidade atual, já teríamos nos extinguido, provavelmente.

Sim. É interessante que a senhora White disse que nossos ancestrais tinham 20 vezes mais intelecto e mais força do que temos hoje. Há alguns anos aceitávamos isso pela fé, não por evidência. Hoje temos a evidência disso.

Essa degeneração genética se deve ao estilo de vida hoje pior do que no passado, às agressões ambientais, ou já vem sendo observada muito tempo antes?

Muito tempo antes. Cada vez que a célula se divide (lembrando que temos seis bilhões de nucleotídeos) há um risco de erro. Temos uma máquina formidável que corrige os erros. Mas ela não é perfeita. Uma porcentagem escapa. Três nucleotídeos em cada replicação. É como a copiadora: a primeira cópia sai bem, mas quando se faz a cópia da cópia, a imagem vai deteriorando. O mesmo acontece com o genoma humano. Se adicionarmos o fator ambiente ruim, as coisas ficam piores.

Fale um pouco sobre a variabilidade genética humana.

Há três artigos que saíram na Science e na Nature em que se admite claramente que a variabilidade da espécie humana começou em uma explosão há cinco mil anos. Isso concorda com o modelo da criação recente e não com os milhões de anos do modelo evolutivo. Além disso, quando analisaram o DNA da mitocôndria feminina também tiveram uma surpresa. Segundo a teoria da evolução, o ser humano moderno, o Homo sapiens, aparece há 200 mil anos. Os criacionistas pensamos que ele “aparece” há seis mil anos. Agora conhecemos a taxa de mutação que passa de geração a geração. E graças ao DNA mitocondrial pode-se calcular quanta variação pode haver em 200 mil anos: mais ou menos 150 a 600 mil. Mas, quando vemos de forma experimental a variação que há nos humanos, é ao redor de 15 ou 20, e não de milhares. Ou seja, temos outra prova genética no DNA mitocondrial que apoia o modelo da criação.

Isso tem que ver com a Eva mitocondrial?

Também. Interessante que o modelo da Eva mitocondrial foi pensado para explicar a dispersão humana a partir da África. Eles começaram a ver a linhagem da mulher que passa justamente pelo DNA que vem da mitocôndria. Então, quando começaram a fazer essas pesquisas, eles estavam buscando encontrar mais de uma mulher como ancestral. É interessante que, quando fizeram a análise do DNA, os pesquisadores se deram conta de que todas as mulheres são muito similares e têm um ancestral comum. Agora dizem que esse ancestral apareceu muito tempo atrás. Mas esse modelo apoia a criação e o que disse Adão a Eva: “Tu serás a mãe das nações.”

Há outro detalhe importante. Na arca entraram com Noé sua esposa, os filhos e três jovens noras. Então deveria haver três tipos básicos de DNA mitocondrial. E é exatamente o que foi encontrado: três tipos principais de mitocôndria e desses tipos as subdivisões, o que também concorda com o relato bíblico.

quarta-feira, maio 25, 2016

Saúde mental e religião

Belisário é psicólogo e filósofo
Psicólogo experiente explica o que é saúde mental e como a religião está relacionada com ela

Belisário Marques de Andrade é mineiro de São José do Salgado. Aos 16 anos foi para o então Colégio Adventista Brasileiro, atual Unasp, campus São Paulo – um marco em sua vida. Formou-se em Educação Física pela USP, em Filosofia pela PUC de Campinas e em Psicologia pela USP, nessa sequência. Lecionou no Unasp, na Umesp e na Unicamp. Fez o mestrado e o doutorado na Universidade de Maryland (EUA), sendo o primeiro psicólogo brasileiro adventista a receber o título de PhD na área. Contribuiu para a abertura dos cursos de Pedagogia e Psicologia do Unasp. Durante 20 anos foi colunista da extinta revista Mocidade, e há mais de uma década escreve para a Vida e Saúde. Nos últimos 15 anos, tem se dedicado exclusivamente à psicoterapia individual, de casal e familiar. É casado há quase 60 anos com sua namoradinha da adolescência, a professora e advogada Geny Daré Marques. Contemplar as montanhas verdejantes e altaneiras de Minas Gerais é o hobby preferido do casal.

As realizações do psicólogo mineiro Belisário Marques de Andrade podem ser contadas por décadas. São mais de oito de vida; quase seis de casamento e cinco de profissão. Nesta entrevista concedida ao jornalista Michelson Borges e originalmente publicada na Revista Adventista, o experiente psicólogo fala sobre o que é saúde mental, como a espiritualidade pode contribuir ou atrapalhar o equilíbrio emocional e quando é necessário que um cristão busque a ajuda de um psicólogo.

O que é uma pessoa mentalmente saudável?

É a que se adapta à realidade em que vive. Assume responsabilidade pelos próprios comportamentos. Satisfaz suas necessidades sem prejudicar a si mesma e as pessoas ao redor. Regula seus sentimentos e emoções, a fim de não criar conflitos com outras pessoas, nem ficar doente. É uma pessoa capaz de enfrentar os desafios do cotidiano sem se aproveitar de ninguém. É uma pessoa com trânsito livre em seus relacionamentos porque não tem dívida com os outros. Geralmente é uma pessoa humilde porque é realista sobre suas qualidades e defeitos. Está sempre em crescimento e sabe cuidar de sua própria vida. Resumindo: é uma pessoa autônoma, livre, autodeterminada, autodisciplinada e responsável.

Quais são as principais doenças mentais?

Atualmente, são aquelas relacionadas ao estilo de vida, como a síndrome do pânico, depressão, ansiedade, bipolaridade, anorexia, bulimia e esquizofrenia. Além de problemas existenciais, como indecisão, relacionamentos insatisfatórios, falta de envolvimento, solidão e medo da morte. É preciso cuidar para não rotular as pessoas a partir de suas patologias, pois as consequências podem ser muito prejudiciais.

