terça-feira, novembro 30, 2010

A natureza humana de Jesus

A natureza da humanidade de Cristo é um dos assuntos mais debatidos entre os adventistas do sétimo dia. Era Ele semelhante a Adão antes ou depois da Queda? Para responder a essa pergunta, o pastor Amin A. Rodor, doutor em Teologia Sistemática, concedeu esta entrevista. Formado em teologia no antigo Instituto Adventista de Ensino (IAE), São Paulo, o pastor Rodor iniciou seu ministério em 1970, na União Este-Brasileira, onde atuou como distrital e líder de jovens. Após seus estudos de mestrado em divindade e doutorado por um período de oito anos na Andrews University (EUA), atuou como professor de teologia no ENA, IAENE e no programa de mestrado da Divisão Sul-Americana (DSA). Serviu ainda, por dez anos, como pastor nos Estados Unidos e Canadá. Professor de Teologia, dirigiu o Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia no Campus Engenheiro Coelho, SP. Casado com a enfermeira Rita, tem três filhos: Dianne, Luccas e Michel. Esta entrevista, concedida à Revista Adventista, tem o objetivo de ajudar na compreensão do livro Ellen White e a Humanidade de Cristo, da Casa Publicadora Brasileira.

Basicamente, em que consiste a posição pós-queda (pós-lapsariana) em relação à natureza humana de Jesus?

Pós-lapsariana significa depois do lapso, depois da queda, da entrada do pecado, registrada em Gênesis 3. Fundamentalmente os defensores da teoria pós-lapsariana insistem que, na encarnação, Jesus assumiu a natureza humana, tanto física como moral e espiritual, com todas as características da humanidade caída. Assim, nesta formulação, Jesus, em termos de forma e essência, foi exatamente como qualquer um de nós – cem por cento igual. Absolutamente em nada diferente de qualquer outra criatura nascida no planeta Terra. A. T. Jones, um dos pioneiros desta noção, escreveu: “Em Sua natureza humana, não há uma partícula de diferença entre Ele [Jesus] e vós” (General Conference Bulletin, 1895, p. 231, 233, 436, citado em G. Knight, From 1888 to Apostasy, p. 136.)

Aqui, contudo, temos que parar para refletir. A Bíblia trata a condição natural do homem sob o pecado em termos nada elogiosos (ver Jr 17:9; Sl 51:5; Rm 7:14). Para Ellen White, depois da queda, “no seu âmago, a natureza humana foi corrompida. Desde então, o pecado alcançou todas as mentes” (Review and Herald, 16/04/1901). “Com relação ao primeiro Adão, os homens nada receberam dele senão a culpa e a sentença de morte” (Orientação da Criança, p. 475). Ainda, segundo Ellen White, o egoísmo, profundamente arraigado em nosso ser, “nos veio por herança” (Historical Sketches, p. 138 e139). Embora Jesus não fosse um pecador, como corretamente entendido pelo pós-lapsarianismo, teria Ele sido, realmente, participante da natureza humana corrompida, com tendências, propensões para o pecado e inclinada para o mal?

Os defensores dessa idéia dizem que, uma vez que Jesus foi vitorioso tendo uma natureza como a nossa, também nós podemos ter vitória perfeita sobre o pecado. Quais as implicações disso?

Uma das consequências mais graves, embora isto nem sempre seja percebido ou admitido, é que Cristo deixa de ser primariamente o nosso divino substituto, para Se tornar o nosso modelo de perfeição. Daí para um retorno à confusão entre justificação e santificação, é apenas um passo. Outro desdobramento direto é o perfeccionismo. O raciocínio é precisamente este: “Jesus foi como nós, nós podemos e devemos ser como Ele.” Ainda nesta conexão, como afirmado por M. L. Andreasen e outros defensores do pós-lapsarianismo, enquanto a igreja não aceitar esta mensagem e alcançar um estágio de absoluta perfeição, sua missão não será cumprida e Cristo não virá. Para Andreasen, o segundo advento ainda não ocorreu porque a igreja remanescente tem falhado em alcançar um estágio de absoluta impecabilidade (M. L. Andreasen, The Book of Hebrews, p. 466, 467).

O potencial de confusão aqui é enorme e os resultados negativos de tal teoria na consciência cristã são inevitáveis: complexo de superioridade espiritual, espírito acusador e mentalidade dada à dissensão na Igreja surgirão fatalmente. Sem qualquer dúvida, a santificação é um ideal bíblico para os discípulos de Cristo (Hb 12:4), mas devemos entender o significado bíblico de santificação e perfeição. Para Ellen White, “nós nunca poderemos igualar o Modelo” (Review and Herald, 5/02/1895, p. 81); e ainda, em análise final, “ninguém é perfeito como Jesus” (Manuscrito 24, 1892, citado em G. Knight, em The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness, p. 174). Segundo Ellen White, aqueles que realmente estão no caminho da santificação, serão os últimos a alardearem isso (Santificação, p. 7-11). E isso precisamente porque cada vez que nos aproximamos, o ideal se reprojeta para mais distante.

A posição pós-queda tem base bíblica? E o que diz o Espírito de Profecia?

Sem dúvida, a ênfase na humanidade de Cristo é ensino bíblico. Contudo, a Bíblia indica ao mesmo tempo que Ele foi radicalmente diferente de todos os outros homens. Seu nascimento virginal, Sua vida de absoluta “impecaminosidade” e Sua ressurreição vitoriosa deveriam servir-nos de alerta de que em Cristo estamos diante de Alguém exclusivo, único, em todo o reino da humanidade. Ele é o monogenes de Deus, isto é, o único do Seu tipo.

Textos como Hebreus 2:17, Romanos 8:3 e Filipenses 2:7 indicam que, na encarnação, Cristo veio em “semelhança da carne do pecado”. Contudo, devemos ter em mente que a palavra “semelhante”, nesses textos, foi cuidadosamente escolhida, para indicar exatamente isto – “semelhança,” não absoluta igualdade. Além desses, outros textos sobre este assunto são de clareza incontestável. Por exemplo, Hebreus 7:26: “Nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores...” O que é dito aqui não é apenas que Jesus não cometeu atos pecaminosos (os sintomas do pecado), mas que Ele veio em condição de absoluta “impecaminosidade” em Sua natureza essencial. Em João 8:46, Jesus afirma: “Quem dentre vós Me convence de pecado?” 1 João 3:5 acrescenta: “NEle não há pecado.” Devemos neste ponto rejeitar qualquer noção superficial de pecado. Para Jesus, pecado mais que o ato, é uma condição, um estado, uma inclinação da natureza humana para o mal (Mt 5:21, 22; 15:19), da qual Ele não partilhou. Ao afirmar que ninguém pode convencê-Lo de pecado, isto, portanto, deve ser entendido à luz de Sua própria definição de pecado. Em João 14:30, Jesus faz para Si uma reivindicação absoluta: “Porque se aproxima o príncipe deste mundo e nada tem em Mim.” De qual dos homens isso poderia ser dito?

