sexta-feira, abril 22, 2011

Terra de Esperança

Floyd Greenleaf nasceu em setembro de 1931, em Braintree, Vermont, Estados Unidos. Estudou no Southern Missionary College, onde se formou em História e Religião. É mestre em ciência com ênfase em história e Ph.D em história latino-americana. Lecionou por vários anos, desde o ensino fundamental, passando pelos ensinos médio e superior, tendo sido também vice-presidente acadêmico do Southern College of Seventh-day Adventists, de 1987 a 1996. Autor de inúmeros artigos publicados em diferentes periódicos, escreveu também os livros Light Bearers: A History of the Seventh-day Adventist Church, em coautoria com Richard Schwarz (publicado em português pela Unaspress com o título Portadores de Luz); In Passion for the World: A History of Seventh-day Adventist Education; entre outros. Casado com Betty June Wallace, tem três filhos.

Nesta entrevista, concedida ao jornalista Michelson Borges, o Dr. Greenleaf fala sobre o livro Terra de Esperança, que a Casa Publicadora Brasileira lança no mês de maio, e sobre os primórdios do adventismo no continente sul-americano:

Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre a história do adventismo na América do Sul?

Eu não sei dizer a hora ou o lugar, mas, em algum momento, durante meus estudos do doutorado em história da América Latina, surgiu a ideia de que eu deveria conhecer mais sobre o Adventismo nos países os quais eu estava estudando. Em benefício dos alunos que se matricularam na aula de História da América Latina, na qual lecionei, planejei escrever apenas um breve relato do desenvolvimento de nossa igreja. O projeto cresceu muito mais do que eu havia previsto no princípio.

O livro do pastor pioneiro Frank Westphal, no qual ele narra o trabalho que realizou neste continente, tem como título Pioneering the Neglected Continent (Desbravando o Continente Negligenciado). Por que o senhor acha que ele deu esse título ao livro? O senhor concorda que este tenha sido um “continente negligenciado”?

Frank Westphal não foi o primeiro ou o último a empregar o termo “continente negligenciado” para a América do Sul. Foi uma expressão popular entre os estudiosos e escritores no fim do século 19 e ainda no século 20. Provavelmente, expressava o fato de que muitos falharam em valorizar a importância da América do Sul e o papel que iria exercer em questões mundiais.

Que fontes o senhor pesquisou para escrever Terra de Esperança?

A história geral sobre a América Latina estabeleceu um contexto para o lugar que o Adventismo preencheu na América do Sul. Minha fonte mais rica foram correspondências nos arquivos da Associação Geral. Eu li milhares de cartas de missionários e obreiros sul-americanos. Centenas de artigos de revistas argentinas, brasileiras e norte-americanas proveram muitas informações, assim como artigos do South American Bulletin. Também li muitos relatos pessoais que missionários e obreiros sul-americanos escreveram. Dependi de sul-americanos que finalizaram estudos do adventismo em sua região. Também realizei entrevistas com líderes da igreja; alguns deles sul-americanos. Fiz uma pesquisa limitada nos arquivos nacionais dos Estados Unidos, em Washington.

De tudo o que o senhor pesquisou e leu para produzir sua obra, mencione alguma situação que mais o marcou.

Minha pesquisa ampliou e enriqueceu minha compreensão sobre nossa igreja, o que tem sido de valor inestimável para mim. Desenvolvi maior admiração pela maneira como nossa denominação trabalha. Uma das maiores satisfações foi ver quantos sul-americanos estudaram sua própria região e o papel que eles desempenham na organização adventista global. Lendo o que os sul-americanos escreveram e vendo o que eles fizeram, isso me ajudou a ver o crescimento do adventismo sob um ponto de vista favorável. Uma das mais memoráveis experiências aconteceu em 1977, quando minha esposa e eu passamos um mês visitando a América do Sul. Começamos essa viagem no Peru e terminamos com a visita à Brasília e um passeio pela nova sede da Divisão Sul-americana – para ver com meus próprios olhos alguns dos lugares com interesse histórico e denominacional na América do Sul. Foi uma experiência inesquecível, que não apenas me deu uma noção do continente, mas também foi muito inspiradora.

O adventismo alcançou o Brasil por meio das publicações. Graças à leitura de livros e revistas que aqui chegaram antes dos missionários de carne e osso, muitas pessoas já haviam abraçado a mensagem adventista antes de terem contato com os primeiros evangelistas e pastores. Como o senhor avalia o papel da página impressa no trabalho de evangelismo no continente sul-americano, ontem e hoje?