Que fatores mais contribuem para o aparecimento ou agravamento dessas enfermidades?

São as condições nas quais a pessoa cresce e vive. Isso inclui fatores como a qualidade dos relacionamentos, estresse, mudanças, pressões e frustrações. Contudo, o que mais agrava a patologia são os conflitos psíquicos ou emocionais com os quais o indivíduo convive, sejam as situações mal resolvidas, os segredos guardados e o medo de serem revelados; a incoerência entre o que pratica e no que acredita, a comparação com os outros, os sentimentos e pensamentos negativos que carrega e a autopiedade.

Os adventistas levam alguma vantagem nessa área?

Não é a religião que faz diferença, mas a religiosidade da pessoa. Religiosidade deve ser entendida como um princípio que você aceita e acredita ser válido, internaliza e transforma numa diretriz da própria vida. Por alimentar sentimentos positivos e esperançosos, a religiosidade saudável traz inúmeros benefícios: melhor autocontrole; autoestima, satisfação no casamento; contentamento com a vida; humor; além de menos envolvimento com drogas, promiscuidade, crime e menor vulnerabilidade ao impulso suicida.

O que fazer, então, para ter uma mente saudável?

Ter um estilo de vida que contribua para promover o mínimo de conflitos. Isso não quer dizer que eles não existirão, mas que será mais fácil aceitá-los e resolvê-los. A saúde mental é como a salvação, um ideal que se busca enquanto estamos por aqui.

E o que dizer do crescente número de estudos sobre o impacto positivo da espiritualidade sobre a saúde?

Nos últimos 20 anos, a Associação Americana de Psicologia (www.apa.org) tem lançado vários volumes tratando dessa questão. O que as pesquisas mostram é que, se a pessoa percebe a Divindade como um ser benevolente e tem um bom relacionamento com essa “força superior”, desenvolve estratégias de enfrentamento mais saudáveis. Para tanto, é preciso que o indivíduo viva uma experiência religiosa de fato e seja coerente com sua profissão de fé.

Por outro lado, uma religião distorcida pode prejudicar também?

Sim e muito. Quando a religiosidade é superficial, hipócrita ou “morna”, como no conceito de Apocalipse 3, os resultados deixam de ser positivos. Vale lembrar que essa distorção pode ser responsabilidade do adepto da religião e/ou do líder dela. Uma religiosidade caracterizada pela encenação, incoerência, imposição, rigidez, intolerância, competitividade, manipulação, agressividade, preconceito, rejeição e autoritarismo alimenta e propaga doenças mentais.

Antigamente, os religiosos tinham certa resistência à psicologia. Esse preconceito acabou?

Preconceito leva tempo para acabar e não sei se realmente acaba. Penso que a resistência surgiu entre os adventistas pela má compreensão do que Ellen White escreveu em 1862, 1884 e 1894: de que Satanás usa a frenologia, a psicologia e o mesmerismo para atingir o ser humano (Mente, Caráter e Personalidade, v. 1, p. 19; v. 2, p. 698, 711). O segundo fator é a crença de que Deus vai resolver todos os nossos problemas, basta esperar. Prefiro crer que Ele não isenta o ser humano de suas responsabilidades na condução da própria vida. Por isso, vejo como válida a ajuda que a psicologia oferece. Hoje, os adventistas parecem ter entendido melhor isso. Temos cursos de Psicologia no Unasp e Iaene. Espero que o trabalho ético dos profissionais formados nessas duas instituições contribua para a maior aceitação da nossa profissão.

Ellen White parece ter falado muito sobre as doenças psicossomáticas. O que a ciência tem revelado sobre isso?

O conceito de psicossomática tem que ver com o debate sobre a origem das doenças. Há os que atribuem as doenças físicas a causas exclusivamente orgânicas; outros veem uma origem psíquica para elas; enquanto um terceiro grupo percebe a influência mútua. Essa última postura é a mais aceita pelos cientistas. Algumas enfermidades que podem ser psicossomáticas são a asma, bronquite, rinite, colites, hipertensão, fibromialgia e algumas dermatites e disfunções sexuais. Ellen White não poderia ter usado essa expressão porque ela surgiu em 1918, três anos após sua morte. Porém, a pioneira escreveu muito sobre a relação entre a mente e a saúde física, especialmente nos dois volumes de Mente, Caráter e Personalidade.

A seu ver, existe alguma abordagem da psicoterapia que combina mais com o adventismo?

Minha visão é tendenciosa porque reflete mais uma preferência pessoal do que uma verdade científica. Acredito que a abordagem do humanismo, fenomenologia e existencialismo, chamados na psicologia de “a terceira força”, aproximam-se mais do adventismo porque valorizam a dignidade humana. Por sua vez, o behaviorismo e a psicanálise são mais deterministas e tendem a negar o livre-arbítrio. O behaviorismo animaliza o homem e a psicanálise realça seus atributos negativos. Entretanto, ambas as vertentes dão grande contribuição para a compreensão da psiquê humana.

O psicólogo cristão enfrenta algum conflito ético em usar princípios de sua religião no exercício da profissão?

Ele é um profissional credenciado e habilitado para oferecer um tipo específico de serviço de saúde, com base somente em técnicas científicas. Se fizer uso da religião e ganhar por isso, pratica charlatanismo. Quando o profissional é religioso, certamente sua conduta testemunhará sobre sua fé, mas fazer proselitismo é antiético. Não existe terapia denominacional ou confessional.

Quando alguém deve procurar um conselheiro espiritual e quando deve procurar ajuda de um psicólogo?