Ellen White concorre com a mesma ênfase bíblica em relação à natureza incontaminada de Cristo. As citações são inúmeras, mas basta-nos mencionar apenas alguns textos de clareza absoluta: “Ele... é um irmão em nossas fraquezas, mas não em possuir idênticas paixões” (Testemunhos Para a Igreja, v. 2, p. 202). Quando confrontado com esta citação, na Assembléia da Associação Geral de 1895, A. T. Jones procurou esquivar-se tentando estabelecer uma diferença entre a carne de Cristo e Sua mente. De acordo com Jones, Jesus “foi feito semelhante à carne pecaminosa; não em semelhança de mente pecaminosa... Sua carne foi como a nossa carne, mas a mente foi a mente de Cristo Jesus” (General Conference Bulletim 1895, p. 312, 327; veja G. Knight, em From 1888 to Apostasy, p. 138). A questão aqui é muito simples: como afirmar então que Cristo era absolutamente como nós, “sem uma partícula de diferença”, e ao mesmo tempo dizer que a Sua mente era diferente da nossa? Não é a nossa mente parte de nossa natureza pecaminosa, e precisamente o campo onde se trava a batalha contra o pecado? Além da incrível semelhança com o nestorianismo (heresia cristológica do quinto século, segundo a qual a Palavra tomou o lugar da mente, em Jesus Cristo), tal posição não faz qualquer sentido teológico e destrói todo o discurso de que Cristo é cem por cento como nós.

Ainda da voz profética aos adventistas lemos que Cristo “deveria assumir a posição como cabeça da humanidade, por tomar a natureza mas não a pecaminosidade do homem” (SDABC, Ellen G. White Comments, v. 7, p. 925). E, provavelmente, a mais famosa de todas as citações de Ellen White, conhecida por qualquer estudante da cristologia: “Sede cuidadosos, extremamente cuidadosos, quando tratais com o tema da natureza humana de Cristo; não O representeis perante as pessoas como um homem com propensões para o pecado”(SDABC, v. 5., p. 1.113). Ainda no mesmo contexto, ela adverte: “Nunca, de forma alguma, deixeis a mais leve impressão sobre as mentes humanas de que a mancha ou a inclinação para a corrupção permaneceram sobre Cristo, ou que Ele de algum modo tenha cedido à corrupção” (Ibidem, p. 1.128, 1.129).

O que enfatizam os defensores da posição pré-queda (pré-lapsariana)?

A posição pré-queda afirma que, enquanto seja claro que Jesus partilhou uma íntima afinidade conosco, as evidências bíblicas também indicam que Ele foi, ao mesmo tempo, radicalmente diferente de nós. Assim, por um lado, Ele sujeitou-Se às leis da hereditariedade, encarnando as “fraquezas inocentes” desta condição: Ele sentiu fome, sede, ficou cansado, frustrado e, às vezes, deprimido e triste. Tomou todas as limitações físicas dos descendentes de Adão. Por outro lado, em Sua natureza moral e espiritual, era como Adão antes da queda. Absolutamente puro, incontaminado de qualquer mancha. Do ponto de vista moral, Ele Se ergue como o nosso perfeito substituto. Sobre Sua encarnação miraculosa, Gabriel informa à virgem: “Descerá sobre ti o Espirito Santo. [...] Por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1:35).

Em nossa natureza existe uma afinidade natural com o pecado. Comentando a profecia da inimizade entre a mulher, sua descendência e o seu descendente (Gn 3:15), Ellen White enfatiza que, em nós, essa inimizade não é natural, de fato: “Não existe, por natureza, nenhuma inimizade entre o homem pecador e o originador do pecado” (O Grande Conflito, p. 505). Em relação a Jesus, contudo, Ellen White declara: “Com Cristo a inimizade era em certo sentido natural; em outro sentido foi sobrenatural, visto combinarem-se [nEle] humanidade e divindade. E nunca se desenvolveu a inimizade a ponto tão notável como quando Cristo Se tornou habitante da Terra” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 254). Portanto, “não devemos ter dúvidas acerca da perfeita ausência de pecado na natureza humana de Cristo” (Ibidem, v. 1, p. 256).

Poderia citar mais um argumento em favor dessa interpretação?

Outro forte argumento derivado do princípio de interpretação bíblica, conhecido como “analogia da fé”, consiste no fato de que as Escrituras não podem contradizer-se. Poderíamos, à luz do ensino bíblico quanto à nossa necessidade de um Salvador absolutamente incontaminado pelo pecado, insistir que Cristo possuiu uma natureza desorganizada e corrupta, sob a depravação do pecado? Poderíamos defender que Sua natureza moral foi imersa no egoísmo que infectou toda a raça humana? Egoísmo “entretecido em nosso ser” e que “nos veio por herança” (Ellen White, Historical Sketches, p. 138, 139)? Poderia Jesus Cristo ser realmente como nós em Sua natureza moral, e ainda assim estar qualificado para ser o nosso advogado, intercessor e substituto?

Cristo foi “infectado” ou “afetado” pelo pecado?

De fato, afetado, mas não faria qualquer sentido exigir que Ele tivesse sido ao mesmo tempo infectado pela doença sistêmica do pecado, que nos envolve a todos, e que é precisamente a base da nossa necessidade de redenção.

Muitos creem que Jesus tinha que ser exatamente como nós, ter as mesmas propensões pecaminosas inerentes, para poder nos ajudar. É procedente esse tipo de raciocínio? Em última análise, essa é outra má compreensão. Em primeiro lugar, porque era impossível Jesus suportar cada tentação que sobrevém aos diferentes tipos de pessoas. Se Ele, por exemplo, era homem, solteiro e pobre, como poderia “ser tocado pelos sentimentos” das mulheres, dos casados e dos ricos? Uma pessoa não é tentada em termos daquilo que ela não é. Em segundo lugar, além de impossível, seria inútil que Jesus experimentasse cada tentação que cada pessoa enfrenta. A tentação tem significado apenas quando ela é adequada a uma pessoa em particular. O diabo tentou Jesus com apelos que se constituíram em tentação para Ele. O uso da Sua divindade em benefício próprio, por exemplo. Finalmente, além de impossível e inútil, seria desnecessário para Jesus lutar com cada tentação que sobrevém a cada pessoa. Cristo necessitou apenas vencer onde Adão falhou, sem necessitar ter as propensões para o pecado. A acusação de Satanás não era que seres pecaminosos não poderiam guardar a lei de Deus, mas que Adão, antes da queda, não podia fazê-lo. Jesus desfez o engano, assumindo a humanidade, não como qualquer descendente de Adão, mas como o segundo Adão (Rm 5:12-21; 1Co 15:45-47), ainda que, do ponto de vista físico, em condição de extrema desvantagem.

Então, onde está a identificação de Cristo conosco, em nossas tentações?

