quarta-feira, maio 25, 2016

Saúde mental e religião

Belisário é psicólogo e filósofo
Psicólogo experiente explica o que é saúde mental e como a religião está relacionada com ela

Belisário Marques de Andrade é mineiro de São José do Salgado. Aos 16 anos foi para o então Colégio Adventista Brasileiro, atual Unasp, campus São Paulo – um marco em sua vida. Formou-se em Educação Física pela USP, em Filosofia pela PUC de Campinas e em Psicologia pela USP, nessa sequência. Lecionou no Unasp, na Umesp e na Unicamp. Fez o mestrado e o doutorado na Universidade de Maryland (EUA), sendo o primeiro psicólogo brasileiro adventista a receber o título de PhD na área. Contribuiu para a abertura dos cursos de Pedagogia e Psicologia do Unasp. Durante 20 anos foi colunista da extinta revista Mocidade, e há mais de uma década escreve para a Vida e Saúde. Nos últimos 15 anos, tem se dedicado exclusivamente à psicoterapia individual, de casal e familiar. É casado há quase 60 anos com sua namoradinha da adolescência, a professora e advogada Geny Daré Marques. Contemplar as montanhas verdejantes e altaneiras de Minas Gerais é o hobby preferido do casal.

As realizações do psicólogo mineiro Belisário Marques de Andrade podem ser contadas por décadas. São mais de oito de vida; quase seis de casamento e cinco de profissão. Nesta entrevista concedida ao jornalista Michelson Borges e originalmente publicada na Revista Adventista, o experiente psicólogo fala sobre o que é saúde mental, como a espiritualidade pode contribuir ou atrapalhar o equilíbrio emocional e quando é necessário que um cristão busque a ajuda de um psicólogo.

O que é uma pessoa mentalmente saudável?

É a que se adapta à realidade em que vive. Assume responsabilidade pelos próprios comportamentos. Satisfaz suas necessidades sem prejudicar a si mesma e as pessoas ao redor. Regula seus sentimentos e emoções, a fim de não criar conflitos com outras pessoas, nem ficar doente. É uma pessoa capaz de enfrentar os desafios do cotidiano sem se aproveitar de ninguém. É uma pessoa com trânsito livre em seus relacionamentos porque não tem dívida com os outros. Geralmente é uma pessoa humilde porque é realista sobre suas qualidades e defeitos. Está sempre em crescimento e sabe cuidar de sua própria vida. Resumindo: é uma pessoa autônoma, livre, autodeterminada, autodisciplinada e responsável.

Quais são as principais doenças mentais?

Atualmente, são aquelas relacionadas ao estilo de vida, como a síndrome do pânico, depressão, ansiedade, bipolaridade, anorexia, bulimia e esquizofrenia. Além de problemas existenciais, como indecisão, relacionamentos insatisfatórios, falta de envolvimento, solidão e medo da morte. É preciso cuidar para não rotular as pessoas a partir de suas patologias, pois as consequências podem ser muito prejudiciais.

Que fatores mais contribuem para o aparecimento ou agravamento dessas enfermidades?

São as condições nas quais a pessoa cresce e vive. Isso inclui fatores como a qualidade dos relacionamentos, estresse, mudanças, pressões e frustrações. Contudo, o que mais agrava a patologia são os conflitos psíquicos ou emocionais com os quais o indivíduo convive, sejam as situações mal resolvidas, os segredos guardados e o medo de serem revelados; a incoerência entre o que pratica e no que acredita, a comparação com os outros, os sentimentos e pensamentos negativos que carrega e a autopiedade.

Os adventistas levam alguma vantagem nessa área?

Não é a religião que faz diferença, mas a religiosidade da pessoa. Religiosidade deve ser entendida como um princípio que você aceita e acredita ser válido, internaliza e transforma numa diretriz da própria vida. Por alimentar sentimentos positivos e esperançosos, a religiosidade saudável traz inúmeros benefícios: melhor autocontrole; autoestima, satisfação no casamento; contentamento com a vida; humor; além de menos envolvimento com drogas, promiscuidade, crime e menor vulnerabilidade ao impulso suicida.

O que fazer, então, para ter uma mente saudável?

Ter um estilo de vida que contribua para promover o mínimo de conflitos. Isso não quer dizer que eles não existirão, mas que será mais fácil aceitá-los e resolvê-los. A saúde mental é como a salvação, um ideal que se busca enquanto estamos por aqui.

E o que dizer do crescente número de estudos sobre o impacto positivo da espiritualidade sobre a saúde?