O conselheiro espiritual geralmente é procurado num primeiro momento, quando ainda não se tem noção da gravidade do caso. Sua intervenção é útil quando a questão envolve dúvidas sobre o caráter de Deus e a perda da fé. Porém, se a pessoa descobre que não está conduzindo a própria vida de modo adequado e que os conflitos e as mudanças lhe causam considerável sofrimento, deve procurar a psicoterapia. Em casos de depressão, síndrome do pânico e distúrbios de comportamento, o líder religioso deve reconhecer suas limitações e encaminhar a pessoa para que receba ajuda profissional. Essa é uma questão séria, porque em termos de saúde mental, a pseudoajuda resulta em mais prejuízos do que benefícios. Em resumo, o psicólogo preocupa-se com a saúde mental e o líder religioso com a salvação. 

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Everton Alves fala sobre a Teoria do Design Inteligente

Evidências de design na natureza
[O texto a seguir é a íntegra da entrevista concedida pelo mestre em Ciências Everton Fernando Alves para a revista Bereshit. A publicação aqui foi autorizada pelo entrevistado.]

No que consiste a Teoria do Design Inteligente (TDI)?

A TDI é talvez hoje a maior novidade científica que temos em ciências. Pode ser entendida como o estudo dos padrões na natureza que carregam as marcas de causalidade inteligente. Simplificando, ela é entendida como uma teoria de detecção de design. A TDI se coloca como alternativa a mecanismos naturalistas. A proposta central da TDI é analisar um objeto de estudo e distinguir se esse objeto possui informação que lhe confere as características de um design intencional (projetado por uma mente inteligente) ou se esse objeto é produto do acaso, necessidades ou leis naturais (cristais de flocos de neve, por exemplo). É importante esclarecer que a TDI não se preocupa em estudar a origem da vida e do Universo, mas, sim, analisar as estruturas biológicas complexas que podem ser observadas na natureza. Entretanto, os teóricos do design entendem que os mecanismos propostos pelo atual paradigma para explicar as origens são demonstrados inadequados no contexto de justificação teórica. Posso citar como exemplo o caso da hipótese do “Mundo RNA” para a explicação da origem da vida, que já entrou em colapso epistêmico. As evidências atuais não mais suportam essa proposta evolutiva inconsistente.

Por outro lado, é importante esclarecer alguns pontos, a fim de que não sejam generalizadas as afirmações, e que sejam entendidas dentro do contexto adequado. Nós, proponentes do design, entendemos e aceitamos que a teoria da evolução trouxe grandes contribuições à história da ciência. Já está bem estabelecido o papel da seleção natural, das variações de baixo nível (conhecidas como o processo de microevolução observado nos experimentos de Lenski), especiação e ancestralidade comum com limitações. Porém, nos posicionamos contra a ideia de macroevolução (grandes mudanças ao longo de milhões de anos), que não pode ser testada, e a ancestralidade comum no contexto neodarwinista, questões ainda em debate.

Quando a TDI foi criada e por quem?

A ideia da existência de design na natureza não é algo recente. Foi proposta desde os antigos filósofos gregos (Platão e Aristóteles). Mas o argumento de design se tornou popular por meio da famosa tese de William Paley, publicada em 1802, conhecida como a “tese do relojoeiro”. Por outro lado, o design inteligente, como uma teoria científica, surgiu oficialmente em 1993, em Pajaro Dunes, Califórnia, EUA, em uma reunião - coordenada pelo fundador do movimento do design inteligente, Dr. Phillip Johnson - com alguns dissidentes da teoria evolucionista tida como paradigma pela ciência atual.

O que diferencia a TDI das demais teorias que tentam explicar a origem da vida?

Antes de responder a essa questão é preciso deixar claro que, assim como todas as teorias, a TDI possui a seguinte limitação: não é capaz de traduzir fielmente a totalidade da realidade. Entendemos que a natureza esbanja evidências, porém, poupa as respostas. Por exemplo, a TDI não consegue afirmar qual foi a quantidade exata de informação genética que deu origem à vida. Mas, no que diz respeito às origens, a TDI se opõe à visão biológica reducionista proposta pela teoria da evolução e entende que a Biologia não pode ser reduzida às leis da Física e da Química, conforme afirmou o biólogo evolucionista Ernst Mayr. Em outras palavras, a TDI pode se apoiar, por exemplo, em lei científica da Biologia (lei da biogênese) para afirmar que vida somente provém de vida. Isso vai contra a proposta da biologia evolutiva histórica (naturalismo filosófico), a qual defende, sem nenhum fundamento científico, que o primeiro ser vivo teria se originado de matéria inorgânica (abiogênese). Entretanto, a base empírica da TDI não repousa necessariamente nessas leis. Ela repousa nos sinais de inteligência detectados na natureza, tais como a informação complexa especificada e a informação funcional e prescritiva.

Em relação ao criacionismo, a proposta da TDI difere em quase todos os seus aspectos. O modelo criacionista assume o pressuposto de que Deus é o Criador da vida e do Universo a partir do relato bíblico de Gênesis. A TDI, por sua vez, não pretende identificar a fonte de inteligência nem tem como foco principal explicar a origem da vida e do Universo. O ponto central da TDI é a detecção da informação existente na natureza e não a busca da origem dessa informação, no sentido de um designer (projetista) ­– embora a informação complexa e específica por si só aponte para a existência de uma mente inteligente, pois indica um propósito intencional. É apenas nesse argumento teleológico (propósito) de design (componente filosófico) que o criacionismo e o design inteligente convergem.

Qual é a teoria mais aceita entre os cientistas cristãos?

O modelo aceito pela maioria dos cientistas cristãos, evidentemente, é o da criação, não o design inteligente. A TDI tem sido utilizada por criacionistas para complementar as explicações referentes ao campo da Biologia Funcional, ou seja, explicar a existência de informação biológica complexa na natureza. Como vimos anteriormente, a convergência entre os dois modelos no argumento de design (propósito) possibilita o uso da TDI pelos criacionistas. No entanto, o inverso não é verdadeiro, isto é, a TDI não utiliza os argumentos e conceitos criacionistas para suas observações e experimentos científicos.