Em Sua vitória sobre a essência do pecado! Em sua base, toda tentação tem um elemento comum: levar-nos a viver de forma independente de Deus; levar-nos a romper com a lealdade a Ele, por prazer, honra, posição ou vantagem. Jesus venceu a causa básica do pecado, afirmando Sua completa dependência de Deus e Sua lealdade absoluta a Ele. Aí Ele esmagou a cabeça da serpente, e em Sua vitória está assegurada a nossa vitória.

Jesus, portanto, estava plenamente qualificado para ser a nossa oferta.

Como poderia Jesus ser realmente nosso substituto, a oferta vicária pelo pecado, se Ele fosse exatamente como nós, em Sua natureza moral e espiritual? Neste caso, Ele próprio estaria em necessidade de um redentor, e assim não passaria no teste de qualificação para ser a nossa oferta. No antigo santuário, uma das exigências cruciais para as ofertas que tipificavam o Redentor futuro era que “nenhuma coisa em que haja defeito oferecereis, porque não seria aceita a vosso favor” (Lv 22:20). Não é de surpreender, portanto, que para Ellen White, “o homem não pode fazer expiação pelo homem”, uma vez que “sua condição caída constituiria uma oferta imperfeita” (Review and Herald, 17/12/1872, citado por W. Whidden, Ellen White e a Humanidade de Cristo, p. 38). Assim, ela afirma: “Por um lado, Cristo é um representante perfeito de Deus; por outro, Ele é um espécime perfeito da humanidade sem pecado” (SDABC, v. 7, p. 907). A conclusão lógica é inevitável e reveladora: “Ele não necessitou de expiação” (Review and Herald, 09/21/1886). Foi o nosso perfeito, imaculado, puro e todo-suficiente Redentor!

terça-feira, novembro 23, 2010

De olho no darwinismo

Sérgio Mats mora em Caxias, perto de Oeiras, a mais ou menos dez quilômetros de Lisboa, Portugal. Ele é técnico em informática e trabalha há cerca de dez anos na área de instalação de sistemas informáticos. Nas horas livres, mantém o ótimo blog Darwinismo, no qual tece críticas à teoria da evolução e aborda outros assuntos de seu interesse. Nesta entrevista, concedida ao jornalista Michelson Borges, Sérgio fala um pouco desse seu hobby internético:

Quando e por que resolveu criar um blog de crítica ao darwinismo?

Comecei a pôr textos neste blog há cerca de cinco anos. Se bem me lembro, na época eu lia muito o blog do Bill Dembski e uma das coisas que ele fazia era mostrar os vários blogs sobre Design Inteligente (DI) que iam surgindo por todo o mundo. Comecei aquele blog com a intenção de publicar lá artigos sobre o design inteligente e enviar os posts aos jovens da igreja. No entanto, em 2005 e no ano seguinte, não pus no blog muita coisa.

Em 2007, decidi me dedicar mais ao criacionismo (e não só ao DI) e recomecei a pôr no blog informação relacionada. Em fevereiro de 2008, achei boa ideia abrir também um blog com a mesma temática no Wordpress, como forma de atingir mais pessoas.

Foi também nesse ano que um dos antigos pastores da igreja me deu a excelente ideia de traduzir os textos para o português em vez de enviá-los em inglês para as pessoas da igreja.

E por que nomeá-lo de “Darwinismo”?

Porque queria um nome que pudesse ser facilmente relacionável com a temática dele. Darwinismo pareceu uma boa ideia.

Sua área de atuação é a informática. E seu interesse por ciência e religião, de onde vem?

O interesse por Deus vem desde que eu era criança, uma vez que a religião faz parte da cultura da minha família. Meu pai foi educado como sacristão e minha mãe é filha de um catequista. Desde criança sempre soube que Deus existe, portanto, o interesse por religião sempre esteve presente.

No fim do século passado (em 1999, para ser mais exato), comecei a entrar em canais de discussão muçulmanos e, como consequência, comecei a me envolver em debates teológicos. Durante os dois anos seguintes tive vários e longos (bem longos) debates com muçulmanos de todo o mundo, e isso foi bom na medida em que Deus me ensinou muito sobre a historicidade e confiabilidade da Bíblia. Aprendi o quão firmes são as evidências que suportam a ressurreição do Senhor e aprendi muitos e bons argumentos para a defesa da fé.

Entretanto duas coisas mudaram um pouco minha forma de debater: (1) o 11 de Setembro e (2) o fato de um muçulmano ter violado minha conta do Yahoo (a que eu usava para debater com eles. Por isso - e não só - é que tento não revelar muito de mim na internet).

Quando reparei na forma como os muçulmanos defendiam os muçulmanos que mataram mais de três mil americanos inocentes, afastei-me um pouco deles. O fato de minha conta ter sido quebrada também me deixou um pouco apreensivo, uma vez que suspeito que quem fez isso era alguém com algum poder dentro da Yahoo.

Entretanto, o “bichinho” do debate ficou em mim e provavelmente por isso comecei a entrar em canais de discussão ateus. Quando os ateus começaram a reparar que eu defendia o que os cristãos sempre defenderam, pressionaram-me para dizer se eu também acreditava que o mundo tinha sido feito em seis dias, há cerca de seis mil anos. Na época, eu não sabia quase nada do criacionismo, uma vez que a organização religiosa em que eu havia crescido raramente aborda esse tema. Eu acreditava nos mitológicos “milhões de anos”, mas não estava muito à vontade em defender Adão e Eva como figuras históricas. No entanto, não discutia muito sobre esse tema porque não tinha muitos argumentos para defender a historicidade de Gênesis.

Mas acabei chegando a um ponto além do qual não tinha mais para onde recuar: ou aceitava o que Deus diz ou negava o que Ele diz. Não havia meio termo. Tomando uma posição de fé, resolvi dizer isto a Deus: “Deus, eu não sei como, nem sei quando, mas se a Tua Palavra diz que Tu criaste o universo em seis dias, e que a Terra é recente, então eu vou acreditar até que alguém me mostre que isso é falso.”

Uma coisa espantosa começou a acontecer: depois de eu ter tomado essa posição de fé, Deus começou a Se mover e a colocar na minha vida pessoas e cientistas (como este meu irmão) que demonstravam como a Bíblia e a ciência estão em perfeito acordo. Não há nenhuma observação científica que contradiga os seis dias da criação nem a Terra “jovem”, e isso me foi mostrado várias vezes por várias pessoas em todo o mundo.

Uma coisa que fica disto para mim é: sem fé não só é impossível agradar a Deus, como é impossível entender a Bíblia. Deus só nos abre o entendimento da Sua Palavra quando nós abrimos o coração para ser ensinados. Se nos determinarmos a não aceitar o que Deus diz, Sua Palavra vai ser sempre um “mistério” para nós.

Um dos grandes pontos fracos do darwinismo diz respeito à impossibilidade de surgimento da informação complexa e específica necessária para a existência da vida. Como profissional que lida com informação, o que você diz sobre isso?