Nos últimos 20 anos, a Associação Americana de Psicologia (www.apa.org) tem lançado vários volumes tratando dessa questão. O que as pesquisas mostram é que, se a pessoa percebe a Divindade como um ser benevolente e tem um bom relacionamento com essa “força superior”, desenvolve estratégias de enfrentamento mais saudáveis. Para tanto, é preciso que o indivíduo viva uma experiência religiosa de fato e seja coerente com sua profissão de fé.

Por outro lado, uma religião distorcida pode prejudicar também?

Sim e muito. Quando a religiosidade é superficial, hipócrita ou “morna”, como no conceito de Apocalipse 3, os resultados deixam de ser positivos. Vale lembrar que essa distorção pode ser responsabilidade do adepto da religião e/ou do líder dela. Uma religiosidade caracterizada pela encenação, incoerência, imposição, rigidez, intolerância, competitividade, manipulação, agressividade, preconceito, rejeição e autoritarismo alimenta e propaga doenças mentais.

Antigamente, os religiosos tinham certa resistência à psicologia. Esse preconceito acabou?

Preconceito leva tempo para acabar e não sei se realmente acaba. Penso que a resistência surgiu entre os adventistas pela má compreensão do que Ellen White escreveu em 1862, 1884 e 1894: de que Satanás usa a frenologia, a psicologia e o mesmerismo para atingir o ser humano (Mente, Caráter e Personalidade, v. 1, p. 19; v. 2, p. 698, 711). O segundo fator é a crença de que Deus vai resolver todos os nossos problemas, basta esperar. Prefiro crer que Ele não isenta o ser humano de suas responsabilidades na condução da própria vida. Por isso, vejo como válida a ajuda que a psicologia oferece. Hoje, os adventistas parecem ter entendido melhor isso. Temos cursos de Psicologia no Unasp e Iaene. Espero que o trabalho ético dos profissionais formados nessas duas instituições contribua para a maior aceitação da nossa profissão.

Ellen White parece ter falado muito sobre as doenças psicossomáticas. O que a ciência tem revelado sobre isso?

O conceito de psicossomática tem que ver com o debate sobre a origem das doenças. Há os que atribuem as doenças físicas a causas exclusivamente orgânicas; outros veem uma origem psíquica para elas; enquanto um terceiro grupo percebe a influência mútua. Essa última postura é a mais aceita pelos cientistas. Algumas enfermidades que podem ser psicossomáticas são a asma, bronquite, rinite, colites, hipertensão, fibromialgia e algumas dermatites e disfunções sexuais. Ellen White não poderia ter usado essa expressão porque ela surgiu em 1918, três anos após sua morte. Porém, a pioneira escreveu muito sobre a relação entre a mente e a saúde física, especialmente nos dois volumes de Mente, Caráter e Personalidade.

A seu ver, existe alguma abordagem da psicoterapia que combina mais com o adventismo?

Minha visão é tendenciosa porque reflete mais uma preferência pessoal do que uma verdade científica. Acredito que a abordagem do humanismo, fenomenologia e existencialismo, chamados na psicologia de “a terceira força”, aproximam-se mais do adventismo porque valorizam a dignidade humana. Por sua vez, o behaviorismo e a psicanálise são mais deterministas e tendem a negar o livre-arbítrio. O behaviorismo animaliza o homem e a psicanálise realça seus atributos negativos. Entretanto, ambas as vertentes dão grande contribuição para a compreensão da psiquê humana.

O psicólogo cristão enfrenta algum conflito ético em usar princípios de sua religião no exercício da profissão?

Ele é um profissional credenciado e habilitado para oferecer um tipo específico de serviço de saúde, com base somente em técnicas científicas. Se fizer uso da religião e ganhar por isso, pratica charlatanismo. Quando o profissional é religioso, certamente sua conduta testemunhará sobre sua fé, mas fazer proselitismo é antiético. Não existe terapia denominacional ou confessional.

Quando alguém deve procurar um conselheiro espiritual e quando deve procurar ajuda de um psicólogo?

O conselheiro espiritual geralmente é procurado num primeiro momento, quando ainda não se tem noção da gravidade do caso. Sua intervenção é útil quando a questão envolve dúvidas sobre o caráter de Deus e a perda da fé. Porém, se a pessoa descobre que não está conduzindo a própria vida de modo adequado e que os conflitos e as mudanças lhe causam considerável sofrimento, deve procurar a psicoterapia. Em casos de depressão, síndrome do pânico e distúrbios de comportamento, o líder religioso deve reconhecer suas limitações e encaminhar a pessoa para que receba ajuda profissional. Essa é uma questão séria, porque em termos de saúde mental, a pseudoajuda resulta em mais prejuízos do que benefícios. Em resumo, o psicólogo preocupa-se com a saúde mental e o líder religioso com a salvação. 

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