A TDI ainda é uma teoria muito jovem. Formulada em 1993, ela tem pouco mais de 20 anos. Quando comparada aos principais modelos (criacionista e evolucionista), percebe-se que ela é ainda um bebê. Embora a TDI não seja ainda aceita pela comunidade científica – motivo pelo qual os próprios teóricos do design são contra seu ensino nas escolas -, ela possui todas as características necessárias para ser considerada uma teoria originalmente “científica”, conforme a definição de teoria proposta pela Academia Nacional de Ciências dos EUA (National Academy of Sciences, NAS). Saiba mais sobre este assunto aqui.

Qual a sua experiência com a TDI? Como começou a aceitar essa ideia?

A primeira vez que li a respeito da TDI foi no livro Por Que Creio, do jornalista Michelson Borges. Fiquei impressionado e interessado pelo tema a ponto de investigar se as evidências apresentadas pela TDI faziam sentido ou não. A conclusão: não só fazem sentido, como a TDI é, para mim, a melhor explicação para a complexidade percebida com meus próprios olhos nas estruturas analisadas dentro das ciências biológicas e da saúde (então minha área de pesquisa). Eu estava no começo do mestrado, fazendo pesquisas em Imunogenética, e quando olhava para a estrutura tridimensional do DNA - melhor exemplo de codificação e compactação de informação −, somente com o auxílio da TDI era possível entender o ajuste fino nas sequências do código genético (ordem e organização) e a complexidade irredutível presente no ciclo de síntese de proteínas, no armazenamento da informação necessária para a construção dos blocos da vida e na transmissão de dados. Após o mestrado, fui convidado a ser colunista de uma página sobre TDI e também iniciei o projeto de escrita do meu e-book.

Alguns cientistas dizem que crer em um planejador é pseudociência, pois nada (para esses cientistas) indica a intervenção desse ser. Como é possível defender a teoria diante dos cientistas?

Esse argumento vem do fato de que a ciência adotou a teoria da evolução como paradigma na academia. Há 150 anos, a ciência baniu a possibilidade de que exista algo além de matéria e energia neste universo. Não é fácil combater e desconstruir uma crença profundamente enraizada na ciência, como é o caso do naturalismo filosófico (a propósito, cheio de lacunas e hipóteses imaginativas que não podem ser testadas em laboratório). O que é curioso, visto que os pais da ciência não tinham essa percepção (Galileu Galilei, Johannes Kepler, Isaac Newton, Gregor Mendel, Louis Pasteur, entre muitos outros).

A ciência na verdade foi criada e baseada na percepção da existência de um ser inteligente que regia as leis e a ordem do Universo e da vida. E desde aquela época até hoje as evidências de um ser inteligente sempre existiram. Principalmente nas últimas décadas, período em que a ciência acumulou uma quantidade imensa de dados, e a maior parte deles corrobora a ideia de design, embora a mídia tente blindar o darwinismo a todo custo.

Pseudociência, para mim, é insistir na hipótese neodarwinista de que a maior parte do nosso DNA é “lixo” (áreas que não codificam proteínas), resistindo aos resultados de uma das maiores pesquisas já realizadas pelo projeto Encode, em 2012. As evidências mostram cada vez mais que os sistemas biológicos na natureza exibem funcionalidade, intencionalidade e muito, muito propósito.

A TDI aceita a evolução? Como a teoria aborda os processos evolutivos?

Primeiro, é preciso definir o que é “evolução” ou a qual tipo de evolução estamos nos referindo. Há pelo menos seis definições de “evolução”. Se por “evolução” entendemos “mudança ao longo do tempo” (microevolução) ou até mesmo que organismos vivos estão relacionados pela ancestralidade comum (a origem das raças de cães a partir de lobos, por exemplo), então não existe nenhum conflito entre a teoria da evolução e a teoria do design inteligente.

Todavia, a TDI rejeita as propostas evolutivas ainda dominantes (Síntese Evolutiva Moderna ou neodarwinismo), que afirmam a possibilidade de grandes mudanças dando origem a novas espécies conduzidas pela seleção natural agindo em mutações aleatórias, um processo não dirigido, imprevisível e sem nenhum propósito ou objetivo discerníveis. Em sistemas biológicos, por exemplo, a TDI contraria tais pressupostos, pois defende a existência do conceito de complexidade irredutível no mundo molecular que jamais poderia ter se formado por meio de processos lentos, sucessivos e graduais.

É preciso entender que a TDI é uma teoria de sinais de inteligência. Os teóricos do design não abordam os processos evolutivos, mas entendem que os atuais paradigmas para a explicação da origem e evolução dos seres vivos são demonstrados inadequados no contexto de justificação teórica. Entretanto, a comunidade científica pró-design é inclusiva e não homogênea. Seus integrantes são pessoas de diversas religiões, alguns agnósticos (o matemático judeu David Berlinski, por exemplo), ateus e até adeptos da hipótese de ancestralidade comum (o bioquímico Michael Behe, por exemplo). Mas vale ressaltar que, embora Behe aceite a ancestralidade comum, ele entende que sua robustez epistêmica é frágil.

Quem seria o designer inteligente? Deus?

A TDI não pretende identificar a fonte de inteligência, mas defende a inclusão de possibilidades, na qual o papel do designer que deu origem a vida poderia ser atribuído ao Deus judaico-cristão, a extraterrestres, a uma raça humana vinda do futuro ou a forças distintas que permeariam o Universo. 

Como é a aceitação da TDI na comunidade científica? E nas universidades?