Esse, sem dúvida, é dos argumentos mais fortes contra a mitologia da evolução. Pessoas que lidam com sistemas em que basta haver uma pequena falha para danificar o conjunto integral são menos susceptíveis de aceitar a proposição de que a informação codificada presente na biosfera teria origem não inteligente. Mesmo pessoas que não lidam com informática sabem que basta uma palavra ou uma letra fora do lugar para mudar por inteiro o significado de uma frase (ou mesmo destruir todo e qualquer significado que a frase possa ter).

Agora, postular que os variados sistemas de informação presentes atualmente no mundo possuem causas aleatórias é esticar a credulidade para áreas que vão para além da astrologia ou cartomancia.

Informação tem sempre uma causa inteligente, e como há informação nas formas de vida, então, Alguém as criou. Não há alternativa.

Em sua opinião, que outras fragilidades podem ser apontadas no darwinismo?

Basicamente, aquelas que muitos outros já mostraram: a falta de um mecanismo capaz de transformar, por exemplo, um réptil em uma ave, ou um animal terrestre numa baleia; a falta de uma linhagem clara no registro fóssil; e o total fracasso dos modelos naturalistas para a origem da vida.

Essencialmente, a origem de informação é o maior problema para o evolucionismo. Todo o resto gira à volta disso.

A que você atribui o crescimento de iniciativas e campanhas dirigidas pelos neoateus ou ateus militantes, como Richard Dawkins?

Como o ateísmo é uma religião reacionária (só existe como forma de responder às alegações do cristianismo), acho que os neoateus têm-se tornado mais declarados pelo fato de estar havendo um ressurgimento do cristianismo no mundo. As vozes cristãs estão invadindo áreas que os militantes ateus consideravam suas e isso os deixa preocupados. Daí sua ferocidade.

Para você, quais os pontos fortes e fracos do criacionismo?

Os pontos fortes são, sem dúvida, a origem da informação genética e o registro fóssil. A área em que nós cristãos temos que nos debruçar mais é na cosmologia. Hoje em dia, temos excelentes cientistas cristãos que são totalmente antievolucionistas, mas que, no entanto, ainda subscrevem aos mitológicos “milhões de anos” sem se aperceberem de que foram esses “milhões de anos” que serviram de base para o evolucionismo.

Aos poucos, mais e mais blogs de crítica ao darwinismo vão surgindo. A que você atribui esse fenômeno recente?

Ao fracasso científico dos modelos naturalistas e talvez a alguma aversão ao dogmatismo evolucionista. Os evolucionistas têm esticado as respostas evolutivas para áreas que vão para além da ciência e isso pode levar alguns cientistas não cristãos a se insurgirem.

Que livros você estudou para fundamentar sua cosmovisão e os quais você indicaria para os interessados na controvérsia entre criacionismo e evolucionismo?

Dois bons livros são: The Biotic Message, de Walter ReMine, e Evolution: A Theory in Crisis, de Michael Denton.

Um excelente artigo que practicamente resume os argumentos mais fortes contra o mito darwinista é este: “Evidences for macroevolution”. Este também é bom: “Five major evolutionist misconceptions about evolution”.

sexta-feira, novembro 19, 2010

Apologética cristã: uma necessidade presente

Marina Garner Assis mora atualmente em Caxias do Sul, RS, mas nasceu bem longe de lá, em Hong Kong, na China, quando o território ainda era colônia inglesa. Por isso, ela aprendeu inglês como primeira língua. Nascida em 1986, começou a cursar Nutrição, mas abandonou a faculdade para estudar Teologia no Unasp, campus Engenheiro Coelho, onde se formou em 2009. Atualmente, ela trabalha como professora de Ensino Religioso, Inglês e Educação Para a Vida na Escola Adventista de Caxias do Sul. Hobbies? Passar tempo com o marido, o pastor Luiz Gustavo Assis, jogar basquete, mergulhar nas férias, viajar e, é claro, estudar apologética, que é o tema principal desta entrevista concedida ao jornalista Michelson Borges.

O que é apologética cristã e desde quando você teve o interesse despertado para essa área?

O nome dessa área de estudos vem da palavra grega apologia, que significa “defesa”. Era o que se fazia quando o réu de um tribunal queria se defender diante das alegações feitas contra ele. A apologética cristã, portanto, é a defesa do cristianismo. Ela se divide em diversas ramificações, como a histórica, filosófica, arqueológica e científica.

Pessoalmente comecei a me interessar por essa área no primeiro ano da faculdade de Teologia e recentemente me peguei perguntando por quê. Cresci numa família sem religião, apesar de minha mãe ser católica, na época a influência maior era do meu pai que mantinha a filosofia ateia. Na adolescência, encontrei a igreja e me identifiquei muito com as crenças bíblicas. Não podia imaginar o que me esperava depois da minha entrega total a Deus e de depositar confiança irrestrita em Seu Livro. Fui repetidamente bombardeada com perguntas científicas, sobre a historicidade da Bíblia, sobre a existência de Deus, sobre a confiabilidade dos manuscritos bíblicos e questões filosóficas. Tudo isso para uma adolescente de 14 anos! Fiquei confusa e frustrada por não poder dar respostas à altura para minha família. Foi então que, com todo o acesso que eu tinha a materiais na biblioteca da faculdade, comecei a pesquisar tudo o que não sabia até então. E desde lá, a apologética se tornou minha paixão. Comecei a perceber que tudo o que eu queria escrever, ler e pesquisar estava na área da apologética. Completei dois TCCs nessa área e dois trabalhos apresentados na faculdade, além de pesquisas menores. E agora formada, continuo empenhada em aprender mais e deixar meus familiares com mais questionamentos do que eles me faziam!

Hoje, mais do que nunca, parece que essa disciplina volta a ser necessária. Você concorda? Por quê?

Acredito que desde o Renascimento, período em que as dúvidas começaram a surgir na mente até do povo mais religioso, a apologética tem sido cada vez mais necessária. Porém, nunca se viu surgimento tão grande de ateus ativistas quanto nesses últimos cinco anos. Portanto, sim, essa disciplina precisa estar na mente de todos aqueles que se dizem cristãos. O motivo? Primeiramente (e simplesmente), porque é bíblico! Pedro, o discípulo que provavelmente tinha muita dificuldade com assuntos mais intelectuais, escreveu em 1 Pedro 3:15: “Antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós.” Deus nos pede para amá-Lo com todo o nosso coração, mas também nos pede para amá-Lo com toda a nossa mente. Isso é muito sério! Quer dizer que não adianta sabermos versos de memória e irmos para a igreja; significa que precisamos pesquisar as razões pelos quais acreditamos nisso!

Apesar de haver muitos céticos que questionam aspectos da religião e da Bíblia, há também multidões de pós-modernos para quem tanto faz como tanto fez. Em sua opinião, como os cristãos podem tornar relevante essa discussão sobre evidências tanto para céticos quanto para pós-modernos e/ou secularizados?