Nós nunca deveríamos subestimar o impacto da literatura no desenvolvimento do adventismo na América do Sul ou em qualquer outro lugar. As histórias dos começos do adventismo são todas parecidas: alguém leu um artigo ou um livro que levantou dúvidas e a busca pela verdade bíblica começou. É o cumprimento da visão de Ellen White em 1848, quando ela viu materiais publicados circulando a terra como torrentes de luz. Nós temos muitas maneiras eletrônicas de comunicação hoje, mas, apesar do quão eficiente nossa tecnologia possa ser, nunca devemos minimizar a importância do material impresso.

Nos primórdios do adventismo no Brasil, a literatura foi espalhada pela região de Brusque, SC, por meio de mercadorias embrulhadas em páginas de revistas adventistas e até mesmo graças a um bêbado que trocava as publicações por cachaça (confira aqui). Que outras situações inusitadas que revelam a ampla atuação de Deus o senhor encontrou em suas pesquisas?

Uma experiência semelhante ocorreu quando as famílias Peverini e Dupertuis, na Argentina, à parte uma da outra, leram o relato de um batismo adventista na Europa, no qual o autor fazia comentários jocosos. Em vez de convencer essas duas famílias de que o adventismo era uma tolice, o artigo despertou interesse nos leitores a ponto de procurarem mais informações sobre o assunto. No fim, eles se tornaram os primeiros crentes adventistas na América do Sul. Veja que benção essas famílias foram para nossa igreja! Dificuldades extremas frequentemente produzem uma fé mais forte e comprometimento, em vez de uma atitude de derrotismo.

Além da literatura, que outros meios de evangelismo tiveram grande sucesso na disseminação do adventismo na América do Sul?

Sob meu ponto de vista, os sul-americanos estão na vanguarda do evangelismo público transformador, tornando a verdade bíblica relevante socialmente, bem como espiritualmente atrativa. E, é claro, a tecnologia contemporânea tornou viável para evangelistas alcançar milhares de ouvintes muito mais facilmente do que antes. No entanto, por mais surpreendente que essas técnicas sejam, a participação de tantos sul-americanos na conquista de pessoas me impressionou como uma distintiva característica do evangelismo sul-americano.

Inicialmente, o adventismo teve maior penetração nas colônias alemãs, especialmente no Brasil, onde, até 1904, a pregação estava praticamente restrita a esses grupos. Por que foi assim?

Essa é uma história interessante. Durante o século 19, muitos alemães deixaram seus lares na Europa para procurar condições mais adequadas de vida em outro lugar. Alguns se estabeleceram nos Estados Unidos. Aproximadamente na mesma época, muitos colonos alemães que tinham vivido por anos na região do rio Volga e do Mar Negro tiveram problemas e migraram para a América do Sul e para os Estados Unidos. Conflitos religiosos foram grande parte da causa dessa migração.

Nos Estados Unidos, um número relativamente grande de imigrantes alemães se tornou adventista. Durante a década de 1890, na Alemanha, uma grande comunidade adventista emergiu nas proximidades da nossa casa publicadora em Hamburgo. Outra comunidade adventista se desenvolveu em Friedensau, onde uma nova escola gerou muitos missionários. O adventismo se desenvolveu muito bem entre os falantes de língua alemã e se espalhou de pessoa para pessoa, de país para país, por membros da família e amigos que escreveram um para o outro sobre isso.

Foi nas colônias alemãs na América do Sul que primeiramente surgiu o impulso mais forte do adventismo. Como os obreiros falantes da língua alemã estavam disponíveis, eles responderam ao chamado para ajudar. Foi necessário mais tempo para o adventismo gerar semelhante impulso entre as populações de fala espanhola e portuguesa.

Em sua opinião, por que é importante que os membros da igreja conheçam nossa história denominacional?

Se nós não entendermos nossas origens e onde estivemos, será muito difícil saber para onde estamos indo, por que estamos indo e como devemos chegar lá.

O que o leitor encontrará em seu livro? Por que lê-lo?

Eu enfatizei os começos do adventismo na América do Sul e segui falando sobre o crescimento das instituições. Após a 2ª Guerra Mundial, o evangelismo se tornou o mais poderoso tema no adventismo da América do Sul. Meu livro é bastante extenso e detalhado, mas eu tentei incluir suficientes histórias e pontos de interesse humano para tornar a leitura vantajosa. Espero que os leitores não apenas obtenham uma compreensão do adventismo na América do Sul, mas que experimentem a inspiração espiritual que a história representa.

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