Muitos cientistas têm se declarado publicamente contra a teoria da evolução. Tanto é verdade que existe até mesmo uma lista criada pelo Discovery Institute intitulada “A Scientific Dissent from Darwin”. Isso demonstra que muitos têm percebido as falhas e lacunas que existem na teoria evolucionista. Sendo assim, a TDI tem conquistado espaço ao redor do mundo para explanar suas propostas e explicações − assim como toda teoria objetiva fazer. Isso porque muitos cientistas de renome têm aberto a mente para explicações alternativas sobre a complexidade da vida e a biodiversidade da natureza. No Brasil, por exemplo, em 2013, foram realizadas palestras sobre Design Inteligente na Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), espaço cedido pela própria instituição. Em 2015, a Universidade Estadual de Maringá (UEM) promoveu e apoiou totalmente um curso de extensão a respeito dos diferentes olhares sobre as Origens (design inteligente, evolucionismo e criacionismo). A abertura ao debate e questionamentos em instituições públicas de ensino é um marco na história da ciência brasileira. Ademais, diversas instituições públicas e privadas de ensino também têm dado seu apoio para a causa (a Universidade Mackenzie, o Unasp, a Unimep, entre outras).

A TDI seria a resposta para o “conflito” entre fé e ciência que tantos cientistas insistem em criar?

É bom lembrar que ciência e religião sempre estiveram de mãos dadas. A história dos “pais da ciência” está aí para mostrar que isso é a verdade. Essa questão de conflito entre esses dois lados é um mito. Pois a fé sempre foi a base de sustentação para um olhar mais amplo pelos cientistas que verdadeiramente contribuíram com a ciência que conhecemos hoje. Mas é claro que esse debate foge do escopo da teoria do design inteligente. A fé não é um requisito necessário para as pesquisas baseadas em design, pois é bom reforçar que a TDI ignora a prerrogativa de identificar a mente inteligente por trás do projeto, assim como também não tem como foco a discussão sobre a origem da vida e do Universo. O objetivo principal da TDI é analisar e identificar design intencional em objetos de estudo presentes na natureza.

Fale sobre seu e-book.

Sugiro a leitura do meu e-book intitulado Teoria do Design Inteligente: Evidências científicas no campo das Ciências Biológicas e da Saúde. Esse livro fará você, leitor curioso e interessado, viajar entre os dados e suscitar questionamentos acerca da teoria da evolução - muitas vezes apresentada como um fato inquestionável. Mas ele vai além de argumentos retóricos antievolucionistas. Por meio das diversas evidências apresentadas na obra, é possível perceber o design inteligente no projeto complexo e dinâmico da vida. Um mundo projetado de forma inteligente que é admissível numa perspectiva de cunho científico.

O e-book é uma das três obras genuinamente brasileiras, relevantes e específicas acerca do design inteligente, ficando atrás apenas - em ordem cronológica - das seguintes publicações, as quais eu deixo como sugestão de leitura complementar: Fomos Planejados: a maior descoberta científica de todos os tempos, do Dr. Marcos Nogueira Eberlin, químico e presidente da Sociedade Brasileira de Design Inteligente (SBDI), e Design Inteligente: A metodologia de convergência das ciências sob a ótica da criação, do escritor Dr. Francisco Mário Lima Magalhães.

Deixo aqui, também, uma homenagem final a dois grandes profissionais que eu admiro imensamente e que têm contribuído com o projeto do meu livro. Agradeço ao mestre Enézio de Almeida Filho, pioneiro na propagação e defesa da teoria do design inteligente no Brasil e presidente emérito da SBDI, e ao jornalista da ciência Michelson Borges, editor da Casa Publicadora Brasileira, pelos valiosos ensinamentos e contribuições.

Caso você queira saber mais sobre o autor, acesse outra entrevista dada a Revista Adventista.

segunda-feira, maio 18, 2015

Criacionismo, ciência e religião

Entrevista concedida pelo jornalista e mestre em teologia Michelson Borges a Rafael Lopes (professor de Física do IFMA, mestre e graduado em Física pela Universidade Federal do Maranhão e doutorando em física pela USP), Felipe Forti (estudante de teatro e criacionista progressivo), Camilli Martins (pré-vestibulanda de Joinville que está em São Paulo há três anos) e Tales Moura (advogado em São Paulo). O programa foi realizado na Igreja Adventista Central Paulistana, no dia 16 de maio de 2015, às 18h. As perguntas foram feitas ao vivo pelos quatro participantes, com interação do auditório.

Camilli: Existem evidências do dilúvio? A genealogia pós-dilúvio é compatível, no tempo, com a quantidade e diversidade de etnias que existem hoje?

Existem várias evidências. Vou mencionar apenas cinco: (1) Praticamente metade dos sedimentos continentais são de origem marinha. (2) A abundância de fósseis em todo o mundo, como os fósseis de peixes encontrados em Crato, no interior do Ceará, na Chapada do Araripe, ou mesmo os fósseis de baleias encontrados em Pisco, no Peru, a 30 km do litoral, ou no deserto do Atacama, no Chile. (3) As evidências de que muitos dinossauros fossilizados morreram afogados, em agonia, sufocando. (4) Os estratos plano-paralelos na coluna geológica, que sugerem enorme deslocamento de sedimentos e uma estratificação rápida. (5) A existência de relatos de uma grande inundação preservados em mais de 200 culturas espalhadas pelo mundo.

Quanto à diversidade de etnias, acredito que o tempo após o dilúvio foi suficiente para essa diversificação. Mutações, seleção natural e isolamento geográfico podem muito bem explicar essa diversificação que, no entanto, foi bem limitada. Em bem menos tempo, mas com uma “mãozinha” humana, foi possível causar modificações bem mais acentuadas em cães e gatos, por exemplo.

Tales: Rolam pela internet, no YouTube, alguns vídeos que noticiam terem encontrado a arca de Noé. Mostram fotos tiradas por pilotos de avião de quando sobrevoavam um local, durante a guerra, que viram um pedaço de madeira de um barco. Após alguns anos, expedições foram feitas no local e há os que afirmam terem encontrado a arca congelada. Alguns cristão dizem que a arca seria encontrada no tempo do fim. Isso tudo é verdade? Se for, por que não há uma repercussão maior?