Devo dizer que, por experiência própria, é mais difícil chamar a atenção de um pós-moderno do que de um ateu. Eles não veem relevância naquilo que dizemos e não veem necessidade para a vida deles. Primeiro, a forma mais eficaz de ter essa discussão é mostrar na sua vida como isso é relevante. Eu creio plenamente que se nossa vida está de acordo com o Deus em quem cremos, isso falará mais alto que qualquer debate. O que mais mexe com essa classe de pessoas são os problemas. Se eles tiverem um problema no casamento e virem que o casamento dos “crentes” é maravilhoso, isso chama a atenção. Se eles não conseguem criar os filhos com disciplina e amor, e virem isso acontecendo em nossa vida, isso chama atenção. Então eu diria que esta é a parte mais importante: o testemunho.

Agora, em segundo lugar, precisamos convencê-los de que os fatos têm um lugar extremamente importante em como vivemos a vida. Você não pode, por exemplo, mergulhar (algo que eu gosto muito de fazer) a 30 metros de profundidade, ver que o ar do seu tanque está acabando e simplesmente ignorar esse fato. Só porque não quero que o ar esteja terminando para eu poder ficar mais um pouco debaixo d’água, isso não vai mudar o fato de que o ar está terminando. A verdade vai continuar sendo verdade, quer eu acredite nela ou não. A opção de segui-la ou não é nossa. Mas se a Bíblia e os ensinamentos dela forem verdade mesmo, há sérias consequências em escolher não viver de acordo com elas. O pós-moderno precisa entender isso, e a partir de então, as evidências que a apologética cristã apresenta serão cruciais para a aceitação dessa verdade. Se você simplesmente pregar a Bíblia para um pós-moderno ou secularizado, dificilmente haverá a resposta esperada. Agora, quando o assunto é história, arqueologia, ciência, esses são assuntos que os atraem e que podem trazer resultados.

Para você, quais são os melhores argumentos para a existência de Deus?

Se fosse apresentar todos aqui, ocuparia bastante espaço desta entrevista. Mas deixe-me resumir meus preferidos para você:

Argumento da moralidade: é meu argumento número um porque até hoje nenhum cético conseguiu me responder devidamente. O princípio é básico: existe o mal? Sim! Se existe o mal, então existe o bem. Se sabemos a diferença entre o certo e o errado, o bem e o mal, deve existir uma espécie de lei que separa um do outro (por exemplo, sei que matar é errado e sei que doar alimentos para os pobres é certo). Se existe essa “lei moral” implícita em cada ser humano, alguém tem que ter criado essa lei. Portanto, alguém foi o “doador” dessa lei para nós. A única explicação é um Deus maior que “colocou essa lei no coração humano”. Soa familiar?

Argumento histórico: nunca houve uma sociedade que não cresse num ser divino; somente isso já é uma demonstração de que a noção desse “ser” está em nós desde que nascemos e desde que há humanidade.

Argumento da origem: nada vem do nada, todos cremos nisso e até mesmo os que defendem a teoria do Big Bang entendem que nada pode ser criado sem um material anterior para fornecer essa possibilidade. Se tudo vem de alguma coisa, algo ou alguém tem de ser eterno.

Argumento teleológico: os planetas, os sistemas, as estrelas, tudo está em perfeita ordem. Como? De acordo com a Segunda Lei de Newton, todo o tipo de matéria vai da ordem para a desordem. Se realmente o mundo e tudo que existe no universo veio de uma explosão, nada deveria ser tão “organizado” assim. Somente com a explicação de um Ser inteligente por trás da criação é que podemos entender tanta perfeição.

E os melhores argumentos para convencer alguém de que a Bíblia é singular e confiável?

Profecias: não creio que exista argumento melhor do que esse. Como alguém pode escrever o que aconteceria nos mais perfeitos detalhes cem ou mil anos antes de acontecer?

Os manuscritos: nenhum documento histórico tem tantas cópias e fundamentos do que a Bíblia. Só o Novo Testamento possui mais de 5 mil cópias e 99,9% do conteúdo é extremamente confiável, em comparação uma com a outra. A proximidade dos manuscritos encontrados em relação ao tempo do acontecimento que eles relatam é muito grande. Tome por exemplo o livro de Marcos, escrito mais ou menos apenas 30 anos após a morte de Jesus! Isso não acontece com qualquer outro documento.

Arqueologia: apesar de a arqueologia ser limitada por não poder provar a existência de Deus ou a divindade de Jesus, ela tem confirmado diversos eventos, pessoas e locais que estão descritos na Bíblia.

Os perdedores: normalmente se acredita que os “vencedores” são aqueles que escrevem a história, e sempre a seu favor. Percebe-se a originalidade da Bíblia no sentido que ela não “conta vantagem”: foram os mártires, os perseguidos, os crucificados, os odiados e os pobres que a escrevem. Por quê? Para manter a verdade em pé!

Transformação: talvez na atualidade o melhor argumento que a maioria dos cristãos daria, e que não deixa de ser real e confiável, é a transformação que a Bíblia opera na vida de milhões de pessoas. Qual a primeira coisa que você faz antes de comprar um produto pela internet? Você verifica a opinião daqueles que já compraram. Se existe alto índice de desaprovação, provavelmente você irá atrás de outro produto ou outra marca. Mas se a aprovação é geral, você saberá que o produto é confiável. Ao ver tantas pessoas relatando mudanças de vida, coisas que provavelmente elas nunca conseguiriam sozinhas, constatamos que esse Livro, que essa mensagem tem muito poder!

As pessoas devem aceitar Deus e se relacionar com Ele pela fé ou pela razão? Ou ambas?

Como eu disse anteriormente, Deus pede para nós O amarmos com as duas coisas. Deus não nos deu um cérebro para pesarmos 1,5 kg a mais na balança. Ele nos deu o cérebro com a finalidade principal de vermos as provas e evidências que Ele nos deixou de Sua existência. Tanto por meio da grandeza do universo e das belezas naturais, quanto de fatos históricos e filosóficos que nos levam a ter certeza de que não existe outra saída a não ser confiar nossa vida e nosso futuro nas mãos dEle. A fé tem seu lugar, um importantíssimo lugar, diga-se. Existe um ponto que a razão não ultrapassa. Aquele ponto que os crentes e os descrentes não conseguem entender. Coisas que a razão não pode perscrutar, como a divindade de Cristo, a confiança nos planos de Deus, o Céu. Como será o Céu? A Bíblia diz que nem olhos viram nem ouvidos ouviram o que Deus tem preparado para nós. Existem coisas que só uma fé bem embasada pode compreender. Mas isso não é desculpa para não exercitarmos a razão.

O ateísmo militante vem ganhando força. A que você atribui esse fenômeno?

Creio que o principal motivo seja o pseudo-intelectualismo que a mídia tem nos trazido. É só passar alguns minutos na internet, ler revistas como a Superinteressante ou assistir ao Discovery Channel para entender de onde vêm essas ideias extremamente mal fundamentadas. As pessoas querem acreditar em tudo o que puderem para se livrar do compromisso e da vida disciplinada. Se elas encontram “base” para sua vida embalada a álcool, drogas, sexo ilimitado e irresponsável, mentiras e traições, não abrirão mão disso nem que um anjo apareça na frente delas. Não digo que esses ateus são pessoas más; alguns realmente acreditam que inventaram a roda – meu pai mesmo é uma das melhores pessoas que eu conheço –, mas preferem saber apenas sobre um lado da “moeda”, sem ver que existe um exército de advogados e boas evidências do lado do cristianismo também.