Por enquanto, quanto eu saiba, é tudo muito especulativo. Muitas dessas “evidências” são apresentadas no livro Em Busca da Arca de Noé, de Dave Balsiger e Charles Sellier. Mas parece que nada daquilo foi realmente confirmado. O Ararate fica numa região muito conturbada. Guerrilheiros curdos dificultam muito a vida dos pesquisadores e a área é coberta de gelo praticamente o tempo todo. Além disso, a Bíblia não identifica em que montanha daquela região a arca pousou. Mas, teoricamente, levando em conta a resistência da madeira de gofer ou cipreste, resistente a pragas e ao apodrecimento, e o clima frio da região em que está o Ararate, talvez tenha sido possível a preservação da arca ou de parte dela. Quem sabe possamos ter alguma surpresa no futuro, com novas expedições e com o degelo das montanhas...

Tales: De acordo com o teste do Urânio-238, a Terra tem 4,5 bilhões de anos. Pelo relato bíblico, a terra tem cerca de seis mil anos. Como é possível essa diferença? Qual tempo está certo?

O princípio do funcionamento dos “relógios radioativos” depende, fundamentalmente, da determinação da relação existente entre a quantidade de um determinado elemento radioativo na formação do material a ser datado, como o urânio, e da quantidade de outro elemento formado (supostamente ausente na formação do material) por decaimento radioativo, como o chumbo. O grande problema com esses “relógios”, por mais lógicos que sejam, é que não temos como determinar dois fatores muito importantes: (1) a quantidade de elementos “pai” e “filho” na amostra no início, e (2) as taxas de decaimento radioativo ao longo do tempo.

É bom saber, também, que existe grande variação de um método de datação para outro. Há grande diferença no tempo de decaimento dos elementos radioativos. Enquanto o Urânio-238, por exemplo, tem meia-vida de 4,5 bilhões de anos, o Urânio-235 tem meia-vida de 0,7 bilhão de anos. O Tório-233 tem meia-vida de 14,1 bilhões de anos. A meia-vida do Rubídio-87 é de 47 bilhões de anos, e do Potássio-40, 1,3 bilhão de anos. De posse desses resultados, os evolucionistas resolveram que o Urânio-238 era o mais adequado à sua teoria. 0,7 bilhão de anos era pouco; 47 bilhões já era muito. Convencionou-se, então, 4,5 bilhões de anos. No fim, foi mais uma questão de escolha.

Quanto à idade da Terra pela ótica criacionista, não há certeza absoluta se ela (o planeta e seus constituintes inorgânicos) tem realmente seis mil anos ou se poderia ter bilhões. Nesse quesito, os criacionistas se dividem basicamente entre criacionistas da Terra jovem e criacionistas da Terra antiga. E parece existir evidências para ambas as visões. O que os criacionistas bíblicos praticamente não discutem é a idade da vida na Terra: cerca de seis a dez mil anos.

Rafael: Em sua opinião, como devem os cristãos hoje se relacionar com a teoria do big bang?

A teoria do big bang tem implicações teológicas, já que estabelece um começo para o Universo, um ponto inicial no tempo e no espaço. Como tudo o que tem começo precisa de uma causa, qual teria sido a causa atemporal e imaterial que teria dado origem ao cosmos? O que ou quem teria sido essa primeira causa não causada? Mas o big bang ainda não é uma teoria consensual. Há questionamentos ao modelo. E um deles tem que ver com a constatação de que já havia galáxias e outros corpos celestes “adultos” há 12, 13 bilhões de anos. Isso não combina com o modelo de um Universo imaturo que foi evoluindo ao longo do tempo. Algumas teorias cosmológicas têm sido questionadas atualmente, como é o caso da velocidade da suposta expansão do Universo e a teoria da formação dos planetas.

Tales: Em 1859, Charles Robert Darwin lançou o livro A Origem das Espécies. A teoria da evolução apresentada por ele nesse livro foi inédita ou é uma ideia antiga? Existem incoerências na teoria? Ela é provada ou precisa de fé para crer?

Na verdade, o avô de Charles, Erasmus Darwin, já defendia algum tipo de evolução. Mesmo os gregos antigos pensavam mais ou menos dessa forma. A grande “sacada” de Charles foi propor mecanismos para essa evolução: mutações e seleção natural. Ele agiu como um verdadeiro cientista, embora fosse formado em teologia. Partiu da observação para as conclusões. Mas acertou no varejo e errou no atacado. Ao observar a variação na plumagem e no formato dos bicos de uma passarinho chamado tentilhão, nas ilhas Galápagos, Darwin chamou a isso de evolução e pensou ter provado sua teoria. Mas o que fez foi apenas descrever variações de baixo nível causadas por seleção natural, algo com que criacionistas também concordam. Ocorre que todos aqueles pássaros observados por Darwin eram tentilhões, e nunca deixaram de ser.

Outro exemplo de diversificação de baixo nível que não prova a ideia da macroevolução são as experiências realizadas há mais de cem anos com as mosquinhas-das-frutas (Drosophila melanogaster). Por meio de mutações artificialmente causadas, tudo o que os cientistas conseguiram obter foi moscas com asas retorcidas, asas mais curtas e até sem asas. Nada de surgimento de um novo órgão funcional ou novo plano corporal. E por quê? Simplesmente porque informação complexa e específica não surge do nada. Mutações alteram a informação ou causam sua perda. Nunca fazem aumentar o patrimônio genético a ponto de originar novos órgãos funcionais.

A verdade é que até o título A Origem das Espécies está equivocado. Darwin explicou os mecanismos de diversificação nas espécies, mas não a origem delas. Explicou a sobrevivência do mais apto, mas não como esse mais apto se originou.

A ideia da macroevolução e da origem da vida continua sendo uma grande declaração de fé. Um assunto filosófico e não científico, pois o naturalismo filosófico não pertence aos domínios da ciência experimental.