Qual a melhor maneira de um cristão dialogar com um ateu?

Primeiro, tem que haver muita paciência. A vontade é de sair falando “um monte” e muitas vezes de “aumentar” as evidências onde elas não existem. Já vi muitas pessoas usarem, por exemplo, a “prova” da arca de Noé lá no Ararate para defender a Bíblia, ou o e-mail dos “gigantes” encontrados. Não é por aí. Se você falar essas coisas pata um ateu culto, estará prestando um grande desfavor para a apologética! Estude e pesquise muito antes de entrar em uma discussão, pois muitas vezes sua própria fé pode ser abalada. Não encare esse tipo de coisa como evangelismo; é muito mais sério e muito mais difícil.

Tem que haver respeito, de ambas as partes. Se o ateu é daqueles arrogantes e blasfemadores, minha dica é que deixe o tempo cuidar dessa pessoa, ou espere momento mais apropriado para falar. Dificilmente conseguiremos convencer alguém assim de alguma coisa. Porém, se for um ateu de mente aberta, faça mais perguntas do que dê respostas. Ateus são muito bons em perguntar, mas péssimos em responder. O método de Jesus continua sendo o melhor de todos: responda uma pergunta com outra pergunta. As brechas históricas e filosóficas do ateísmo são enormes; aproveite-se disso. Não faça referências a sites não oficiais, programas de TV, e muito menos a seu pastor para responder às perguntas. Faça referências a cientistas cristãos, ou até mesmo a ateus famosos que admitiram em certo ponto alguma crença teísta, e também a cientistas e historiadores não cristãos, mas que deram “corda” para o cristianismo. Lembre-se sempre de ir acompanhado com a presença do Espírito Santo; não pense que esse é um trabalho que você pode fazer sozinho. Você precisará das palavras certas e do conhecimento que só Ele pode dar.

Que livros você recomendaria para quem quer fazer uma defesa racional e consistente da fé cristã?

Infelizmente, o estoque de livros em português disponíveis na área da apologética é extremamente restrito. Se você lê inglês ficará muito mais fácil. Mas aqui vão algumas sugestões: Em Defesa da Fé e Em defesa de Cristo, ambos do jornalista ex-ateu Lee Strobel; O Delírio de Dawkins, de Alister McGrath e Joanna McGrath; Por Que Jesus é Diferente? e Pode o Homem Viver Sem Deus?, de Ravi Zacharias; Ortodoxia e O Homem Eterno, de G. K. Chesterton; Ele Andou Entre Nós, de Josh McDowell; Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu, de Norman Geisler e Frank Turek; Ensaios Apologéticos, de Francis Beckwith, William Craig e J. P. Moreland.

segunda-feira, novembro 15, 2010

No vale da sombra da morte

Fernando Brasil nasceu em Curitiba, PR, no dia 25 de julho de 1986, e está concluindo o curso de Teologia no Unasp, campus Engenheiro Coelho, SP. Suas maiores paixões são pregar e cantar. Como muitos jovens de sua idade, ele gosta de esportes, fazer amizades e viajar. Casado havia apenas três anos com Valéria, ambos tinham muitos sonhos em comum. Mas uma tragédia se abateu sobre eles. Nesta entrevista, concedida a Michelson Borges, ele conta um pouco dessa experiência amarga e de como Deus o tem ajudado a enfrentá-la.

Você nasceu numa família espírita. Sua mãe era médium. Como você se tornou adventista?

Aos 12 anos de idade, comecei a estudar na escola adventista. Por meio das amizades e dos momentos de reflexão que tínhamos ali, conheci a Igreja Adventista e o que muito me encantou foi a música sacra. O professor de religião, ao ver esse meu interesse, me levava em todas as suas pregações e pedia para que eu cantasse. Assim fui me familiarizando e sendo tocado a cada sermão. Depois de algum tempo, me afastei um pouco dos amigos da igreja, até que meu avô paterno foi diagnosticado com câncer, algo que mexeu muito comigo e me fez correr de vez para os braços de Jesus. Ao tomar essa decisão, encontrei certa resistência por parte de alguns familiares e isso me fez adiar um pouco mais a entrega total. Chegou o momento em que pensei: Não importa se alguns familiares estão contra, o que importa é fazer a vontade de Deus, e então fui batizado.

Valéria foi sua primeira namorada. Quando a conheceu e como foi o começo do namoro?

Como fazíamos parte do mesmo distrito pastoral, algumas vezes nos víamos de longe. Eu tinha vontade de falar com ela, mas ela era muito bonita e eu tinha receio de que ela não quisesse nada comigo. Minha surpresa foi que fomos estudar na mesma sala na escola adventista, cada um vindo de uma escola diferente. Quando a vi, pensei: Deus a colocou na minha sala! Alguns dias depois do começo das aulas, pedi-a em namoro e, pra minha surpresa – e para a dela também, já que nunca tinha namorado –, ela aceitou. Eu tinha 17 anos e ela, 16. Logo conversei com os pais dela e me transferi para a igreja que ele frequentava, para ajudar lá.

Fale sobre a decisão que tomaram de estudar no Unasp. Que desafios enfrentaram? Já pensavam em casamento na época?

Desde o princípio do namoro, eu falava para ela sobre a vontade de estudar Teologia, e ela tinha o sonho de estudar em um colégio interno, mas parecia algo meio distante. Fomos desafiados a ir para a colportagem, mas encontramos muitas dificuldades, o que fez com que eu desistisse da faculdade de Jornalismo (que apenas havia começado) e me dedicasse exclusivamente ao ministério da página impressa. O namoro sempre foi muito sério e planejávamos o casamento. Não passei no vestibular para Teologia, na primeira vez que o fiz. Ficamos abalados, mas continuamos firmes, colportando mais um ano sem parar e depois fomos para o Unasp: eu comecei Teologia e ela, Pedagogia.

Por que você quis cursar Teologia?

Por dois motivos: chamado e vocação. O chamado foi fortalecido com experiências espirituais marcantes e o desejo no coração de servir a Deus, levando a mensagem às pessoas. A vocação despertou no contato com os pastores e na admiração pelo trabalho deles. Ao realizar atividades pastorais ao lado de pastores amigos, isso me fez crer que tenho vocação para essa missão.

Quando descobriram que sua esposa tinha leucemia? Como receberam a notícia?

Nos casamos no dia 17 de agosto de 2008. Foi a cerimônia dos sonhos. Depois de um ano e oito meses, no fim do mês de abril, ela começou a se sentir fraca, com sensações de desmaio, e fomos ao médico. Depois de um exame de sangue, logo a transferiram ao hospital da região. Quando percebi a gravidade do caso, parecia que o mundo estava desabando na minha cabeça. Sozinhos, longe dos familiares, o que poderíamos fazer? O quadro era grave e os médicos diagnosticaram leucemia. Ela ficou decepcionada, mas confiante na cura. No momento do diagnostico, liguei para um pastor amigo meu cuja esposa estava com câncer. Ele me aconselhou a agradecer a Deus e louvá-Lo por tudo, inclusive, pela dificuldade. Então fui ao banheiro do hospital, me ajoelhei ali e orei a Deus pedindo para que Ele desse tempo para o tratamento e para que pudéssemos louvá-Lo em meio à dificuldade. Depois me dirigi à enfermaria onde a Valéria estava, abri a Bíblia em Lucas 8:43-48 e disse para ela que basta termos fé.

Fale sobre o período do tratamento. Vocês esperavam a cura, não? O que mais lhe confortou nessa época?

O medico me abordou e disse que ela teria uma semana de vida se não começasse o tratamento imediatamente, e que eu deveria estar pronto porque seria difícil, mas não impossível. O tratamento foi muito intenso e desgastante; os furos de agulhas foram muitos; as veias ficaram todas machucadas, e as reações de cinco dias de quimioterapia de 24 horas sem parar foram muito fortes. Seriam três sessões. Durante o tratamento, li a Bíblia com ela e cantava várias musicas. Ela estava muito confiante e eu também, porque, apesar das dificuldades, os médicos estavam admirados com a recuperação. Ela sentia Deus muito perto e cuidando dela, e me dizia: “Deus até pensou na lição da Escola Sabatina por mim!” O tema era fé e cura. Ela também leu o livro Uma Nova Chance, da CPB, sobre a cura de um câncer. Nessa época, muitas pessoas ajudaram. Fiquei ao lado dela o tempo todo. Sofremos juntos. Perdi quase oito quilos. A dor foi muito intensa, mas mantínhamos a confiança, porque Deus Se preocupa conosco.

A notícia da morte da sua esposa em algum momento abalou sua fé?

Quando pensamos que não conseguiremos mais continuar, Deus nos dá uma força tremenda, para mim inexplicável. Quando recebi a noticia, lembrei de como estava o relacionamento dela com Deus e fiquei confortado na certeza de que ela estará no Céu. Mas, da minha parte, pensei ter chegado a hora de mostrar o que é fé para mim e para os outros; louvar a Deus, apesar das dificuldades; sentir na pele a diferença entre a teoria e a prática. Minha fé não foi abalada, e sim fortalecida. Porque, sem fé, para onde vou correr? A saudade é a pior dor do mundo, mas a esperança é o melhor remédio.

Você diz que Deus Se aproximou mais e falou com você nesses momentos de dor.

Sim, de formas incontáveis. Ele me preparava para a dor por intermédio de pessoas e situações. Eu vi o cuidado dEle comigo e com ela. Toda vez que eu achava que não iria conseguir mais, Ele me fortalecia.

Como você concilia a dor com o texto de 1ª João 4:8, que diz que Deus é amor?

Vivemos em um mundo cheio de dificuldades em decorrência do pecado, mas Deus nos reserva uma eternidade de paz. Deus é amor e Seu propósito sempre é o de nos salvar. O que são os anos na Terra comparados à eternidade no Céu?

Há quem diga que, geralmente, quem se revolta contra Deus é aquele que apenas “filosofa” sobre a dor, não o que a sente. Você concorda?

Sim, de maneira bem racional, no momento de dor, não há para onde correr se não for para Deus. Somos impotentes, incapacitados e necessitamos do conforto e do auxilio de um Ser superior.

O que mudou em sua experiência religiosa?

Pude, de maneira prática, conhecer o Deus consolador. A teoria e a prática, quando falamos de sofrimento, estão em realidades bem distantes. Somente quem já sofreu conhece realmente a dor, e quem já foi consolado consegue falar de consolo. Tenho consolado muitas pessoas porque posso me compadecer do sofrimento delas por eu ter vivido o meu.

O que diria para alguém que está sofrendo a perda de uma pessoa amada?

Romanos 8:16 é meu texto preferido; leio-o constantemente. Deus não quer o sofrimento de ninguém. Isso é consequência do pecado. Mas os sofrimentos deste mundo não podem ser comparados com a glória do porvir. Deus tem um lugar melhor para todos nós e logo estaremos lá.

quinta-feira, novembro 11, 2010

Jornalismo, teologia e ciência

Michelson, fale um pouco sobre sua infância e a influência que a religião teve sobre ela?

Venho de uma família católica. Minha mãe sempre foi muito devota e nos levava à missa desde pequenos. Por outro lado, tínhamos livros de ciência em casa; enciclopédias interessantes e ilustradas que meu pai havia adquirido anos antes de eu nascer, e que despertaram meu gosto pela ciência (meu nome vem de um desses livros, que traz uma reportagem sobre o físico Albert Abraham Michelson). Agradeço aos meus pais por essa herança religiosa e científica que me ajudou a buscar em Deus e no conhecimento as respostas para muitos dilemas que enfrentei na adolescência e juventude [na foto acima, estou com meu presente de aniversário de oito anos: um microscópio]. Foi nessa busca que acabei encontrando o adventismo e o criacionismo e completando minha formação religiosa/filosófica.

Como foi que você escolheu fazer jornalismo? E teologia? Foi difícil conciliar as duas carreiras?

Fui batizado na Igreja Adventista na mesma época em que passei no vestibular para Jornalismo na UFSC. Sempre gostei de escrever e pesquisar assuntos diversos. No ensino médio (cursei química), criei um jornal para o colégio e era muito prazeroso escrever e editá-lo. Isso me ajudou a definir a escolha por Comunicação Social. Depois de formado e trabalhando na editora da igreja, cursei o mestrado em Teologia no Unasp, um sonho que estava acalentando fazia tempo. Se é possível conciliar as duas áreas? Para mim, que trabalho na imprensa da igreja, é bem mais fácil, sem dúvida. A comunicação pode e deve ser usada para transmitir valores e mensagens de esperança. Se trabalhasse na imprensa secular, seria um pouco mais difícil essa conciliação, mas não impossível, evidentemente.

Quando você começou a defender a bandeira do criacionismo? E como foi a concepção do blog Criacionismo?

Eu era evolucionista teísta antes de conhecer o criacionismo. Naquele tempo, havia pouca literatura sobre o assunto e pouquíssimas pessoas sabiam o que é criacionismo (hoje, muitos já ouviram falar, mas de forma preconceituosa, infelizmente). Quando descobri que havia uma teoria que procura harmonizar coerentemente o conhecimento teológico com o conhecimento científico, fiquei fascinado e comecei a me aprofundar no assunto. Anos depois, resolvi disponibilizar em linguagem acessível todo o resultado dessa pesquisa. Nasceu o blog www.criacionismo.com.br.

É aparentemente difícil que grandes intelectuais interajam com ideais religiosos e criacionistas, mas você vai na contramão deles. Por quê?