Felipe: Como explicar o “DNA lixo” que aparentemente não tem função?

Essa lenda surgiu há quase 15 anos, quando o primeiro rascunho do sequenciamento do genoma humano foi publicado. Na época, os cientistas concluíram precipitadamente que apenas 2% das três bilhões de letras que compõem o genoma humano correspondiam a genes codificantes. Os outros 98% seriam o tal “DNA lixo”, aparentemente sem função, um suposto resquício da evolução. Dez anos e muitas pesquisas depois, confirmou-se que o apelido era jocoso e ignorante. O que teve que ser jogado no lixo foi aquela conclusão absurda. O que antes era chamado de “DNA lixo” hoje se sabe que possui funções essenciais no organismo.

Rafael: Devem as teorias científicas afetar nossa interpretação dos textos sagrados?

Depende. Gosto de uma afirmação de Ellen White em que ela diz que, corretamente compreendidas, tanto a ciência quanto a revelação estão em pleno acordo. Assim, se algum aspecto da ciência está em desacordo com a Bíblia, devemos pensar que isso decorre de uma compreensão equivocada de uma ou de outra. Existem alguns exemplos históricos, como o caso da afirmação bíblica de que a Terra está flutuando no espaço (Jó 26:7). Esse texto foi escrito por Moisés, há 3.500 anos. Ele aprendeu nas “faculdades” do Egito antigo que a Terra, além de plana, estava apoiada sobre cinco colunas, mas não registrou esse conhecimento “científico” nas páginas da Bíblia, pois estava equivocado. O mesmo tem acontecido na área dietética, por exemplo. As recomendações bíblicas têm sido confirmadas dia após dia por pesquisas mais acuradas.

Resumindo, eu diria que a ciência empírica não afeta nossa interpretação dos textos sagrados, pois está de acordo com eles. Mas algumas hipóteses estão em desacordo com o texto sagrado, porque pertencem mais aos domínios da ciência histórica, como é o caso da visão naturalista/darwinista sobre a origem da vida.

Tales: Recentemente, o papa Francisco foi discursar na Academia de Ciências. Lá ele se posicionou pela corrente evolucionista teísta, ou seja, disse que a teoria do big bang e o evolucionismo não contradizem a Bíblia, e que Deus não agiu na criação como um mago com varinha de condão. É possível a junção de ambas as teorias, criacionismo e evolucionismo?

Sim, desde que você abra mão da interpretação literal dos primeiros capítulos de Gênesis e abrace a teologia liberal defendida pelos católicos. Mas, se fizer isso, estará violando a coerência interna das Escrituras, desprezando doutrinas que dependem da criação literal (como é o caso da guarda do sábado e da redenção) e desprezando a opinião de criacionistas como Jesus e Paulo, por exemplo. Ambos fizeram referência a Adão e Eva como personagens históricos, reais e ao dilúvio como um fato histórico comparável à volta de Jesus. Além disso, se a árvore da vida mencionada em Gênesis é um mito, a árvore da vida descrita no Apocalipse, a que os salvos terão acesso, deixa de ter sentido também.

Creio em um Deus todo-poderoso que poderia ter criado a Terra em sete segundos ou em sete mil anos, mas escolheu fazê-lo em sete dias e deixou esse fato registrado nas Escrituras, celebrado por um dia, o sábado.

Felipe: Se a evolução fosse provada, você continuaria sendo cristão?

Não. Eu deixaria de ser cristão e me tornaria, quem sabe, agnóstico. Isso porque a ideia da macroevolução contradiz totalmente a cosmovisão bíblica. Não é possível acomodá-las. Para ser intelectualmente honesto, ou a pessoa abraça ou evolucionismo materialista ateu ou o criacionismo teísta bíblico.

Camilli: A ciência, enquanto construção humana, pode considerar o método científico como absolutamente puro de interferências subjetivas, como o contexto histórico e as humanidades do cientista?

O método científico é a melhor ferramenta de investigação do mundo já inventada pelo ser humano, mas, como tudo que é humano, é imperfeita e sujeita a subjetividades. Isso porque depende em grande medida da interpretação dos dados. Em bom exemplo disso é apresentado por Thomas Kuhn, em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas. Perguntaram a um físico e a um químico se um átomo de hélio é ou não uma molécula. Para o químico, é molécula, pois se comporta como tal do ponto de vista da teoria cinética dos gases. Para o físico, não é molécula, pois não apresenta espectro molecular. Assim, cada um deles definiu o que um átomo de hélio deve ser, segundo sua ótica, sua maneira de interpretar a realidade.

A verdade é que nenhum cientista consegue deixar fora do laboratório suas subjetividades – suas opiniões políticas, seus sentimentos, suas crenças. O método científico procura minimizar ao máximo isso, mas sempre haverá alguma subjetividade envolvida.

Tales: Em seu blog, na seção Digitais do Criador, você aborda alguns temas como: amebas gigantes geram dúvidas sobre evolução, cérebro tem banda larga, semente que voa, etc. Mas um em especial me chamou a atenção: “O radiador do tucano.” Como é isso?

Nessa seção do www.criacionismo.com.br procuro apresentar evidências de design inteligente na natureza. No caso do tucano, o bico serve como um verdadeiro “radiador”. Como é muito vascularizado, o bico dissipa o calor, no verão, e aquece, no inverno. Um radiador de carro consegue dissipar de 70 a 80% do calor do motor. O “radiador” do tucano tem uma eficiência de 100%. Em “Digitais do Criador” falo também do sonar do golfinho e do morcego, um sistema que funciona em ambas as espécies graças a um mesmo gene chamado prestina. Como explicar evolutivamente o surgimento de um sistema tão eficiente, com funcionamento igual em espécies tão distantes na suposta história evolutiva? Além disso, para inventar o sonar, o ser humano gastou muito dinheiro e usou muita inteligência. Mas o que ele fez foi simplesmente imitar um sistema que já existia e funcionava perfeitamente bem há milhares de anos. O original seria fruto do acaso enquanto a cópia, resultado de esforços inteligentes?