Na verdade, a profundidade em ciência e filosofia nos aproxima de Deus. Bons exemplos disso são os grandes cientistas fundadores do método científico, como Galileu Galilei, Isaac Newton, Copérnico, Van Helmont e outros. Eram homens de ciência e de fé. Poderia citar ainda Blaise Pascal, Antony Flew e os brasileiros César Lattes e Marcos Eberlin. Portanto, considero-me em muito boa companhia...

Segundo o professor do curso de jornalismo do Unasp, Allan Novaes, todo ser humano passa pelo menos uma vez na vida por uma situação extremamente difícil. Situação essa que o obrigará a sair de sua “zona de conforto”. O resultado disso seria uma fé definida, e com raízes mais fortes, em nosso Criador, ou a ausência dessa fé. Você já passou por essa experiência? Se sim, pode compartilhar conosco?

A conversão ao adventismo, no fim da década de 1980, foi um momento crucial em minha vida. Tive que repensar muitos conceitos e Deus precisou permitir que algumas situações marcantes ocorressem para que eu percebesse a necessidade de mudança. Minha esposa e eu estamos relatando essas experiências no livro “Deus Nos Uniu”, cujos capítulos (ainda em construção) estão disponíveis num link em meu blog.

O que o faz levantar cada dia neste mundo, e mesmo em meio a tanta maldade, acreditar que haja um Deus que Se preocupa com você? Por que acreditar que esse Deus irá voltar aqui?

Apesar da maldade e dos problemas do mundo, quando contemplo a harmonia fina das leis que regem o universo e a complexidade integrada e irredutível dos processos biológicos, não posso pensar em outra coisa senão em louvar a Deus. Os problemas nessa criação mostram que houve algo de errado na história passada que ainda afeta nosso planeta, mas não que não haja um Deus Criador. Esse Deus Se revelou na Bíblia e esse livro me diz que Ele me ama e materializou esse amor na vida e na morte de Jesus. Tudo o que as profecias bíblicas anunciaram tem se cumprido à risca. Por que vou duvidar de que a última profecia dela vá se cumprir? Creio de todo o coração e mente que Jesus voltará, pois não faria sentido ter morrido para nos redimir e nos deixar abandonados neste mundo.

O blog A Arte de Pensar tem discordado fortemente, às vezes até de forma ofensiva, dos criacionistas, adventistas e, mais especificamente, do blog Criacionismo e de você como autor. Por que você acha que isso acontece? Em sua opinião, seria possível uma sociedade em que criacionistas e evolucionistas vivessem em perfeito respeito de opiniões?

Confesso que não conheço esse blog, mas conheço pessoas que discordam de mim e do criacionismo. Já li muitos livros desse tipo. Isso é bom. O contraditório é importante para que o conhecimento seja ampliado e erros, corrigidos. Analisando o assunto mais a fundo, percebe-se que as discordâncias têm que ver com o aspecto filosófico das cosmovisões. Naturalistas e teístas/criacionistas nunca vão concordar no que diz respeito à existência ou não de Deus, pois assumem sua posição a priori, de maneira filosófica. Poderia haver acordo se ambos se despissem da filosofia e tratassem apenas da ciência experimental. Daquilo que pode ser verificado em laboratório, como a microevolução, por exemplo. A indisposição dos evolucionistas de conhecer melhor as pressuposições criacionistas tem atrapalhado e muito o diálogo. Mas também há criacionistas que mal conhecem a ciência e o pensamento darwinista e que atrapalham igualmente a aproximação entre os dois grupos.

O escritor cristão C. S. Lewis em seu livro Cristianismo Puro e Simples diz que pode haver muitos que seguem crenças erradas mais perto de Cristo do que alguns que seguem as crenças corretas. Isso vale para evolucionistas também, que conhecem o criacionismo e, mesmo assim, ignoram a existência de Deus?

Isso pode acontecer, sem dúvida, pois sinceridade nem sempre tem que ver com conhecimento doutrinário/científico. Mas também creio que somos responsáveis pelo conhecimento que está à nossa disposição e que conscientemente negligenciamos conhecer. Se Deus existe e eu o nego, posso estar descartando a maior revelação do universo e que vai determinar minha vida eterna. Isso é muito sério para ser tratado com desprezo. Se a Bíblia é de fato a palavra desse Deus e eu a descarto por puro preconceito, sem estudá-la, dando-lhe o “benefício da dúvida”, minha perda pode ser igualmente eterna e de consequências drásticas. Se a pessoa é realmente sincera, vai procurar conhecer o que está por trás das discussões e finalmente encontrará a verdade. Assim creio.

Stephen Hawking, uma das grandes mentes da atualidade, disse certa vez: “Há uma diferença fundamental na religião, que se baseia na autoridade, e na ciência, que se baseia na observação e na razão.” Essa afirmação é verdadeira? Por quê? Podemos basear a religião na razão também?

A própria afirmação de Hawking contradiz o que ele afirma. Devo aceitar a opinião dele só por que vem da autoridade dele? Na ciência também há muito de autoridade e metafísica; nem tudo é só “observação e razão”. Tente criticar Darwin ou o darwinismo em público e você verá como isso é verdade. Creio que tanto na ciência quanto na religião as pessoas deveriam buscar a verdade por si mesmas, aliando fé e razão. A verdadeira religião é experimental (relação com Deus) e racional (a apologética que o diga).

Stephen Hawking passou por experiências ruins que o levaram ao ateísmo. Uma delas foi que em sua infância, ao questionar uma autoridade religiosa local sobre a certeza de um Criador, foi duramente repreendido. Outro grande pensador, Darwin, parece ter criado a teoria da evolução a partir de uma “rixa” que teve com Deus. Você acha que o ateísmo deriva de observações concretas ou da raiva que eles têm de Deus?

O ateísmo pode ter muitas razões. Pode ser a influência de família ou mesmo a transferência para Deus de mágoas de infância contra o pai, como bem explica o livro Deus em Questão, de Armand Nicholi Jr. Outro que teve experiências ruins na infância foi Richard Dawkins. Ele admite que sofreu abuso num colégio religioso na Inglaterra. Com certeza, isso fez com que ele desenvolvesse resistência à religião e a Deus. Hoje Dawkins procura argumentos racionais para manter uma posição que, em seu cerne, é emocional. O autor de O Código Da Vinci, Dan Brown, também se decepcionou na infância com religiosos. De ateu acabou se tornando esotérico. E Darwin, quanto se saiba, nunca foi ateu. Foi agnóstico.

Gostaria de mandar um recado aos amigos ou adversários evolucionistas e/ou ateus?

“Analisai tudo, retende o que é bom” (1 Tessalonicenses 5:21).

O que você diria para um futuro jornalista?

Procure obter uma formação eclética, lendo tudo o que puder de várias áreas do conhecimento. Mantenha a mente aberta, mas sem abrir mão de seus valores pessoais. Desenvolva seu senso ético e seja sempre honesto consigo mesmo e com a verdade dos fatos.

(Um Docinho em Forma de Ogro)

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