Rafael: Qual seria a melhor forma de harmonizar uma vida religiosa com uma boa formação científica?

O estudante criacionista deve andar duas, três, quatro milhas a mais que seus colegas. É importante que ele leia, além do conteúdo acadêmico, bons livros sobre ciência e religião, defesa racional da fé, arqueologia bíblica, criacionismo, etc. Isso para que possa responder adequadamente a toda pessoa que lhe perguntar por que pensa como pensa (atendendo ao desafio de 1 Pedro 3:15). A Bíblia e livros devocionais, que reforçam a comunhão com Deus, devem sempre estar à cabeceira. Com esse reforço intelectual/espiritual, o estudante criacionista estará pronto para enfrentar os desafios do campus e para ser um dos melhores alunos, com dedicação, esforço e responsabilidade. Isso porque de nada adiantará ser um bom “crente” e um mal aluno. Se está na universidade, é para estudar e dar bom testemunho. E esse bom testemunho passa pelo comportamento e pelo desempenho acadêmico.

Para mim, um dos melhores exemplos de compatibilização entre religião e ciência é Isaac Newton. A mesma dedicação que ele aplicou à pesquisa científica aplicou também ao estudo da Bíblia Sagrada. Tenho certeza de que ele “viu mais longe” exatamente por não ter desprezado estas duas ótimas ferramentas, estas duas ótimas lentes: a ciência e a teologia.

Camilli: O que realmente significa ter contato com Deus? Eu entendo que é uma questão muito pessoal, mas, pelo fato de ser pessoal, já faz desse contato uma percepção subjetiva, e se ela é subjetiva, como podemos simplesmente achar que o jeito como nós “percebemos” Deus é mais certo do que como outra pessoa diz que “percebe” Deus?

Não podemos depender apenas da percepção. Por isso temos a Revelação e temos que descobrir por que ela é confiável. Claro que precisamos “experimentar” Deus por nós mesmos; ter uma relação real e pessoal com Ele. Mas não podemos nos esquecer de que os sentimentos são um tanto vagos e até contraditórios, às vezes. Por isso precisamos da guia da Revelação. Devido às influências a que fomos submetidos na infância, às coisas que aprendemos de nossos pais e na escola, nossa visão de Deus pode variar grandemente em relação à visão de outra pessoa, de tal forma que podemos estar adorando deuses diferentes em nossa mente. Por isso precisamos de uma revelação dEle mesmo. Quem é Deus? Como é Deus? Gosto de ler Hebreus 1:1 e 2 porque esse texto me mostra que Deus tem muitas maneiras de Se revelar, inclusive por meio da ciência e da filosofia (Francis Collins e Antony Flew que o digam), mas a maior revelação dEle foi, sem dúvida, Jesus Cristo. Conhecer Jesus é conhecer Deus. E podemos conhecer Jesus por meio da oração e, sobretudo, dos Evangelhos.

Felipe: Você não acha que o debate criação x evolução e Terra jovem x Terra antiga tira algum foco da apologética como evangelística, já que existem vários teístas evolucionistas e criacionistas de Terra antiga? Quer dizer, não é melhor mostrar que Deus existe, independentemente do método que Ele usou? 

A menos que não se dê importância a doutrinas como o sábado e à mensagem de Apocalipse 14:6, 7, tudo bem. De fato, há muitos bons apologistas por aí, como William Craig, Alvin Plantinga, Lee Strobel, Nancy Pearcey, Alister McGrath, Frank Turek, Norman Geisler e outros, e admiro muito o trabalho deles. Mas há alguns “detalhes” da pregação de alguns desses eruditos que não estão de acordo com a Bíblia, como é o caso da defesa da santidade do domingo e da existência de um inferno eterno. Além disso, muitos desses apologistas são evolucionistas teístas, o que, como já vimos, contradiz as Escrituras. Se nos calarmos, quem mais vai defender a permanência do sábado como memorial da criação e dia do Senhor? Quem mais vai defender a criação em seis dias literais de 24 horas?

Respondendo especificamente a sua pergunta: se a discussão for exclusivamente sobre a idade da Terra e não da vida sobre a Terra, creio que realmente não precisamos alimentar essa polêmica. Mas se a questão estiver relacionada com a semana da criação, a vigência do sábado, a literalidade e historicidade de Adão e Eva e o dilúvio, aí, sim, creio que devemos erguer a voz em defesa do nosso ponto de vista bíblico. Se não o fizermos, quem mais fará?

Camilli: Qual é o oposto de fé? Seria a dúvida? Então, significa dizer que mesmo para um cristão é bom nunca ter uma fé absoluta, pois, quando paramos de questionar, deixamos de pensar, ou seja, podemos estar cometendo sérios erros?

Não acredito que o oposto de fé seja a dúvida. O oposto de fé é a desconfiança. Não é pecado ter dúvidas. Na verdade, são as dúvidas sinceras que motivam a busca. E Deus oferece respostas e certezas ao pesquisador sincero. Não oferece todas as respostas, mas o suficiente para que possamos crer. Depois de obter essas respostas e evidências de que Ele existe e cuida de nós, seria realmente falta de fé continuar duvidando. É mais ou menos como aquela esposa que durante muitos anos teve evidências de que seu marido a ama e lhe é fiel. Mas certo dia alguém lhe diz que viu o homem com outra mulher. Seria muito injusto essa esposa passar a desconfiar do marido por causa dessa única informação incompleta. O correto seria ela aguardar para saber dele a verdade. Desconfiar de Deus por causa de uma ou outra dúvida e desprezar todas as certezas é como desconfiar de um cônjuge fiel com base em apenas uma informação incompleta.  

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